A má-ternidade da língua

Entre linguística e psicanálise, a língua materna surge como força que marca o corpo, constitui o sujeito e revela a alteridade presente em toda fala
Nina Virgínia e Paulo Sérgio de Souza Jr, autores de “A língua materna”
01/10/2026

A língua materna e sua relação com o inconsciente, dos psicanalistas Nina Leite e Paulo Sérgio de Souza Jr., ambos ligados ao Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp, é um livro importante para os estudos lacanianos no Brasil. De modo geral, os autores partem de problemas levantados pela linguística, como a arbitrariedade do signo, a diferença, a estrutura, a nomeação, a tradução e a aquisição da linguagem, deslocando-os para o campo da psicanálise. Assim, se os signos da língua extraem a sua identidade das relações que estabelecem entre si, aqui, essa mesma lógica é transposta para uma teoria do sujeito.

A tese principal do livro, se posso dizer assim, é a de que a língua participa da constituição do sujeito no sentido forte de “marcar” o seu corpo e de gerar nele um tipo particular de alteridade. Por sujeito entenda-se, portanto, alguém submetido a uma linguagem que o antecede e que jamais alcança um controle completo de suas intenções e palavras.

Nessa perspectiva, aprender a língua materna não significa que a criança domine uma língua disponível para ela, mas sim que seja “capturada” por uma estrutura precedente da linguagem. É isso o que explica o quiasmo dos títulos da primeira seção do livro: Corpo, berço da linguagem e Linguagem, berço do corpo. O corpo fornece o suporte material da voz, da boca, dos gestos etc., mas ele só se torna realmente humano, isto é, organizado como uma unidade subjetiva, mediante a ação da linguagem. É o chamado corpolinguagem, expressão recorrente nos trabalhos de Nina Leite.

A incidência da linguagem sobre o corpo é concebida então como uma operação estruturante, mas igualmente traumática. Como não sou lacaniano nem psicanalista, tampouco posso ser quem melhor entenda ou explique essa ideia, mas é mais ou menos assim: é a palavra que dá consistência ao corpo de alguém ao permitir que a sua experiência seja nomeada. No entanto, como essa nomeação nunca é completa, acaba sobrando, entre a palavra e a experiência, um “resto” que não se deixa simbolizar. É esse resto que Lacan designa pelo célebre conceito de lalangue (em português, “lalíngua”), isto é, não a língua organizada como um sistema gramatical, mas sim entendida como um depósito de sons e fragmentos verbais que atingem o sujeito antes mesmo de ele dominar os seus significados. Assim, por exemplo, antes de aprender a língua portuguesa, a criança é afetada pelas entonações das pessoas mais próximas, pelas homofonias, pelas frases repetidas, pelos modos com que é chamada, entre tantos usos de elementos primários da lalangue a que é exposta.

Concebida dessa maneira, a língua materna não é exatamente um espaço de familiaridade: o sujeito diz algo além do que pretendia, não reconhece alguns sentidos associados ao que diz e, enfim, comete sucessivos tropeços linguísticos. A psicanálise, por sua vez, afia a sua “escuta” exatamente para tais tropeços, em sua materialidade básica. Repetições, cortes, ambiguidades, desvios gramaticais, lapsos etc. passam então a ser vistos como signos do inconsciente, o qual, dessa forma, não designaria um conteúdo secreto escondido “atrás” da linguagem, mas a própria linguagem evidenciada por esses acidentes da fala. Claro, não se trata de assunto estranho a quem leu os estudos de Freud sobre o “chiste” ou os temas abordados em Psicopatologia da vida cotidiana: a ideia básica é a de que o inconsciente surge no ponto em que a fala deixa de ser controlada pelo locutor.

