Prêmios literários: notas para um debate (1)

Critérios estéticos, sociais e políticos orientam a análise de obras recentes que ampliam vozes e experiências na literatura
Ilustração: Maíra Lacerda
01/02/2026

Texto escrito em parceria com Maíra Lacerda

O que são os prêmios literários? Para que servem? Devem ter, em princípio, o objetivo de assinalar o reconhecimento do valor das obras e a legitimação da qualidade, sublinhando a difusão de novas experiências formais ou temáticas, a fim de funcionar como validação de trabalho e guia de leituras. Se uma obra de arte se define pela expressão estética e pela inerente relação ética, tais elementos serão determinantes na premiação dessa natureza. Mas, no quadro contemporâneo, para além do estético, mostra-se comum considerar também aspectos sociais e políticos no conjunto de dados avaliativos. Interessa-nos, nesse cenário, pontuar visões legitimadoras de vozes ausentes ou pouco presentes na produção literária, cujas premiações conferem visibilidade a temas e formas censuradas ou impedidas de circular por fatores diversos.

Antonio Candido concebe a literatura como fator humanizador, sem estabelecer qualquer diferença entre os registros de origem oral, popular, escrita ou erudita. Na prática, porém, temos uma hierarquização desse material e, nos debates em voga, assinala-se o quanto a expressão literária conhecida e valorizada acaba por limitar-se, em parte, à presença de grupos e temas hegemônicos. Quando isso acontece, toda uma comunidade de leitores é alijada do conhecimento de uma condição possível. Representar, por via estética, circunstâncias que uma porção da sociedade prefere calar é ato necessário à humanização plena.

Referência do pensamento crítico brasileiro, Silviano Santiago não perde de vista a complexidade de nossa nação ao traçar, em conferência de 2002, um panorama da literatura brasileira contemporânea para um público norte-americano. Expõe, em “Uma literatura anfíbia”, o quanto uma sociedade estruturalmente desigual está implicada nessa produção, o que obriga alguns autores, em atenção aos preceitos de docere, delectare e movere, a privilegiar o docere. Em bom português do Brasil, nossa literatura não perde de vista o ensinar, que não se restringe à imbricação entre ético e estético, mas precisa contemplar o básico: denunciar condições espúrias de vida para transformá-las, por meio da reflexão e da ação de quem lê, em condições legítimas. Como afirma Santiago: “Isso não é mau para os escritores que, tendo feito a opção pelo híbrido [arte e política], nunca se descuidam do eterno aprendizado do ofício literário”.

Ao tomar essa concepção, vemos, passados mais de vinte anos, o quanto ainda é válida. A indefectível presença das pautas sociais na expectativa de uma nação menos excludente e preconceituosa leva arte e política a se enlaçarem. No entanto, a forma de representar tais pautas — que deve vincular-se ao constante aprender do ofício — será parte determinante do sucesso da própria literatura. Mas estamos no âmbito dos prêmios literários atribuídos à literatura que crianças e jovens também podem ler, e queremos tomar um olhar específico para obras que receberam distinção em eventos recentes, concedidas por instituições renomadas.

O porteiro, de Vitor Rocha, narrativa de imagens com mínimos aportes de discurso verbal, começa e termina sua história no espaço estrutural do objeto que, em geral, é meramente decorativo — as guardas do livro. O protagonista é uma das tantas figuras invisibilizadas no frenético cotidiano urbano, temática já trabalhada em outras obras relevantes. O diferencial desta, no entanto, está na força do conflito e na resolução inusitada, contemplando uma figura sobre a qual repousa a força das grandes engrenagens, sem que as pessoas costumem se dar conta disso.

Tão comum quanto não valorizar quem sustenta o dia a dia coletivo é conceber o ser humano na dicotomia entre bem e mal, certo e errado. Zé Bigode: Rei da rua em cordel, por Eduardo Ver, traz a vivência popular e a crença de matriz africana, integrando em seus personagens as partes constitutivas do todo, com reconhecimento da força de cada uma delas, sem qualquer julgamento moral. A gratidão pelo protetor sagrado é um valor relevante, presente no exercício da vida. O livro — na verdade, uma plaquete — constitui-se de folhas soltas, coloridas, com xilogravuras que expõem nossa melhor tradição no campo.

A bibliodiversidade, demanda contemporânea, é bem observada no conjunto das obras que recebem as distinções. Entre elas, textos literários, informativos e outros formatos testemunham experiências não hegemônicas, como as vozes do feminino e seus ofícios. Da lavagem de roupa à escrita, a presença da mulher é discutida enquanto sujeito do querer e do fazer. Profissões para mulheres, de Virginia Woolf, aborda o direito de a mulher gerenciar a própria vida em todos os aspectos. O projeto editorial, ao adicionar os pincéis, os recortes e o engenho de Marilda Castanha, acrescenta mais um atestado da força de criação feminina e corrobora as afirmações da escritora sobre a necessidade de matar “O Anjo do Lar”, ter uma renda própria e um lugar todo seu. Tais passos ajudarão na contínua análise de fins e objetivos dessa luta, a serem compartilhados no enfrentamento de fantasmas e obstáculos adversos à realização feminina.

Quase um século depois, Amma e Angélica Kalil recriam, em texto e ilustrações, a meninice de várias mulheres que alcançaram projeção na cultura brasileira, em abordagem de amplo leque de perfis: artistas, esportistas, cientistas, líderes políticas e religiosas. Meninas dá largo testemunho do eco positivo das ideias e da escrita de Woolf junto ao público feminino, com o devido desdobramento na sociedade.

Todavia, sem a ampla possibilidade de escolha possível às mais abastadas, os ofícios domésticos costumam ser opção majoritária para mulheres que precisam ganhar a vida. E que têm histórias para contar, repassar, escrever, como faz Mafuane Oliveira, ao recolher cantos e contos que vêm de boca em boca, de lavadeira a lavadeira, e caem na escrita da escritora e nos pincéis de Taisa Borges. Em Cinderela do rio mesclam-se várias matrizes de narrativa oral e escrita, em que saber do povo, mitos ancestrais, metamorfoses presentes desde Ovídio e antes dele, fluem pelas águas de nossos rios. A protagonista atualiza a história da menina órfã, explorada pela madrasta, transplantada para a brutal realidade brasileira.

As obras aqui observadas não se afastam desses pontos. Sem perder de vista a literatura como sismógrafo de uma sociedade — como observa Moacyr Scliar —, o artístico deve preponderar sobre o testemunho ou o documental. É a arte que transforma existências, no vislumbrar de caminhos e identidades possíveis, processos viabilizados pelo simbólico e pelo tempo de leitura. Fator determinante para o curso do ato de ler, o tempo, essa dimensão que é invenção do humano, opera no correr das linhas ou nas paradas sobre elas, distanciamentos, ruminações, insights que evidenciam os abismos da vida, seus êxtases e descalabros. As obras distinguidas por um prêmio literário devem honrar esse compromisso.

Maíra Lacerda
Designer e ilustradora. Professora no Instituto de Artes e Comunicação Social da UFF, com doutorado em Design pela PUC-Rio. Prêmio de tese pelo Museu da Casa Brasileira. Pesquisa os livros para crianças e jovens e a formação visual do leitor no laboratório LINC-Design.
Nilma Lacerda

Escritora, tradutora, professora, recebeu os prêmios Jabuti, Rio, Brasília de Literatura Infantojuvenil, entre outros. Trabalhou em várias universidades públicas, é colaboradora da UFF. Exerce a crítica de literatura para crianças e Jovens e mantém um Diário de navegação da palavra escrita na América Latina.

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