Texto escrito em parceria com Maíra Lacerda
É indiscutível a importância dos prêmios na literatura para as infâncias e as juventudes, efetiva contribuição ao crescimento qualitativo da produção editorial, em decorrência de um processo que tem por objetivo selecionar as melhores obras. Beneficiam-se os acervos de bibliotecas e escolas. A formação de leitores e leitoras obtém fundamentos sólidos para seu trabalho. Cresce o consumo de boas obras, alimentando uma indústria editorial potente.
Vamos, na verdade, bem além disso. A responsabilidade de um comitê ou júri em selecionar livros acaba por direcionar leituras e olhares, o que, invariavelmente, confere destaque e legitimação a temáticas e autores, evidenciando, também, por vezes, o importante papel político dessas premiações. Ao examinar alguns dos títulos contemplados recentemente, é evidente a presença de um olhar decolonial e de valorização da cultura nacional em sua diversidade. Na mirada crítica da colonização, vozes de outros espaços e de outros tempos, desconsideradas, circunscritas a espaços restritos, ainda tomadas em preconceito, ou mesmo abafadas, circulam desenvoltas por textos e imagens desvinculados de eixos tradicionais, legados por visões passadas.
Nessas obras, leitores jovens entram em contato com existências de um país continental. Traduções de uma natureza e de uma cultura estudadas de forma convencional nos livros didáticos, mas da qual podem se aproximar, de forma única, pela literatura. O cotidiano miúdo de uma vida agrária, no Norte do Brasil, surge bem representado em Salvaterra — breve romance de coragem, de Marília Lovatel. Em capítulos curtos, cortes poéticos, retalhos de memória, mínimas crônicas, delicados poemas em prosa, a autora traduz a vida de Maria, menina em sua (nossa) Amazônia, mais falada do que conhecida.
Na ilha de Marajó e sua cultura de criação de búfalos, a força da natureza, a pobreza familiar e a exploração da floresta por pessoas inescrupulosas mostram-se fermento para a busca de um destino pessoal, pontuado pelo desejo de escapar à sina de ser ilha e de perder o nome próprio para o genérico “menina”. Projetando-se como diálogo tecido com seu entorno e seu cotidiano, a escrita feminina forceja a interdição cultural e logra escapar do sequestro costumeiro. Estrutura narrativa e linguagem vêm como ousadia, cujo objetivo é orientar o olhar do leitor para novos prados, capazes de alimentar búfalos, que a narradora distingue como um autêntico totem na cultura marajoara. Na obra, a metáfora da natureza como livro da vida, tão cara à cultura escrita desde a Antiguidade, é atualizada com reverência e fidelidade aos saberes originários.
O lugar decolonial é ocupado plenamente, também, por Yaguarê Yamã, professor, escritor, ilustrador e ativista, cujo ponto de vista vem do lugar que habita, registrando na escrita o mundo que o cerca e quer dar a conhecer, como faz com uma de nossas plantas mais conhecidas:
Em maraguá é chamada de guarypé e, em linguajar “caboco”, murumuru. Para os brasileiros que gostam de cultivar o eurocentrismo na sua identidade, é vitória-régia, nome que os brancos deram em homenagem à rainha Vitória da Inglaterra.
Hoje, penso na guarypé — me recuso a chamá-la de vitória-régia — como uma das personificações mais conhecidas da alma amazônica, pois dela vem a ideia de que a Amazônia tem uma identidade própria.
O autor do texto verbal de Crônicas da cosmovisão indígena: animais e plantas valem-se de um recurso arguto e orgânico, pontuando as informações como o sujeito que habita o mundo que narra. Utilizaremos um lugar-comum ao observar que as ilustrações de Maurício Negro são um capítulo à parte. Suas gravuras trazem uma rica iconografia ancestral, trabalhada graficamente a partir de metáforas visuais potentes, que nos fazem reposicionar ser humano e natureza. O artista é, há muito, um pesquisador das representações imagéticas das culturas africana e indígena, proporcionando sentimentos de genuíno orgulho pela riqueza multifacetada da nação brasileira.
Outra face desse prisma, Tia Ciata: a grande mãe do samba, de Nei Lopes e Rui de Oliveira, apresenta a cidade do Rio de Janeiro como o berço do samba e do carnaval, trazendo figuras memoráveis — e ao mesmo tempo pouco conhecidas — dessa cultura que tem nas matrizes africanas a sua origem. O forte vínculo entre música e religiosidade expõe-se na alusão a Assumano, Bamboxê Obitikô e João Alabá, líderes religiosos ligados à protagonista, mulher festeira, religiosa, de vocação para negócios, que obteve reconhecimento público, inaugurando um tempo em que
… as fronteiras entre a cultura dos ex-escravizados e a dos antigos patrões passavam a ser menos rígidas. […] Esse amaciamento da intolerância facilitou a aceitação, por exemplo, da capoeira, da religiosidade africana, da culinária, do Carnaval de rua e principalmente do samba.
Da vida de tia Ciata, o autor puxa os fios para falar de Heitor dos Prazeres, Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Plácida dos Santos, Sinhô, Ismael Silva e outras personalidades que constituíram parte importante da alma da cidade e do país. Rui de Oliveira, outro grande pesquisador da figuração de cultura africana, exercita seu talento da forma habitual, alargando-se em incursões por uma iconografia da cultura popular.
À música — um dos centros de resistência da cultura africana — contrapõe-se o silêncio de um imigrante japonês, que tem parte de sua vida recriada em O silêncio de Kazuki, de André Kondo, ilustrado por Alessandro Fonseca. Ancestralidade, migração, autoficção permeiam a obra, em diálogo sincero e emotivo com o leitor jovem. Na abertura da narrativa, a doença paterna recebe um exercício estilístico potente, logrando traduzir a densidade da personagem principal. Ao aproximar-se do final, as duas biografias, do pai e do filho, misturam-se, dando vazão à sinceridade do autor na confissão do silêncio que também ele, filho, apresenta em herança.
Nessas obras, assim como em outras mencionadas na coluna passada, e ainda nas demais presentes em prêmios literários com maior ou menor destaque, podem-se observar as costuras entre partes constituintes do Brasil. Nesse contexto, visualiza-se a firme determinação de reverter efeitos duradouros do processo colonizatório, que, por estigmas e segregações, obscureceu, sufocou, apagou cortes sociais, históricos, regionais e culturais que nos constituem como povo e nação.
Estamos, como as imagens inesperadas e sucessivamente desveladas em Entre tantos, de Marilda Castanha, conseguindo vislumbrar o grande mosaico que nos traduz, enquanto povo e cultura? Estaríamos nos aproximando do ideal expresso nos versos de Mário de Andrade, em Remate de males?
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo…
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.
Acreditamos que sim. Estamos topando conosco, com nossas origens, nossas línguas nem de todo perdidas, nossas feridas e cicatrizes, nossos abraços regeneradores. E a literatura para as infâncias e as juventudes aí ocupa um papel determinante, possibilitando, às novas gerações, um diverso e mais consciente olhar para si, enquanto fruto de histórias ancestrais.