O novo ano entre Kairós, bigas e Moiras

Um olhar crítico sobre razão e barbárie no presente, cruzando filosofia clássica e política para convocar resistência ética e coletiva em 2026
Ilustração: Italo Amatti
01/01/2026

O novo ano começa trazendo um mundo velho que está desabando e, com ele, nossas expectativas de que tudo é possível, embora as possibilidades naveguem em um imenso oceano de incertezas.

2026 parece vir como mais um ponto de inflexão. Interligados forçosamente por gravíssimos problemas globais, vivenciamos, em cada um dos países, as mazelas estruturais construídas pela história. Não está fácil viver para a absoluta maioria das pessoas, e saber disso já é um bom patamar para equacionarmos saídas e perspectivas que visem não apenas à sobrevivência, mas ao reforço da vida, do comum, do fazer produtivo voltado a construir um futuro que seja coletivo, como proclama o Ibeac (Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário).

Olho este novo ano com gravidade e me remeto a reflexões mais longínquas. As literaturas me recordam o que os gregos denominavam Kairós, ou o “instante oportuno”, o tempo qualitativo e decisivo para a ação correta, diferente do tempo linear Cronos.

Atenho-me ao conceito de Kairós grego, e não ao apropriado pelos cristãos dos dois primeiros séculos d.C., que o reinterpretaram como “Tempo de Deus”, no qual Ele agiria, manifestando Sua vontade e Sua salvação. Entre as dificuldades do exercício da razão e as facilidades obscuras e imponderáveis da superstição, prefiro me alinhar ao que Baruch de Espinosa nos ensina em sua Ética (Parte IV):

O homem que é guiado pela razão é mais apto a unir-se aos seus semelhantes… porquanto o que é útil ao homem, que vive segundo a direção da razão, é também utilíssimo ao gênero humano.

Em um mundo altamente irracional, como alçar voos de equilíbrio que possam alcançar rumos mais virtuosos para a humanidade?

Meus amigos antigos, que continuam se oferecendo à leitura nas prateleiras de minha biblioteca, levam-me de Kairós ao mito da biga, do diálogo Fedro, de Platão. Nesse texto clássico, o filósofo cria uma metáfora sobre a condição da alma e a necessidade de autocontrole dos homens que querem alcançar a verdade e a perfeição. A alma é representada por uma biga, puxada por dois cavalos alados e guiada por um cocheiro. O cocheiro simboliza a razão ou o intelecto, sendo a parte da alma cuja função é guiar. Sob seu controle estão os dois cavalos, que representam as paixões e os impulsos. Um deles é a parte racional e virtuosa, enquanto o outro é a face das paixões irracionais e dos apetites (vícios). A biga, por sua vez, é o corpo físico, o veículo por meio do qual a alma se manifesta. O grande desafio do cocheiro é manter o domínio sobre esses impulsos opostos, utilizando as rédeas (o pensamento) para evitar o descontrole. É neste ponto que entra o conceito de Kairós.

A relação entre Kairós e a biga é crucial: a razão (cocheiro) precisa aproveitar esse momento certo para domar os cavalos e guiar o corpo (biga) na busca pelo ideal de perfeição, impedindo que o descontrole leve à queda e ao erro. Kairós é o instante em que a razão tem a chance de agir com sabedoria. O sucesso da alma reside em agarrar o Kairós. Se o cocheiro falhar em aproveitar esse momento oportuno, o cavalo das paixões irracionais pode desgovernar a biga, fazendo com que a alma perca sua oportunidade de “voar para os céus”.

Em essência, os cavalos são as forças que precisam ser domadas, e Kairós é o momento exato e fugaz em que essa dominação deve ocorrer para que a razão prevaleça sobre os desejos.

Os longínquos ensinamentos dos antigos gregos soam como desafios em um mundo no qual conceitos como virtude, verdade, autocontrole e sabedoria se esvaneceram nas rédeas de cocheiros que já não representam a razão que aspira “voar para os céus”. A realidade demonstra que muitos cocheiros têm sentimentos destrutivos como mandantes no comando de suas bigas. E, se as complexidades do mundo não podem ser reduzidas às individualidades de cada ser humano, não há como não responsabilizar nossas lideranças políticas e econômicas pelo estado do mundo.

