Leitura e liberdade: uma galáxia

A liberdade de ler emerge do exercício dos sentidos, da pluralidade de vozes e da escolha crítica que transforma a leitura em experiência democrática
Ilustração: Maíra Lacerda
01/10/2026

Há um ano, aqui neste Rascunho (nº 306, outubro de 2025), Alcir Pécora nos trouxe uma crônica saborosa e libertária, O gosto da leitura. Saborosa e instigante também é a ilustração de Thiago Thomé Marques: uma figura masculina, séria, de olhar esbugalhado voltado ao gato a seu lado, cujos olhos também se arregalam, assim como os das demais figuras representadas — todos bem abertos, espantados talvez com o belo elogio à gratuidade da leitura:

Ler num dia como esse não é nenhum desperdício, como me disseram algumas vezes. Eu poderia até pegar um livro melhor do que o que estou lendo. Mas não acho que valha a pena, não. Está tão agradável, é bom ter um livro que não é tão bom assim para ler. Acho que, num dia assim, é melhor não fazer nada muito exigente.

Quem está do outro lado da tela ou do papel segue o leitor que se desvencilha das recomendações usuais sobre um ato carregado de obrigações enfáticas, com vistas claras a determinados objetivos. Ele, leitor, insiste na desobediência e segue por esse caminho, item a item, até deixar o texto e lançar-se à distração.

Daqui onde estou vejo que o gato subiu na poltrona e olha para fora. Ele gostaria de sair, mas não pode. Não pode porque a persiana o impede de pular pela janela. Então, após alguns minutos de consideração, o gato prefere pular de volta ao chão. Fica ali, parado, considerando, olhando. A consideração do gato está praticamente toda posta sobre o olhar. Isso me parece esteticamente muito satisfatório: a posição do gato, a sua consideração posta inteira sobre o olhar.

Permanece a fruição estética, depositada na figura do gato, um momentâneo alter ego. O exercício prossegue, sem qualquer fio condutor, encaminhando-se para a “(…) delícia (d)isso que se lê como um dia que se acaba quando viro a página”, conclui o narrador.

O olhar do gato será passível de outras suposições? Vislumbra-se o tempo de ler por ler, de que Armando Petrucci falou? O livro amassado, posto sem cuidado com outros gadgets no bolso traseiro de um jeans descolado? O ato de ler banido dos campos solenes, acontecendo como tarefa comum posta em espaços casuais — quarto, metrô, ônibus, pausa para o café, intervalo entre aulas, enquanto se come —, livro dobrado ou tela correndo, porque são também bem-vindos e necessários todos os suportes. E as vozes, um coral polifônico, muitas e diversas vozes fazendo-se ouvir, nesses tempos em que é preciso abrir janelas e portas aos ventos da democracia.

Fossem todas as finalidades da leitura abandonadas, como bem propõe Pécora, suas singularidades permaneceriam, acreditamos. A principal delas? O laço entre leitura e liberdade. Liberdade que é preciso chamar de forma contundente agora, quando são várias e múltiplas as ameaças à sua existência em muitas partes do mundo.

Sem liberdade, as esquinas são duramente vigiadas. O encontro entre as ruas torna-se quebra. Os sentidos se negam, se travestem, sendo falso o verdadeiro e o verdadeiro, falso. As paredes ganham ouvidos aguçados, desmancham-se os tetos. Nas escolas, as redações delatam mãe, pai e familiares, como em A redação, de Antonio Skármeta. A placa de sentido único é a primeira a se impor na ordem do silêncio e dos dicionários fechados.

Sentidos múltiplos, sinônimos, parônimos e metáforas são potentes vozes de liberdade. Enumerados, justapostos, causam boa polifonia, condição essencial à liberdade. A circulação de muitas vozes, o testemunho de um, que diz “foi assim”, de outro, que contradiz “foi assado”, e de terceiros, que entram com seus palpites confirmando ou alterando o dito, são formas plenas de liberdade. Cabem todos os sentidos para que se possa decidir entre este ou aquele, para a adequação ao texto que se lê ou constrói. Nenhum sentido fica de fora na democracia. Todos disponíveis, à mão, para a escolha da leitora e do leitor. Que sejamos bem-entendidas: não falamos de confusão, mas de relatividade, aprendizado, construção de sentidos na leitura do texto, atenção ao contexto evocado. Que sentido atribuir à palavra flor no poema A flor e a náusea (1945), de Drummond? Ou a navio e gaivotas, em Quando navios partem (2026), de Everson Bertucci, Cleber Zambarda e Juão Vaz?

O poema é bastante conhecido. Para os versos escritos em tempos duros de ameaças fascistas para o mundo, todos os sentidos mostram-se convenientes para a palavra flor, mesmo os que ainda seriam inventados, afirmava em suas aulas a professora de literatura Dirce Riedel. O livro ilustrado, por sua vez, chega em tempos de acirramento da violência doméstica, mas também da consciência, das denúncias e da resistência. A tarefa de Celeste e sua mãe será ressignificar o espaço do porto, com os navios que partem seguidos de gaivotas. Que sentidos serão escolhidos? A que coerções precisarão inicialmente se render no delicado trajeto por dicionários e inscrições?

A liberdade plena de Pécora no ato de ler, o gosto que experimenta ao abandonar as prescrições usuais, é fruto da prática, de muito exercício e de muita paixão na obediência aos caminhos a seguir para alcançar as leituras libertárias. Um afã que não termina e de que tanto se fala nos projetos de formação de leitores.

Exercício e experiência para colocar bem os sentidos em cada palavra e no conjunto do que se lê. Textos curtos ou longos, literários ou não: que importa o que se lê? Ou o que se ouve? Jornal, panfleto, Bíblia, histórias de amor e sofrimento, quadrinhos, blogue, notícias, news, posts. O sentido adequado é o ponto central. Seja o texto poético ou literal, figurado ou para ser tomado ao pé da letra, a leitora e o leitor devem empreender a seleção necessária. No jogo político, assim como nos demais jogos sociais, distinguir verdadeiro e falso, pertinente e impertinente, considerada a miríade textual, verbal, imagética, sonora, é fundamental para dar o voto ao destino individual e coletivo de que se faz parte.

“Sob a pele das palavras há cifras e códigos”, adverte Drummond. A busca é criteriosa: é na flor que o poeta deposita seu voto, a promessa do tempo sem autoritarismo e atrocidades contrárias à humanidade: “É feia. Mas é realmente uma flor. […] É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.

Será feita com gosto essa leitura, com o sabor de que fala Barthes e pelo o caminho solto que traz Pécora. O que é o necessário início do caminho da leitura (o gosto) assemelha-se a olhar pelo furo estreito na ponta do tubo de um caleidoscópio e, na fração do que lá se guarda e se modifica com pequenos giros do tubo, intuir (e perseguir) a galáxia potente, inesgotável, que logo se abrirá ao olhar.

Maíra Lacerda
Designer e ilustradora. Professora no Instituto de Artes e Comunicação Social da UFF, com doutorado em Design pela PUC-Rio. Prêmio de tese pelo Museu da Casa Brasileira. Pesquisa os livros para crianças e jovens e a formação visual do leitor no laboratório LINC-Design.
Nilma Lacerda

Escritora, tradutora, professora, recebeu os prêmios Jabuti, Rio, Brasília de Literatura Infantojuvenil, entre outros. Trabalhou em várias universidades públicas, é colaboradora da UFF. Exerce a crítica de literatura para crianças e Jovens e mantém um Diário de navegação da palavra escrita na América Latina.

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