A autobiografia de Alice B. Toklas

Ao comentar a autobiografia fictícia de Gertrude Stein, Assis Brasil examina seu papel como autora, anfitriã e catalisadora do modernismo
Gertrude Stein em pintura de Pablo Picasso
01/01/2026

1.
Para já, o título é propositalmente enganador, pois se trata, na verdade, da autobiografia de Gertrude Stein, escrita por ela mesma, mas publicada como se fosse por Alice B. Toklas, companheira de vida da grande escritora. Com isso, Gertrude Stein pode ser vista/narrada em terceira pessoa. Eis aqui uma surpreendente invenção que, por si só, justificaria esta coluna; e não foi apenas um rasgo isolado de criatividade da grande escritora, mas destinou-se, por esse recurso técnico, a ser uma notável contribuição à variedade do Modernismo europeu. Ademais, a forma não linear acresce-lhe uma peculiaridade de sabor, a romper com a indeclinável diacronia que domina o gênero. Em suma, se temos algo inédito no campo literário da época, isso aconteceu em 1933, quando foi lançada A autobiografia de Alice B. Toklas. Direi algo mais de sua literatura no parágrafo 6. Minha perspectiva, aqui e primordialmente, irá ater-se ao alcance cultural da atuação de Gertrude Stein, representada na obra.

2.
O salão parisiense de Stein foi um condensador de cultura, frequentado pelas personalidades do mundo modernista, como Hemingway, Nijinski, Picasso, Joyce, Ezra Pound e Matisse. Junto com o irmão Leo, Gertrude comprava tudo de bom dos modernistas em artes plásticas, tanto de autores conhecidos como daqueles que iniciavam, de modo que se pode atribuir ao apartamento da rue de Fleurus o status de um completo salão de arte contemporâneo e revelador de talentos, tal como fora o ateliê Nadar em relação aos impressionistas.

3.
Uma vantagem de publicar a “sob pseudônimo” era a capacidade de poder deslumbrar-se com os frequentadores de seu salão, chamando-os de gênios (ela própria se incluindo no rol das genialidades) e mostrando como esses homens extraordinários eram amigos dela; outro proveito era a liberdade para tratar qualquer tema, inclusive “menores”. Por exemplo: as visitas de Matisse davam-se, espertamente, em horário próximo ao jantar; era convidado, claro, mas a cozinheira, esta, vingava-se do penetra ao oferecer vulgares ovos fritos em vez de omelete: um estrangeiro poderia ter a deselegância de filar uma refeição, mas jamais um francês. Na pena de Stein ficaria inadequado esse relato culinário (e outros, no puro âmbito da fofoca), mas não na palavra de Toklas. O leitor que tire suas conclusões.

4.
Gertrude Stein reserva ao leitor a descoberta de uma prosa espirituosa, elegante, original, e que consegue captar o leitor, que é presenteado com várias passagens de reflexão, humor ou, até, francamente cômicas. Vê-se que era uma mulher cheia de vida e que gostava de minúcias, como se nestas estivesse a verdadeira delícia da arte — o que não é visível nas suas fotos, que representam uma matrona avançada em carnes, cabelos masculinos e sempre séria. Assim ela aparece no retrato que lhe pintou Picasso, e que ela dizia não a representar (“Não está parecido comigo, Pablo”, ao que ele respondia “Mas vai acabar sendo”.). No famoso retrato ela aparece menos que séria, melancólica até.

5.
O entra-e-sai de artistas no salão (muitas vezes com suas esposas, que ficavam congregadas em torno de Alice) poderia suscitar atritos bem acirrados, pois estavam em território neutro (digamos assim) e estavam livres para tal. O curioso é que a maioria das discussões derivavam das vaidades, dos pequenos ódios comuns, da vida mundana (de que Paris fervia), e são raras as pendengas de natureza estética. E todos eram modernistas, e o modernismo evoluía, e isso importava. A constatação me leva a pressentir que se criou, ali, um salão encapsulado na sua variante própria, um “modernismo à salão de Gertrude Stein”; difícil defini-lo, porque, para tal, seria necessário levar em conta fatores endógenos, presenciais, epidérmicos e convulsionados pelas sensações e humores — mas, sem dúvida, por força desse permanente escrutínio recíproco e emulações, a produção dos artistas/habitués de Gertrude Stein era tocada por um amadurecimento, seja no plano da concepção quanto no uso dos materiais. Por ser cápsula, esse cadinho nuclear teria sua própria dinâmica, a qual não deixaria de ressoar nas expressões seminais das técnicas e motivos artísticos de cada qual.

6.
Dentro dessa linha, implica considerar o gosto de Gertrude e seu irmão: quando ela se mudou para a residência definitiva, havia Cézannes, Renoirs, Matisses, a que foram incorporados Gauguins e um Toulouse-Lautrec, este último detestado por Picasso (“eu pinto melhor do que ele”). Havia poucos, mas valentes, quadros dos românticos, como Delacroix e até mais antigos, como um El Greco. Podiam ser discutidos livremente e, como “naquela época não valiam nada” [referia-se aos contemporâneos], cada qual dizia o que pensava. Essa troca ao vivo, impossível num museu, acabou por gerar preferências que não raramente significavam apenas implicâncias com as escolhas dos outros; o fato é que todos sabiam participarem de um momento único na história da arte, com “seleções naturais” de obras que, saindo da cápsula, e já na geração seguinte, iriam para os museus mais importantes do mundo, atingindo cifras milionárias nas casas de leilões.

7.
Gertrude Stein era mais do que a autora da célebre frase do experimentalismo modernista “Rose is a rose is a rose is a rose is a rose” [em que o primeiro “Rose” é um nome próprio]. Gertrude era, antes de mais, poeta, mas também ficcionista considerável. E aqui nos surpreendemos com uma rara intersecção artística: Stein escreveu o primeiro dos três textos [The good Anne] do consagrador Three lives, ao observar cotidianamente um retrato pintado por Cézanne, Portrait de Madame Cézanne, incorporado ao seu acervo. Tal como o retrato, composto decididamente por fragmentos de cor superpostos reiterados e confusos que a modelo inspirava ao pintor, Stein também escreveu uma narrativa cheia de repetições dos elementos descritivos da personagem e a reiteração obsessiva dos diálogos. Qualquer leitor, se desavisado dessa escolha estética e de sua origem, poderá encontrar alguma dificuldade em sua apreensão hermenêutica, mas nada que não possa ser superado. Outra intersecção artística está no propósito de Stein em fazer, com The good Anne um deliberado pendant com Un coeur simple, de Flaubert, que ela recentemente traduzira para o inglês. Com isso, temos uma triangulação de influências, capaz de satisfazer qualquer interessado em algo mais que uma leitura pedestre de um texto ou de um quadro.

8.
Se Gertrude Stein não tivesse existido, seria necessário inventá-la pela ficção, para exercer seu dramático papel literário inovador da autobiografia e catalisador e criador dentro de uma cápsula, de que nós, todos, somos beneficiários. Uma obra desse quilate deve, pelo poder da amplitude, ir para nossa mochila.

Luiz Antonio de Assis Brasil

É romancista. Professor há 35 anos da Oficina de Criação Literária da PUC-RS. Autor de Escrever ficção (Companhia das Letras, 2019), entre outros.

Rascunho