Quarteto das luzes

Num quiosque vazio de Maricá, quatro desconhecidos compartilham buscas inexplicáveis — luz, mala, caminho — e revelam o estranho desejo humano por sentido
Ilustração: Raquel Matsushita
01/04/2026

São luzes vermelhas, o rapaz insiste. “Eu as vejo perfeitamente. Por que o senhor não as vê? Por que ninguém vê?” Diz o rapaz que é um vermelho próximo ao lilás. Ao violeta. Quem sabe ao roxo, mas ele evita a palavra, que remete às suas memórias tristes de coroinha, explica. As luzes brilham muito, ele continua, mas emitem um brilho fosco. “Como é isso de brilho fosco?” — a mulher ao meu lado pergunta. “Ou é brilho ou é fosco, não dá para ser as duas coisas.” Estamos em um quiosque da orla. Sem pedir licença, a mulher se sentou à nossa mesa. Carrega uma pequena mala de couro, surrada, rasgada, que, sem pedir licença também, coloca em cima da mesa. “Brilhante e fosco, isso não existe.”

O rapaz se pergunta: “Por que ninguém acredita no que eu vejo?”. Está decepcionado com o mundo, triste e perdido. Sinto que a luz, ou o que seja, de fato o preocupa. “Parece até que enlouqueci, que sofro de delírios. Pode ser invasão”, ele cogita. “Mas quem invadiria Maricá?” A praia está deserta nesse fim de tarde. Talvez ele fale só do anoitecer. Sei que está triste, muito triste. Por que será? Surge às nossas costas, de repente, um velho barbudo, que pede um cigarro. A mesa ocupa uma quina da calçada, quase não podemos nos movimentar. Fosse o homem mais novo e, àquela hora, com a chuva fina, pensaríamos em um assalto. “Isso é um assalto”, o velho grita, um grito desarticulado e sem força, muito desesperado também. Não está armado. Talvez tenha bebido. Seus gestos de marionete são lentos. Certamente não sabe o que diz. “Eu preciso”, ele diz. “Preciso muito.”

“Vamos, sente um pouco e tome uma cerveja”, eu digo, tentando dar algum sentido ao absurdo. “Será que o senhor, que é velho, mas é sábio, consegue ver a luz?” — o menino pergunta. Desnorteado, o velho se esquece do assalto e, cabreiro, pergunta de que luz ele está falando. “Perdi meus óculos. Talvez com eles eu pudesse ver.” A mulher, com nojo de seus dentes quebrados, afasta a cadeira. Ele ri, exibindo ainda mais os furos na boca. É uma gargalhada exaurida, só por obrigação. Pode ser por delicadeza. Por que um velho gordo e cansado não pode ser delicado? A noite se deita sobre o quiosque. É uma noite pesada, barriguda, sem sentido. Se parece com o velho. O que fazemos os quatro juntos naquela mesa escura? Que mecanismos do destino, ou do cosmo, nos afastaram de nossas rotinas e nos lançaram bem ali?

“Acho que vou seguindo”, o rapaz diz, vestindo de volta sua camiseta. “Minha namorada me espera”, ele justifica. Terá mesmo uma namorada? Ou será a luz que o arrasta? Daqui a mais um pouco e estará ouvindo as trombetas de um anjo. É muito jovem, tem os cabelos longos, a cara de menino. Pode ser o próprio anjo. Mas o que um anjo faria em um quiosque de Maricá? E, se estivesse ali mesmo, um anjo falaria com estranhos? “O mundo desmorona, e nós aqui falando bobagens”, a mulher filosofa. Tem mais a aparência de uma lançadora de peso do que de uma filósofa. É grande, é larga, tem os braços grossos. Será possível filosofar com aquela aparência? Ela continua: “Somos um exemplo do fracasso das palavras. Palavra alguma consegue definir nossa insensatez”.

Está tudo escuro, mas o rapaz se esquece da namorada e, se dirigindo ao velho, pergunta: “Por que será que ninguém consegue ver a luz?”. Eu ia perguntar como é possível avistar uma luz naquela escuridão, mas desisto. Se está escuro, não há luz. Se há luz, não está escuro. “Eu preciso”, o velho insiste. Pergunto do que ele precisa. “Não sei do que preciso, só sei que preciso”, o velho me diz. É uma conversa cansativa, que não leva a nada. Nela, a lógica não funciona. “Acho que vou também”, diz a mulher. “O problema é que minha mala está muito pesada.” Em má hora, agindo como uma criança boba e curiosa, eu pergunto: “O que a senhora carrega nela?”. Agora é a mulher que dá uma gargalhada que estremece a mesa, as garrafas vazias, os copos. “E eu preciso saber para continuar a carregá-la? Só sei que devo levá-la. Isso não basta? Isso me satisfaz.”

Ali ficamos nós quatro, agora no escuro absoluto. Já recolheram os copos, as garrafas, desceram a porta do quiosque. Não há mais ninguém. Decidimos caminhar. “Por que levantar e caminhar?” — eu pergunto. “Temos que buscar alguma coisa”, o velho diz. “Alguma esperança, algum sentido.” Em um momento de tolice, me ofereço para carregar a mala da mulher. Está pesada. Será que ela transporta pedras? Mas para que levaria uma mala cheia de pedras? Seguimos. O menino anda com lentidão. Olha para o horizonte. Vigia a luz. Eu não consigo pensar em nada. Só quero chegar de volta ao hotel. Agora entendo que o velho, embora desleixado, não é tão miserável quanto aparenta. Ele sabe o que quer, ou, pelo menos, tem o sentimento de que cumpre com um dever. Cada um com seu destino. É tão reconfortante ter um destino!

A pergunta mais grave, no entanto, é: por que, tanto tempo depois, decidi escrever uma crônica sobre aquela noite? Aparentemente nada aconteceu. Contudo, se nada aconteceu, se vivemos apenas um conjunto de acasos, como estou conseguindo narrar o que vivemos? Hoje, tanto tempo depois, sou obrigado a admitir que, mesmo no escuro, mesmo no vazio da embriaguez, algo aconteceu. Mas o que aconteceu? Tínhamos, cada um, um destino. Um objeto a perseguir. Não sabíamos o que ele era. O menino com sua luz, a mulher com sua mala, o velho só em busca de um caminho. Seguíamos. Só eu não conseguia entender o que fazia ali. Ou será que eles apenas inventavam algo para perseguir? “Vai ver que não existe luz alguma”, pensei.

Mas não. Se eu os seguia, penso agora, também eu, mesmo sem saber, procurava alguma coisa. Lembro que, em dado momento, a mulher disse: “Tudo isso é sem sentido, mas não podemos viver sem um sentido”. O velho continuava a resmungar: “Eu preciso, eu preciso”. Eu estava cada vez mais aflito. Nenhum dos meus três companheiros de jornada emitia luz alguma. “São foscos, indecifráveis”, pensei. E pensei mais: “São foscos, mas brilham”. Não me lembro como tudo acabou. Só consigo me ver agora em minha cama de hotel, exausto e desamparado. Era o que me restava: me entregar à noite, sem nada esperar.

José Castello

É escritor e jornalista. Autor do romance Ribamar, entre outros livros.

Rascunho