Acaba de ser relançado Querô, uma reportagem maldita, de Plínio Marcos, livro cuja primeira edição, de 1976, recebeu o prêmio de “melhor romance do ano” da Associação Paulista de Críticos de Arte. No ano seguinte, o texto recebeu uma adaptação de sucesso para o cinema com o título de Barra pesada, com direção de Reginaldo Farias e o papel-título entregue a Stepan Nercessian. Em 1979, Plínio Marcos reescreveu quase inteiramente o texto para teatro, cuja montagem efetiva apenas se dá em 1992, sob a direção de Eduardo Tolentino, tendo no elenco Aiman Hammond, Gustavo Engrácia e Walderez de Barros, entre outros. Em 2007, ainda houve uma nova adaptação para cinema, com o título reduzido para Querô, com direção de Carlos Cortez, tendo no elenco Maxwell Nascimento, Maria Helena Mendonça, Angela Leal e Milhem Cortaz. Trata-se, portanto, de um dos textos mais longevos e bem-sucedidos de Plínio —daquele tipo que, como ele diria, parece sempre atual porque o Brasil não muda nunca.
Um aspecto-chave do texto, que o próprio título deixa claro, diz respeito ao imbricamento entre os fatos sempre desgraçados da vida de Jerônimo da Piedade, vulgo Querô, e a má consciência do repórter que o ouve contar as suas memórias. Isso porque sabe, de antemão, que os editores farão da reportagem um espetáculo para consumo ligeiro e não um esclarecimento das contradições que levaram à destruição precoce da vida do garoto criado nas ruas e em reformatórios. No entanto, o que está no primeiro plano do texto, como da peça, não é o “resgate” da imagem do marginal, mas a compreensão de que a mitologia da marginalidade, alavancada pela imprensa, é uma barreira quase intransponível, seja para a reintegração social dos marginais, seja para a partilha de sentido entre ordens diversas da experiência, sobretudo quando se dão num mundo sobredeterminado por desigualdades sociais brutais.
Num registro de viés expressionista, isto é, dramático e excitado, é impressionante a sucessão de desgraças que atinge Querô desde o nascimento: do suicídio da mãe prostituta à criação promíscua e violenta no bordel; da amizade traída entre os moleques que vivem de expedientes no mercado e no cais até a degringola geral que se dá a partir da sua entrada no reformatório, onde a exploração sexual e a violência dos adultos ditam as regras da sobrevivência; do encontro com os policiais Nelsão e Sarará, que o prendem, torturam e ainda o querem “cafetinar”, obrigando-o ao crime para extorquir parte de seus ganhos às chantagens que fazem para forçá-lo ao torpe papel de informante, de “rato”.
O ponto sem retorno da tragédia de Querô se dá, contudo, quando ele rouba e assassina um ex-colega de reformatório, o Zulu, que ostentava, orgulhoso, o novo status de vendedor de drogas nas bocas de fumo. Ao liquidar alguém igual a ele mesmo, Querô mergulha definitivamente no “jogo sujo” de exploração generalizada, cuja lógica faz com que os pequenos marginais sejam levados a destruir-se uns aos outros numa catástrofe sem fim e sem propósito.
É verdade que Querô sonha romper esse ciclo de infelicidades, mas ele o faz seguidamente da única maneira que conhece e que sempre o conduziu ao erro: pela forra, pela vingança. Assim, no ataque frontal e solitário que faz contra os policiais bandidos, Querô também acaba gravemente ferido. Ao final do “acerto de contas”, já não há esperança, nem redenção: Querô vira estatística da segurança pública e personagem da mitologia sensacionalista produzida pelo jornal, quando a figura do fora da lei temível lança uma nuvem de fumaça atraente e comercial para o que seria mais bem descrito como efeito em série de uma fratura social e política profunda.
É isso mesmo o que faz com que o narrador-repórter, no intervalo entre a gravação das memórias de Querô e a entrega da reportagem ao jornal, sinta o “coração pesado” e se veja assombrado por seus “próprios fantasmas”. Depois de tudo o que ouviu de Querô, sabendo que ele não passava de um menino assustado, engolido por um “jogo sujo” do qual não fazia as regras, nem tinha ideia das causas, o repórter antevê, com irônica amargura, a manchete do seu jornal: “Acabara a caçada ao perigoso bandido Jerônimo da Piedade, vulgo Querô ou Querosene”.
Nesta última leitura que fiz da novela, entretanto, o que me chamou a atenção foi algo que até então, em tantas outras leituras e montagens, me passara despercebido: o nome verdadeiro de Querô, como consta do depoimento colhido pelo repórter, foi dado por sua mãe em homenagem ao santo do dia do seu nascimento. No caso, 30 de setembro, dia de São Jerônimo. Acontece que São Jerônimo, como se sabe, ou se costumava saber, é o padroeiro dos estudos bíblicos e autor da mais célebre tradução da Bíblia, a Vulgata latina. Assim, em termos teológicos básicos, Jerônimo foi o intérprete da palavra de Deus por excelência.
Pois bem, se aplicarmos essa figuração teológica de São Jerônimo à interpretação da vida de Querô, o que isso nos poderia sugerir? Que o repórter divulga as memórias e, portanto, a palavra de uma espécie de Cristo redivivo como moleque de rua e marginal? Ou talvez que o próprio Querô, ao assumir a posição de narrador diante do gravador do repórter, torna-se arauto de uma teologia que se configura como um duro combate interior, travado, porém, não no deserto, mas na selva da cidade, quando é brutalmente ferido e caçado pelos homens seus iguais? Na novela de Plínio, as duas hipóteses parecem plausíveis e ainda se sobrepor.
E se Querô nasce sob o signo de São Jerônimo, também não devemos esquecer que o sobrenome que ele herda da mãe prostituta e suicida é “Piedade”. Certamente não foi um nome dado aleatoriamente por um autor como Plínio Marcos que nem doura a pílula das misérias, nem se coloca jamais acima dos miseráveis. É palpável a compaixão que ele sente por suas personagens pinçadas do lumpesinato, pois mesmo diante de atos hediondos eventualmente cometidos por elas, jamais se esquece de que elas são seus “próximos”.
A imagem do exegeta, portanto, embaralha as figuras de Querô, que conta as suas memórias, e a do repórter, que testemunha a sua via-crúcis. Assim se evidencia a contradição que Plínio Marcos destina ao repórter-narrador da novela, surpreendido justamente entre o sensacionalismo da matéria que deve produzir e a compaixão que sente pelo garoto cuja história já não pode desconhecer. Na tradução de São Jerônimo, a pietas está associada a sua fidelidade radical à palavra sagrada, que aqui não é preciso identificar com a palavra de Deus, mas com a verdade absolutamente humana que aquela vida destruída pode elucidar.