Uma parte substantiva dessas lideranças provocou, em 2025, o horror, a violência e o medo:

1. A guerra entre Rússia e Ucrânia, que em outubro contabilizava mais de 50 mil mortos ucranianos, incluindo cerca de 3 mil crianças, soma-se às guerras civis no Sudão e na Síria e ao conflito armado de grande monta na República Democrática do Congo. Todos produziram catástrofes humanitárias.

2. Entre esses e outros conflitos, 2025 teve em Gaza, com a invasão israelense, o quadro mais horrendo deste primeiro quarto de século. Fontes de organismos internacionais apontam números que afrontam o imobilismo dos negacionistas:

• 167.376 pessoas mortas ou feridas; destas, a Unicef apontou em outubro que 64 mil crianças foram mortas, além de mais de mil bebês.

• 42 mil pessoas com lesões graves, sendo 5 mil amputadas.

• 2,3 milhões de pessoas deslocadas de seus lares; 55 mil crianças em idade pré-escolar enfrentam desnutrição aguda, e 80% das crianças sofrem danos psicológicos e sociais severos.

• Destruição em larga escala: 94% dos hospitais; 13 bibliotecas e o arquivo nacional; 90% das escolas; 100% das universidades.

• 745 mil estudantes de todos os níveis de ensino estão sem atividades há dois anos; entre o total de mortos, 18.216 são estudantes e 786 são professores.

3. Considerando os deslocamentos forçados por guerras, genocídios ou expulsões, no mundo e dentro dos próprios países, dados do ACNUR e da ONU apontam 117,2 milhões de migrantes vagando pelo mundo e 83,4 milhões deslocados internamente em busca de um lugar para viver.

4. No Brasil, entre tantas arbitrariedades e violências a combater, os números de mortos por ação letal da polícia são um retrato cruel de nossas desigualdades e nos alinham, sim, à desumanidade atual. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, referentes a 2024, são objetivos:

• 6.243 pessoas morreram em decorrência de intervenções de policiais civis e militares da ativa.

• 82% das vítimas eram pessoas negras ou pardas.

• Há concentração de mortes em indivíduos jovens, especialmente na faixa etária entre 18 e 24 anos, além de adolescentes (12 a 17 anos).

• Em síntese, a vítima típica da letalidade policial no Brasil é um homem jovem, negro, entre 18 e 24 anos.

Essas verdades amargas que angustiam os democratas abrem as portas de 2026 e nos lembram que devemos seguir resistindo. As reações às barbáries por parte dos movimentos sociais se fortalecem a duras penas e conseguem conquistas parciais importantes. Exemplifico com dois movimentos de 2025.

• Internacionalmente, a Cúpula Global de Refugiados e Migrantes (GRMS) e toda a mobilização da sociedade civil — ONGs e ativistas — em torno da crise humanitária global forçaram governos e a ONU a revisitar e reformar o sistema global de asilo, levando a uma nova articulação de financiamento e responsabilidades entre países. O foco nos deslocamentos causados pelas mudanças climáticas também integrou a agenda humanitária à agenda da segurança, um marco político a ser ampliado.

• No Brasil, saímos do Mapa da Fome e, entre outros movimentos, destaca-se a Marcha Nacional Vidas Negras Importam — Contra a Militarização, ligada diretamente ao debate sobre letalidade policial e segurança pública. As marchas e campanhas exerceram pressão sem precedentes sobre governos estaduais e o Congresso para debater a desmilitarização e o treinamento policial; a revisão da política de “guerra às drogas”, motor da letalidade; e a implementação de câmeras nos uniformes policiais, visando transparência e democracia na segurança pública. Para um tema estratégico e historicamente subalternizado nas políticas públicas, o movimento indicou um reposicionamento importante.

É preciso romper, em 2026, com o que pensava Homero, na Antiguidade, sobre o destino. Ele o entendia como um fio que se enrola em cada pessoa, inamovível e com comprimento definido. Na mitologia grega, três irmãs, as Moiras, detinham o poder de fiar, medir e cortar o fio da existência humana, traçando um destino inexorável para todo ser. Que venha o novo ano, e que estejamos preparados para saber romper, com a razão, o compromisso público e a sensibilidade coletiva, o destino que querem nos impor pela violência antidemocrática.

José Castilho

É doutor em Filosofia/USP, docente na FCL-Unesp, editor, gestor público e escritor. Consultor internacional na JCastilho – Gestão&Projetos. Dirigiu a Editora Unesp, a Biblioteca Pública Mário de Andrade (São Paulo) e foi secretário executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura (MinC e MEC).

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