Lulucha, mãe de todos, me olha profundamente e fala: “Obrigada”. Seus olhos firmes, em um lindo rosto, são o equilíbrio dessa senhora gentil que tem a voz de quem conduz pelo respeito conquistado. Como responder a um agradecimento que é recíproco, quando quem se sente agradecida nos deu muito mais do que poderíamos oferecer?
Foi a segunda vez que saí do Tarrafal, em Cabo Verde, com vontade de ficar. E não pelas belas praias, pelo tempo em espiral que se encaixa nos horários das conversas, pelas ruas que se fecham para o lançamento do livro do amigo escritor, pelos pescados frescos que vão dos barcos aos nossos pratos, em receitas tão parecidas com o gosto brasileiro. Se fosse só por isso, e nas devidas proporções, talvez eu estivesse nostálgico de minha cidade de infância e adolescência, à época do tamanho do Tarrafal. Mas Ibitinga não tinha mar nem um campo de concentração que confinou centenas de opositores à colonização portuguesa e à ditadura de António Salazar e onde morreram dezenas de presos.
Não, não me sentia nostálgico — situação raríssima para mim, atravessado que sou de história e de futuro: o meu e o de todos nós que atuamos como um movimento contínuo, fluido e sem volta, que só constrói ou destrói o que construímos ou recebemos da natureza. Em toda essa já longa trajetória, a melancolia da nostalgia não me tomou por mais de cinco minutos, quiçá por temer que ela me paralise — ideia que evito até no pensamento.
O que me fazia lamentar deixar o Tarrafal era o sentimento que me cerca sempre que vivencio o gosto de estar em meio a uma comunidade de sujeitos. E, como elas são muitas — basta ter disposição para encontrá-las —, percorro, há muitos anos, inúmeros caminhos do Brasil e do mundo ibero-americano. Desde 2025, em Cabo Verde, reencontro o mundo africano, retomando uma visita inicial feita no longínquo 2003, em Moçambique.
Meus caminhos são percorridos quase sempre como um viajante das leituras e das escritas, talvez motivado, desde a juventude, pela energia boa da música vibrante e andarilha de Milton Nascimento e Fernando Brant, que canta a luta democrática de Teotônio Vilela, o “Menestrel das Alagoas”. Ou, quem sabe, essas longas estradas que me levam longe da família, dos amigos e de minha casa — eles também “minhas” comunidades de sujeitos — sejam extensões das salas de aula que aprendi a amar justamente porque cada turma sempre foi, para mim, uma comunidade de encontros e descobertas.
Há muitos lugares que se parecem com comunidades no formato e até nos objetivos. Infelizmente, muitas não conseguem se completar, porque lhes falta o essencial que dá a esses territórios do encontro sua empatia única.
Uma comunidade de sujeitos não se anuncia; reconhece-se. Os filósofos a chamam de intersubjetividade; os pedagogos, de educação libertadora; eu, que viajo por bibliotecas e escolas, chamo-a simplesmente de casa. Ela acontece no instante em que as pessoas deixam de ser termos de uso — público-alvo, plateia, depósito de informação — e passam a ser voz, escuta e resposta. Ali ninguém é objeto do discurso do outro; cada um é sujeito do próprio dizer. Reconhecer o outro como igual não é cortesia nem método: é o gesto fundador de toda vida partilhada.
Encontrei essas comunidades em toda parte, e nunca duas iguais: num fórum de cidade grande, num seminário, numa roda de sarau na periferia, numa biblioteca comunitária do sertão, numa escola viva e democrática, numa cidade que se descobre leitora, na mesa de uma casa onde alguém guarda livros como quem guarda gente. Em várias partes do mundo, o mesmo fenômeno se repete: a palavra circula sem dono, o saber se constrói junto e o silêncio de quem escuta tem a mesma dignidade que a fala de quem diz. Nessas horas compreendo o que Paulo Freire ensinou: ninguém se liberta sozinho; libertamo-nos em comunhão.
É por isso que sempre me dói deixá-las. O viajante da leitura é hóspede da hospitalidade alheia: chega, reconhece, aprende, parte — porque sua tarefa é levar adiante o que ali se viveu. Deixar uma comunidade de sujeitos não é perdê-la; é carregá-la. Cada despedida guarda uma promessa de retorno, e cada retorno reencontra a comunidade mais dona de si do que a memória. Ela fica onde estava, mas fica também em mim; e eu a reencontro em cada biblioteca, em cada roda, em cada terreiro de Cabo Verde ou do Brasil, em cada casa onde ainda se acredita que ninguém nasceu para ser objeto de ninguém.
