Nas colunas anteriores, vimos como Plínio Marcos, na peça Balada de um palhaço, de 1986, cria a personagem do palhaço Bobo Plin como imagem do artista em crise, que julga ter perdido não apenas o seu talento, mas a sua própria “alma” — um termo aplicado sem distinções particulares para referir algo como a sua “essência”. Segundo Plin, essa perda de si mesmo se teria dado por conta de apresentações dominadas por automatismos profissionais, por concessões ao gosto dos públicos e pela imitação de modelos consagrados de atuação que nada diziam de si ou da personalidade criativa.
Ao longo da peça, entretanto, vai-se revelando que a ausência essencial que aflige Bobo Plin não é um problema exclusivo do artista: com o público passa-se exatamente o mesmo. Entregues aos hábitos ordinários, dominadas pelo cansaço da rotina, pela exploração asfixiante do seu trabalho, as pessoas das distintas cidades por onde passa o circo parecem se mover apenas por motivações fátuas, escapistas, que as alienam tanto do mundo como de si mesmas. E, no âmbito dessas ações alienantes, as mais perniciosas, na perspectiva de Bobo Plin, são sempre aquelas determinadas pelo consumismo articulado à propaganda.
Ou seja, em formulações análogas àquelas que, na década de 1960, faziam pensadores radicais — como Gui Debord, para dar um exemplo paradigmático —, Plínio Marcos relaciona o declínio da vida interior do palhaço com um processo de espetacularização mercadológica da vida das pessoas e das comunidades. Operando por meios de comunicação de massa hegemônicos em todo o mundo, e não apenas no Brasil — os quais, naquele momento, eram identificados sobretudo com a ação intrusiva da televisão —, o consumismo implantaria um maquinismo de indistinção e de despersonalização. E, para esse mecanismo monstruoso, Bobo Plin, pesarosamente, sentia que contribuíam os próprios artistas, reduzidos a “arautos” de falsos deuses, compelidos a atuar como garotos-propaganda de empresas que tratavam pessoas como público-alvo, o que, bem entendido, significava rebaixá-las a potenciais presas de uma armadilha que lhes retirava a vontade própria.
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Apenas uma pausa aqui: não é incrível pensar que, em 1986, a presença de artistas como garotos-propagandas de quaisquer produtos ainda escandalizava um artista popular importante como Plínio Marcos? Quantos séculos se passaram nesses 40 anos entre 1986 e 2026 para que, hoje, em larga medida, um artista seja considerado bem-sucedido exatamente por sua capacidade de movimentar bilheterias, subprodutos, negócios? É certo que, já na época da estreia de “Balada de um palhaço”, a peça era um protesto quase solitário, e Plínio Marcos já era visto como inconveniente ou lunático por boa parte da própria classe teatral — mas, em 2026, a aflição de Bobo Plin soa quase incompreensível: quase como um alarme alienígena na época da total naturalização das franquias e das celebridades da internet, para não falar da proliferação degradante de vendedores trapaceiros travestidos de artistas. Vale dizer, quando “arte” e “indústria” são praticamente termos empregados como sinônimos, sem qualquer pudor, quantos artistas de primeira plana ainda trariam para o núcleo da sua obra um libelo anticonsumista, na forma de uma autocrítica, já que voltado contra a própria classe artística? Por isso tudo, a ideia que me dá ao ler “Balada…”, é que a peça, se montada hoje, teria de dar ao seu anacronismo a forma de um panegírico fúnebre.
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Tornando ao texto: a ideia lançada ali é a de que o artista submisso ao gosto de um público anódino, contaminado pela propaganda, orienta-se pela mesma perspectiva medíocre da escravização ao negócio. Quando chega a esse ponto, a arte se vê diante de um impasse duplamente asfixiante: de um lado, a maioria dos artistas reduzida a vendedores de irrelevâncias; de outro, uma audiência que resume o propósito da vida em “dormir, comer, trabalhar” — fórmula que Plínio Marcos julga “teleguiada” sobretudo pela associação entre as grandes empresas multinacionais e os veículos de comunicação de massa.
Tal é, portanto, o miserável estado de coisas descrito por Bobo Plin, no qual a perplexidade do artista é um índice contundente da degradação geral da sociedade. A ver desse modo, Balada… é uma invectiva lançada tanto contra uma classe artística cada vez mais permeável à propaganda, quanto contra um público dócil e indiferenciado, que ri e aplaude porque acha que é isso que deve ser feito quando as cortinas se fecham e o jantar espera no restaurante ao lado.
Numa relação dialética com tal estado de coisas, Plínio Marcos parece defender justamente a centralidade da figura do bufão no domínio de uma vida espiritualmente complexa. E isso não porque o bufão forneça algum modelo de vida exemplar, mas porque seria próprio do palhaço a disposição para revelar os seus defeitos e paradoxos, e apresentar-se como objeto de riso justamente por conta deles. Trata-se, aqui, portanto, de o artista adotar uma posição oposta àquela de simular triunfos, de ostentar grandezas insustentáveis em si mesmo — haja rede social para isso! O artista não busca empoderamento, mas a completa exposição das suas fraquezas. Daí que, Bobo Plin, afinal, tenha mesmo de ser “bobo” e que a sua verdade apenas possa ser concebida à vista de gestos desdenhosamente solitários e orgulhosamente ridículos.
O discurso afiado de Plínio Marcos contra a massificação e a mercantilização da arte, certamente, como disse antes, tem muito do voluntarismo romântico reativado pelos radicalismos dos anos 1960. O que parece distinguir o artista em crise de Plínio Marcos, porém, não é apenas a sua face frontal e ostensivamente provocadora, mas sobretudo a sua forma circense. O que ela nos diz exatamente? Certamente, em primeiro lugar, ela anuncia a possibilidade de uma alegria coletiva, mas não aquela que apenas obedece à rotina e cumpre os horários, mas sim justamente aquela conquistada pela ruptura do costume a partir da revelação da miséria do palhaço.
Não admira, portanto, que Plínio Marcos, ao aplicar o conceito de “religiosidade subversiva” a peças como Balada…, Madame Blavatsky ou Jesus-Homem, acentue o papel de figuras que são alvos de polêmicas e controvérsias — como a mística Helena Blavatsky, vituperada como charlatã; ou como Judas Iscariotes, o traidor, por antonomásia; ou ainda como o próprio Cristo, vendido e negado mesmo por seus discípulos, chegando a ser preterido pelo homicida Barrabás. Todas essas figuras agônicas, de que Bobo Plin é mais um exemplo, provam, à custa da própria vida, uma resistência forjada em meio profundamente hostil.
No caso específico do palhaço, a sua precedência epistemológica na ideia da conquista da própria autonomia parece associar-se ao fato de que apenas aquele que domina a arte de ser objeto do riso alheio — como um idiota que toma as rédeas de sua idiotia — está apto a romper com a opinião pública e seu cortejo de tiranias.