Entro pelo portão principal e subo a longa aleia das palmeiras imperiais. Não tenho um destino, e essa é a melhor parte de meu passeio. Dissolvo-me no cenário verde, sou só mais uma planta, uma planta que anda. Sempre que desejo esquecer de mim, venho ao Jardim Botânico. Nada busco além do apagamento. Desaparecer entre as folhagens, abolir minha existência humana, romper com os laços frouxos e dolorosos que me prendem ao real.
Minha vida de repórter policial é regida pelo tumulto e pela penúria. A miséria da repetição, a correria sem rumo, o cansaço. Atabalhoado e sem ar, sobrevivo entre os estilhaços. Aqui no jardim, ao contrário, rompo com todos os protocolos e expectativas. Aqui me dispo da manta encardida do repórter afobado. Aqui chego a mim.
Eis que, sob os arcos do orquidário, lá ao fundo, avisto uma velha. A silhueta curva, primeiro, me fez pensar em um fugitivo. Logo entendo que é uma idosa. Apoia-se em uma bengala de madeira, usa um xale abafado, com sua figura arredia se esforça para desmentir o sol. Em contraste com a luz, a mulher é tão improvável quanto um guarda-chuva ou um par de galochas. É só uma sombra que luta para ferir o sol.
Não recuo, não desisto de mim. Mal me aproximo, ela pergunta: “O senhor viu uma menina com o rosto cheio de remelas?”. Como emudeço diante de sua aparição — uma velha obscura, que está onde não devia estar —, ela insiste: “Tem o rosto amarelo, mas é saudável. Não passa de uma trapaceira”. Não sei o que dizer, e ela enfatiza: “Tem o vício de mentir”.
Pássaros se agitam sobre os arcos. Talvez um mau agouro, talvez só meu olhar. Estamos sempre a estragar a natureza. A entortar e deformar a realidade, que é doce e afável. Me dou conta de que não vi menina alguma por onde passei. Para não deixar a velha sem resposta, só me resta perguntar por perguntar: “É sua neta?”. A imagem da avó bondosa em busca da netinha perdida logo se desfigura. “Que neta, que nada. Deus me livre. Estou só vendendo a menina.” Vendendo? Negociando uma menina em pleno jardim?
Meu silêncio e meu espanto a estimulam a perguntar: “O senhor estaria interessado em comprá-la?”. Um galho imenso, como uma faca, despenca à minha frente. Não venta, as árvores não se movem, o que faz esse galho em meu caminho? Será tudo uma piada, a velha só debocha de mim, ou ela vende mesmo uma criança? Se não é sua neta, de onde a tirou? Será que a raptou? Perguntas me comprimem o coração. Não tem medo da polícia? Não sente nenhuma piedade da menina que ainda não consegui ver?
Ora, vamos, será que a menina existe mesmo? “A senhora só pode estar zombando de mim”, eu digo. Digo, mas estou constrangido. E se for verdade? Ou será que a velha não se sente bem, será que está confusa? Um pequeno esquilo, esguio, certo de quem é e certo do que quer, atravessa a aleia. Distraio-me com a cauda, longa e peluda, maior que o próprio esquilo. Assemelha-se a um espanador. A velha ri. Sua dentadura torta e branca reflete a luz solar. É quase meio-dia; não sei como aquele xale pesado não a sufoca. Estará febril? É a febre que a leva a delirar?
“Esse frio ainda vai me resfriar”, ela comenta, em resposta a meus pensamentos. Só me faltava essa: uma velha telepata. Silencio. Deve mesmo estar fora de si. Talvez tenha se perdido da família ou de sua cuidadora. Pode ser que precise de meu socorro — e eu a debochar. Mais que meu espanto, merece minha piedade — corrijo-me. Já estou a ponto de pedir desculpas e de lhe oferecer o braço, quando uma menina de face amarela e vestido sujo surge no fundo do orquidário.
“Lá está ela”, a velha grita, exaltada, mas também com uma expressão de nojo. Outro galho, com um estrondo, despenca à minha frente. Só agora percebo o vento transversal que, dissimulado, escorre entre os troncos. Pode ser um sinal. Mas sinal de quê? “Por onde você andou, garota?” — a velha pergunta. Como a menina se recusa a falar, ela continua: “Esse senhor está interessado em comprá-la. Não podemos perder essa chance”. A naturalidade com que defende seu negócio, como se a menina fosse um par de sapatos, ou um pacote de feijão, me emudece. O que estou esperando? Devo chamar a polícia ou denunciá-la aos guardas do jardim. Contudo, ando cansado, vim ao Botânico em busca de paz, não de atritos. “Estou entendendo bem o que está se passando aqui?” — ainda pergunto.
Talvez tudo não passe de um esquete de teatro de rua. “Deve ser alguma piada tola, deve haver uma câmera escondida em algum canto.” Mas logo a velha desmantela minhas esperanças. “Não tem teatro nenhum, eu vivo disso. E o senhor, do que vive?” De fato, tanto quanto ela, vivo de minhas fantasias. Acontece que negocio apenas comigo e com meus frágeis sonhos, não envolvo ninguém nisso, muito menos uma criança. “É diferente, muito diferente”, berro, mas ela não me deixa continuar. E agora me dou conta: aqui estou eu, tentando dialogar com uma criminosa. Ou com uma louca.
Pode ser que sofra de alguma doença senil e tenha escapado de um asilo. Esforço-me, mas não consigo sentir pena da velha. Talvez ela precise mais de minha piedade e de meus cuidados do que de meu espanto. Mas, se for assim, e a menina? Até agora não ouvi sua voz; será que ela não fala? “E então, garota, o que está acontecendo?” — digo. A menina dá uma gargalhada repugnante, que faz o orquidário estremecer. Parece estar feliz. A pequena aleia dos arcos está coberta por um tapete de folhas amarelas que, à luz do sol, vibram como lâmpadas.
“Acho que vou andando”, digo, mas não consigo sair do lugar. Ainda acaricio os cabelos gordurosos da garota, e minhas mãos ficam meladas e repulsivas. “O senhor não quer mesmo comprar a menina?” — a velha insiste, em tom comercial. Atordoado, saio em disparada entre as árvores. Tudo aquilo é absurdo e doentio, mas não posso negar que a cena combina com o mundo em que vivo. Que é previsível, embora repugnante. Que é inumano. E eu, o covarde, o mais inumano de todos, caio fora. Sem poder dizer o que vivi.