Sempre que volto dessas viagens, os bons sentimentos do retorno à casa e ao aconchego do meu casulo se chocam com o reencontro do Brasil que nos cerca: desigual, pleno de preconceitos seculares e excludentes, autoritário e carente da consciência política que transforma para melhor o nosso padrão civilizatório.
Se o tempo é em espiral nos oásis comunitários que procuram se construir de maneira equânime, no Brasil da elite ainda escravocrata, racista, machista e xenófoba ele é linear, produtivista, numeral, e a luta é contra o mando sem regras nem leis e contra a servidão de toda ordem. Terminar uma viagem é também voltar a enfrentar essa dura realidade que persiste em continuar.
Não há paz. Minha geração, que vem logo após a guerra em que o nazismo e o fascismo foram derrotados, não conheceu a paz e a harmonia. Pergunto-me se aqueles que nos precederam poderiam dizer algo diferente. Por vivermos a fase de desenvolvimento tecnológico mais rápido da história conhecida, tivemos melhores oportunidades de mudar rumos em espaços de tempo que outras eras levariam séculos para percorrer. Muitos avanços humanitários — na saúde, nos direitos sociais e econômicos, no reconhecimento da equidade — aconteceram. Os últimos cento e vinte anos deram saltos, conquistando patamares civilizatórios impensáveis no início do século 20.
Mas nem tudo foram flores: a base estrutural das desigualdades soube permanecer, reciclar-se e continua sendo ela o poder de mando no planeta. Sempre foi movida pela dor e pela opressão. Os ciclos econômicos mudam, mas seguimos vivendo muito distantes dos valores de uma comunidade humana, como os que encontro nesses núcleos em que gosto de estar.
O que pensar dos dados aterradores de pesquisas insuspeitas que demonstram, entre tantas iniquidades, que um grupo ultrasseleto de menos de 60 mil pessoas — cerca de 0,001% da população adulta global — possui, em conjunto, três vezes mais riqueza do que a metade mais pobre da humanidade? Ou que os 10% do topo concentram cerca de 75% da riqueza patrimonial do globo? Ou, ainda, que os 1% mais ricos detêm cerca de 37% de toda a riqueza pessoal global?
Os dados são objetivos; a percepção — e, mais ainda, o entendimento — sobre eles é difusa e oculta à maioria da população, alienada até de seus direitos básicos para compreender o mundo real, inclusive o fundamental direito à leitura, que possibilita o pensamento crítico. A alienação ideológica faz a concentração massiva de renda parecer “natural” ou fruto exclusivo da meritocracia. Quando os indivíduos não conseguem enxergar as estruturas macroeconômicas que produzem a pobreza, a capacidade de contestação política diminui, perpetuando o status quo.
Hoje, 1º de outubro, estamos no mês decisivo em que tudo será jogado para que os poucos passos que demos em direção a um Brasil que aspira ser uma comunidade de sujeitos sejam derrotados. A ultradireita dos Bolsonaros e seus coadjuvantes — que se apresentam até como escritores — jogam pelo retrocesso e pelo obscurantismo da submissão voluntária aos poderosos da elite brasileira e internacional. Por isso me dirijo, em especial, a quem trabalha com o livro, a leitura e as bibliotecas: cada um de nós é, antes de tudo, um cidadão. Não basta escrever ou mediar; é preciso sair da estante e ir ao território, conversar, argumentar, disputar o voto onde a desinformação já chegou. Em 2018, a ultradireita venceu também porque a resistência democrática se dividiu e se calou. Em 2026, a lição está aprendida: quem defende a leitura e a cultura defende a democracia — e precisa conquistar votos, um por um, para que o fascismo não volte a vencer. A memória do que foi destruído é a primeira linha de defesa; a leitura, a segunda; o voto consciente, a terceira. Nenhuma delas pode faltar.
NOTA
Os dados sobre concentração global de riqueza citados no texto provêm de World Inequality Report 2026 (World Inequality Lab) e UBS Global Wealth Report 2026.