Há livros que não se leem apenas de modo informativo, mas que propõem questões que nos colocam a pensar. Sobre a ficção, do jornalista Ricardo Viel, é uma dessas obras. Ao organizar conversas com autoras e autores de diferentes países, Viel constrói um forro invisível da literatura contemporânea, sondando o espaço errante e encantador da escrita literária. Podemos dizer que as entrevistas são fragmentos de uma mesma pergunta: por quê, afinal, escrevemos? Em cada resposta, encontramos semelhanças e diferenças, mas, sobretudo, paisagens distintas, atravessadas por uma questão comum — a de que escrever é também uma forma de permanecer.
Viel adota o gesto da escuta atenta. Suas perguntas não se impõem como provocações coercitivas, mas entregam, com generosidade e interesse genuíno, o protagonismo a seus entrevistados. José Luís Peixoto confessa: “Escrever é uma forma de sobrevivência, não apenas simbólica, mas emocional”. Essa frase parece costurar os depoimentos subsequentes, pois, em cada relato, o verbo sobreviver se desdobra: sobreviver ao tempo, à perda, à memória, à própria linguagem.
Entre as mulheres reunidas, Samanta Schweblin traz uma visão quase sensorial da escrita: “As histórias chegam como ruído, e preciso encontrar a frequência certa para ouvi-las”. Rita Indiana ecoa a mesma vibração: “Às vezes, sinto que as palavras me usam, que o texto escreve a si mesmo”. Ambas descrevem o momento em que o controle cede lugar a algo inconsciente — o ofício como algo que podemos chamar de intuição, não como mero cálculo.
Maria Valéria Rezende, de timbre sereno e preciso, explica: “Escrevo porque vivi demais e preciso dar forma a isso”. Para ela, uma de nossas grandes escritoras contemporâneas, a literatura talvez seja uma forma de contenção e, quem sabe, de organização narrativa. Já Lídia Jorge fala da escrita como uma espécie de reparação temporal: “A escrita serve para costurar passado e presente, o que fomos e o que ainda tentamos ser”. As duas formulam, cada uma à sua maneira, o desejo de conciliação, de transformar o vivido em permanência.
Há entrevistas que se abrem como feridas de memória. Scholastique Mukasonga recorda o genocídio em Ruanda e reflete: “A palavra é o que resta quando tiram tudo de você. Escrever é enterrar meus mortos e conversar com eles”. Nona Fernández também transforma a escrita em gesto político: “Escrevo para resgatar as vozes que a história tentou apagar”. Entre luto e resistência, elas mostram como a literatura se torna uma forma de sondagem e reparação.
Já Rosa Montero descreve a escrita como “uma tentativa de domar o caos”. Ela diz: “Escrever nasce da perplexidade diante da vida. Quando o mundo se torna incompreensível, escrevo para transformá-lo em relato e poder suportá-lo”. Essa confissão sintetiza a relação entre palavra e sobrevivência que percorre todo o livro. Montero fala ainda sobre a solidão de quem escreve: “Um romance é uma conversa com alguém que não existe e, no entanto, é a companhia mais profunda que posso ter”. Sua reflexão acrescenta uma dimensão psíquica: escrever não para explicar o mundo, mas para continuar vivendo dentro dele.
Djaimilia Pereira de Almeida acrescenta outra faceta à constelação de Sobre a ficção. Sua fala atravessa a literatura a partir do corpo — ela comenta: “Escrever é lembrar que o corpo também é linguagem. Que há palavras que nascem das pernas cansadas, das mãos que lavaram o mundo”. Gosto muito dessa ideia: o corpo como linguagem. Suas palavras carregam o gesto de deslocamento: a escrita como travessia. Em seus romances, como em Luanda, Lisboa, Paraíso, essa travessia assume forma narrativa. “A literatura”, define Djaimilia, “começa quando aprendemos a habitar o desconforto”.
Rosa Montero e Djaimilia Pereira de Almeida se encontram em um lugar importante: ambas reconhecem a escrita como lugar de vulnerabilidade. Mas, enquanto Montero busca ordenar o caos, como citado, Djaimilia se interessa em habitá-lo. Nesse contraste, Viel deposita sua delicadeza — ele não busca conciliação entre perspectivas, apenas as oferece em convivência, como quem sabe que a literatura é feita de tensões e permeada pela subjetividade de quem escreve.
Milton Hatoum, ao falar de sua origem amazônica, diz: “Escrevo a partir da perda. Cada livro é uma tentativa de reconstruir aquilo que a distância levou”. Hatoum descreve a reescrita como escavação: “Reescrever é voltar às ruínas com uma pequena lanterna. Cada versão ilumina um fragmento novo”. Que síntese bonita dessa fase do processo: escrita também é reescrita. Suas palavras revelam a dimensão artesanal do ofício, em que o tempo é aliado, não obstáculo. Em contraste com a urgência, Hatoum tem um processo mais lento, em que há retorno e silêncio: “O texto precisa decantar, como rio depois da enchente”. Até mesmo suas respostas são literárias.
A presença dessas vozes diversas, em toda a sua diferença de origem e sensibilidade, faz de Sobre a ficção um retrato coral da literatura como prática. Viel sabe que entrevistar é, antes de tudo, escutar até mesmo as entrelinhas. O livro não tenta encontrar uma definição única de escrita — e é justamente por isso que se torna tão precioso. Nele, a criação aparece como gesto de permanência diante da impermanência.
Mia Couto observa: “Escrevo para dar nome ao que ainda não tem nome”. A frase poderia encerrar o livro, uma bela síntese do que talvez seja um denominador comum da criação literária. Mas Viel, ao colocá-la entre tantas outras, parece sugerir que cada escritor e escritora continua, à sua maneira, em sua própria busca particular. Ao atravessar essas conversas, quem lê também percorre um território escorregadio, compreendendo que toda boa literatura tem algo de incerteza.
Ricardo Viel constrói um livro que não ensina a escrever, mas a duvidar melhor. Permite que quem o lê testemunhe o instante em que as ideias ainda estão se formando. Cada entrevista, à sua maneira, reafirma algo em comum: escrever também é sobreviver — e, talvez, fazer uma aposta esperançosa no mundo por vir.