Na segunda seção do livro, A língua do outro e a nossa, expõe-se a ideia de que nenhuma língua é inteiramente própria, pois conserva em si marcas de disputas históricas. O vernáculo pode funcionar como instrumento de unificação política e também de supressão de outras línguas — como no caso brasileiro, em que a instituição do português envolveu a marginalização das línguas indígenas e africanas. E assim como o sujeito imagina ser o único senhor de uma língua que, de fato, recebeu de outro, as comunidades imaginam possuir um idioma homogêneo cuja história efetiva, porém, é atravessada por violência. Isso significa que o estrangeiro está instalado no cerne do idioma, o que também explica o lugar privilegiado da tradução na reflexão de Nina e Paulo Sérgio. Para eles, nem mesmo dentro de uma única língua o sujeito diz exatamente aquilo que supõe ter dito ou gostaria de dizer. Daí a imagem da clínica psicanalítica como uma “hospedaria” — que Jacques Derrida interpreta em analogia com a hospitalidade concedida ao estrangeiro. Assim, quando o analista ouve uma fala, a alteridade dela não deve ser rapidamente reduzida a diagnósticos ou a categorias já estabelecidas, mas, ao contrário, oferecer hospitalidade ao “estranho” presente nela.

A terceira seção, “A língua através do espelho”, trata da relação entre a linguagem e o problema da identificação. A metáfora privilegiada para falar dela é a do espelho: se este oferece ao sujeito uma imagem unificada de si, também é verdade que a imagem que o sujeito toma como própria lhe chega de fora. O mesmo ocorre na língua: a voz que o sujeito reconhece como própria é, de fato, formada por palavras alheias e o “eu” com que designa a si mesmo pertence ao código comum antes de lhe pertencer. Ou seja, o reflexo tranquiliza porque oferece unidade, mas também “assombra” porque revela que a identidade depende de uma exterioridade. O “próprio” aparece como sendo uma espécie de duplicação do estrangeiro, sendo que o “outro” da língua não é apenas o interlocutor do sujeito, mas o sistema simbólico impessoal inteiro do qual depende toda fala.

A última seção, O que se escreve disso?, é dedicada à escrita, apoiando-se, entre outras referências, na distinção lacaniana entre “significante” e “letra”. De acordo com ela, a escrita não é um simples registro gráfico da fala. O traçado da letra produz permanência, mas não tem poder para estabilizar definitivamente o sentido da fala. A conclusão é que a “letra” designa uma materialidade limítrofe entre o real e o simbólico, vale dizer, capaz de portar significação, mas permanece como “inscrição”, isto é, como um resto resistente a ela.

Em resumo, diria que o livro de Nina e Paulo Sérgio apresenta uma ideia de língua materna (a) como constitutiva do sujeito; (b) que afeta o seu corpo antes de ser compreendida; (c) que organiza as suas identificações, mas (d) deixa vários restos, justamente (e) os que reaparecem nas formações do inconsciente.

Ou seja, vai longe a ideia de língua materna acolhedora como um regaço de mãe ou orgulhosa como um símbolo paterno da comunidade. A rigor, sequer a imagem poética da pátria espiritual de Fernando Pessoa cabe aqui. Vem-me então à lembrança o lamento do gigante Adamastor dirigido à ninfa Tétis, que ele tanto desejava, quando esta não apenas o ilude, como o obriga a reconhecer a trapaça de que fora vítima. Perplexo, o gigante protesta: “ó Ninfa… que te custava ter-me neste engano?”. E nós, diante de quem vamos apresentar as letras de nossa orfandade?

A língua materna
Nina Virgínia de Araújo Leite e Paulo Sérgio de Souza Jr.
Zahar
208 págs.
Alcir Pécora

Crítico literário, é autor de Teatro do Sacramento (1994); Máquina de gêneros (2001) e Rudimentos da vida coletiva (2002). É organizador de A arte de morrer (1994), Escritos históricos e políticos do Padre Vieira (1995), Sermões I e II (2000-2001); As excelências do governador (2002); Lembranças do presente (2006); Índice das coisas mais notáveis (2010); Por que ler Hilda Hilst (2010). Editou as obras completas de Hilda Hilst (2001-2008), Roberto Piva (2005-2008) e Plínio Marcos (2017).

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