Teoria da leitura

Entre rostos, roupas, formigas e livros, a leitura é um gesto inevitável, mesmo quando se deseja apenas o silêncio
Ilustração: Mello
01/02/2026

Tenho um vizinho de meia-idade, um senhor baixote e careca, que gosta de puxar conversa quando nos encontramos no elevador. Hoje cedo, descemos juntos. “Tem lido muito?” — ele me perguntou, só por perguntar. Sim, estou sempre lendo, respondo, sem interesse algum em alongar a conversa. Alguns segundos de silêncio desagradável nos afastam. E é aí, quebrando esse vácuo, que ele me diz: “Leio sempre também. Só que não leio livros, leio rostos”.

Explica-me o senhor Ramos que, quando tenta ler livros, pega logo no sono. Revistas, jornais, almanaques também o levam a adormecer. Só os rostos o acordam e estimulam. “O senhor já notou a quantidade de detalhes, de linhas e sinais secretos que os rostos guardam?” Contou que, sempre que esbarra com um rosto especial, logo depois toma seu bloco de notas e registra o que viu. “Mas a memória é desgraçada”, lamenta-se. “Logo esqueço do que vi. O mais importante sempre escapa.”

“Minha mulher diz que sou uma espécie primitiva de fotógrafo. Em vez da máquina, ou do celular, os olhos me bastam.” Tem vários cadernos preenchidos com suas anotações. E me choca: “Há algum tempo, cheguei a esboçar seu retrato. Ficou malfeito, porque nos encontramos sempre às pressas. É só um rascunho. Está anotado em algum lugar”. Tento inverter as posições e me coloco em seu lugar. Observo em detalhes seu rosto. O problema é que, por mais que eu me esforce, nada de notável consigo ver. Nada se destaca ou se realça. É um rosto branco, sem nuances, enrugado, sim, mas por igual, e sem exageros ou particularidades. Tudo nele parece estar em seu lugar, algum lugar traçado há milênios. Olho, olho, mas nada há a registrar. Nada se destaca. Logo desisto.

Recordo-me de que meu acupunturista, doutor Emanuel Jobi, me dizia que a cada área do rosto corresponde um dos órgãos internos do corpo humano. Lendo um rosto, se pode saber do fígado, dos rins, do pâncreas, do baço. Esses paralelos, ele me explicou, são um dos fundamentos da medicina chinesa. Que, na China milenar, se dedicassem a ler os rostos, não me espanta, acho assombroso e belo. Mas hoje, quando corremos tanto, quando o tempo nos escapa e as imagens nos sufocam, isso não faz mais sentido. Será possível ler um rosto a partir de uma selfie? Ia perguntar isso ao senhor Ramos, mas, temendo que a conversa se alongasse, me segurei.

Lembro que, quando menino, interessei-me pelas formigas. No quintal de nosso sítio, em Teresópolis, eu ficava um longo tempo entretido com seu séquito de gravetos e de folhas. Impressionava-me como eram rigorosas e metódicas. Como eram impecáveis. Agora, tanto tempo depois, e um tanto assustado, me pergunto: será que na infância, e sem saber disso, eu lia as formigas e seus desenhos no chão? Nunca fiz anotações a respeito. Se lia seus movimentos, nunca me preocupei em traduzi-los. Essa lembrança remota me vem já na portaria, mas ela logo é cortada pela presença perturbadora da senhora Parulla, uma costureira de bairro que se denomina estilista.

Quando me dirige a palavra, a senhora Parulla não me encara. Na verdade, ela ignora meu rosto. Em vez disso, inspeciona minha camisa, vigia minha gola, analisa meus sapatos. Age como uma fiscal de postura, que controla minha aparência e mal dá ouvidos ao que eu digo. Parece que, enquanto conversamos, ela lê minhas roupas. Só as roupas? Já notei seu desgosto ao observar minha barriga, e também seu nojo ao esquadrinhar os pelos de meus braços. Hoje ela repete seu ritual. “O senhor sempre apressado”, reclama, ao me ver em posição de fuga. Se corro, não lhe dou tempo de me analisar. De analisar meu corpo. Se corro, desmonto seu esboço de retrato, a impeço de me reproduzir.

“A costura me ensinou que as vestimentas são a alma das pessoas”, diz. Não sei o que comentar; nada lhe perguntei a respeito. Continua: “Não adianta vestir um terno emprestado, ou um sapato que não lhe pertence. Logo percebo que a pessoa está mentindo”. As roupas dizem verdades escandalosas, continua. As roupas berram — diz ainda, esgoelando-se em meus ouvidos. É infernal essa sequência de paralelos que agora me cerca. O senhor Ramos com seus semblantes, as formigas de minha infância, a senhora Parulla com seus moldes. É insuportável um mundo em que, por mais que se queira ficar quieto, a realidade grita e pede, todo o tempo, que a leiam.

Saio, enfim, para a calçada. Respiro aliviado: as pessoas com quem cruzo não estão interessadas em ler nada; querem apenas existir. “Talvez leiam e não saibam que leem”, resmunga a voz do senhor Ramos. Peço que se cale. Nada mais desejo além do silêncio da manhã. Quisera ser analfabeto, quisera não ver relação alguma entre as coisas, quisera apenas ver sem entender. Mas isso já não é possível. Quisera ser como Jasper, o cãozinho do 201, que é velho e cego e, como todos os cães, desconhece o alfabeto. Deve ser tão bom apenas sentir o mundo, sem a obrigação de interpretá-lo. Apenas observar e sentir, como fazem os pássaros e faz também o pobre Jasper, que se limita a cheirar o chão. Será que, quando ele cheira o chão, ele lê o chão?

Mas nem assim me livro. Mesmo com os olhos fechados, mesmo me limitando a farejar a manhã sem buscar sentido algum, mesmo desinteressado e cansado, elos se estabelecem, secretamente, entre as coisas. Diria o senhor Ramos: “Ninguém escapa da leitura”. Diante da realidade, o pensamento continua a organizar paralelos e a semear significados. A mente não para. Mesmo sem ler, mesmo sem desejar ler, continuo lendo. Vem-me à lembrança a “leitura silenciosa” que aprendi a praticar ainda no jardim de infância. A professora distribuía livros, nossos pequenos livros, e, estirados no chão, devíamos lê-los em silêncio, ler fingindo que não líamos. “Aprendam que o livro está dentro de vocês”, ela repetia. “Fora de vocês, nada há. Fora de vocês, só o silêncio.” Ocorre que, mesmo por dentro, elos se estabeleciam, significados se multiplicavam, orações se formavam. Ali, deitado no chão da escola, tudo começou. E não parou mais.

José Castello

É escritor e jornalista. Autor do romance Ribamar, entre outros livros.

Rascunho