A trajetória intelectual e literária de Rosa Montero assemelha-se a uma expedição arqueológica às camadas mais obscuras da psique, onde a literatura atua como a única ferramenta capaz de escavar a verdade sem soterrar o próprio escavador. Essa jornada ganha contornos definitivos e uma densidade filosófica rara quando articulamos duas de suas obras mais íntimas: A louca da casa e O perigo de estar lúcida. Embora separadas por quase duas décadas, ambas compõem um díptico que investiga não apenas o ofício de escrever, mas a anatomia do pensamento e a fragilidade do que convencionamos chamar de sanidade.
Para Montero, a escrita não é um mero exercício estético ou de vaidade intelectual, mas um mecanismo de regulação térmica para mentes que operam em voltagens perigosamente altas, transformando o “veneno” da sensibilidade excessiva no “antídoto” da narrativa. O que poderíamos articular com o que Freud chamou de sublimação: grosso modo, o processo psíquico pelo qual pulsões reprimidas são redirecionadas para atividades culturalmente valorizadas, como a arte.
Em A louca da casa, Montero utiliza a metáfora de Santa Teresa de Jesus para descrever a imaginação como uma hóspede barulhenta e, muitas vezes, inoportuna, que habita o sótão da consciência. A obra é um manifesto a favor da fabulação, em que a autora subverte a própria biografia para provar que a memória poderia ser um gênero literário muito elástico. Ao inserir episódios deliberadamente falsos sobre sua vida — como o relato detalhado de uma irmã que, na verdade, nunca existiu —, Montero nos confronta com uma verdade incômoda: não somos um conjunto de fatos concretos e imutáveis, mas, sim, a história que escolhemos contar sobre esses fatos para que a nossa biografia faça algum sentido. A “louca da casa” é quem nos protege da crueza da realidade, permitindo que quem escreve literatura — e que se recusa a abandonar o território do jogo e do faz de conta infantil — transforme o trauma em matéria-prima da escrita. Nesse livro, o foco reside no prazer da invenção e na compreensão de que a ficção é a mentira necessária para que possamos suportar a verdade da nossa finitude e da nossa solidão radical.
Montero dedica uma atenção quase mística ao que chama de “ventriloquismo” literário, descrevendo o processo em que o autor se torna um canal para vozes que parecem não pertencer a ele. Em psicanálise, podemos pensar no conceito de inconsciente. Essa dissociação controlada é apresentada como a prova de que a mente humana é um território vasto e multifacetado, onde o “eu” social é apenas a ponta de um iceberg submerso em impulsos contraditórios. Para a autora, escrever é uma forma de dar cidadania a esses impulsos, permitindo explorar facetas que seriam perigosas ou socialmente inaceitáveis na vida real, atuando como um mecanismo de purgação psíquica.
A reflexão de Montero atinge profundidade com ares científicos e existenciais ainda mais aguda em O perigo de estar lúcida. Aqui, a imaginação é revelada como um salva-vidas em águas turbulentas e potencialmente letais. Montero se apoia na neurologia para explicar o que chama de “o nó” criativo: a ideia de que o cérebro do artista possui uma fiação elétrica distinta, resultante de uma falha na “poda neuronal” que ocorre durante a transição para a idade adulta. Enquanto a maioria das pessoas desenvolve filtros que ignoram estímulos considerados irrelevantes para focar na sobrevivência prática — o “acordo de maioria” que define a normalidade —, as pessoas criativas mantêm uma mente distinta. Essa vulnerabilidade é o que permite a percepção de belezas invisíveis e conexões inusitadas, mas é também o que abre as portas para o que se convencionou chamar de “transtornos mentais”. A lucidez, neste contexto, não é a clareza da razão, mas uma percepção desprotegida do vazio; um estado tão insuportável que o cérebro precisa da ficção como um escudo protetor contra a fragmentação.
Essa investigação sobre a poda neuronal ganha contornos de crítica social, sugerindo que o mundo contemporâneo é estruturado para recompensar o cérebro eficiente e focado em tarefas. Montero propõe que, em vez de tratarmos o desajuste apenas como um transtorno, deveríamos vê-lo como uma reserva crítica de humanidade e até mesmo resistência contra o automatismo da existência.
Essa teoria biológica ganha corpo por meio de uma análise de biografias trágicas que Montero utiliza como pilares. Ela examina a vida de Sylvia Plath não apenas como um fetiche pelo sofrimento, mas como a prova de que a “redoma de vidro” é, na verdade, a solidão de uma mente que vê o mundo com uma nitidez abrasadora, sem os filtros que tornam a vida comum suportável. O caso de Janet Frame é ainda mais emblemático para a tese de Montero: diagnosticada erroneamente com esquizofrenia e prestes a ser lobotomizada, Frame foi salva por um prêmio literário recebido dias antes da cirurgia. Nesse caso, a escrita foi, literalmente, o que impediu que a medicina da época destruísse seu cérebro.
Para Montero, isso demonstra que a sociedade tolera e até premia a desmesura mental, desde que ela seja produtiva e transmutada em objeto artístico. Escritores como Virginia Woolf, Robert Walser e Emily Dickinson surgem como pessoas que foram longe demais na exploração desse abismo, habitando uma fronteira onde o “eu” se dissolve na vastidão da própria imaginação.
A articulação dessas ideias reflete-se diretamente na forma como Rosa Montero constrói sua própria ficção. Seus romances são frequentemente povoados por personagens que buscam, de forma desesperada ou melancólica, um lugar no mundo. Ao ler os dois ensaios, compreendemos que Bruna Husky, sua famosa replicante, é a personificação do “perigo de estar lúcida”: uma criatura que vive com a constatação de sua data de validade e que usa a memória (mesmo as memórias implantadas) como única forma de organização. A escrita de Montero é uma válvula de regulação; ela escreve para dar contorno ao caos interno e para dar uma estrutura sólida aos fantasmas. Quando ela discute o “duplo” ou o “impostor”, está falando sobre a capacidade humana de se fragmentar para não ter que carregar o peso esmagador de ser uma pessoa só, presa em uma única biografia finita. A literatura expande os limites individuais e dilui a dor privada em uma experiência coletiva, transformando a vulnerabilidade em uma ferramenta de conexão humana.
Para o leitor comum, a união destas obras pode oferecer conforto e uma nova gramática para entender o próprio sofrimento. Montero nos ensina que as nossas “loucuras” cotidianas, as nossas manias, obsessões e tristezas sem nome não são necessariamente patologias a serem extirpadas, mas sinais de uma mente que está tentando, à sua maneira, lidar com o mistério de estar viva. Ela sugere que a sanidade perfeita seria, talvez, uma forma de cegueira ou de empobrecimento espiritual.
Ao aceitarmos que todos abrigamos uma “louca” em casa, tornamo-nos mais tolerantes com as nossas próprias falhas e com as alheias. O perigo não está em ser ou não ser lúcido, mas em não possuir histórias que possam unir esses dois estados. A mensagem final de Rosa Montero é a de que a beleza e o sentido não são dados pela realidade, mas conquistados através do esforço contínuo de narrar, o que se assemelha à proposta de uma análise. Somos os arquitetos de nossos próprios refúgios mentais, e a palavra escrita é o único material de construção que resiste ao tempo, transformando a angústia da existência em uma celebração, por mais frágil e perigosa que ela seja. É nesta corda bamba, entre o delírio salvador e a clareza cortante, que a vida humana encontra sua expressão mais autêntica.