Angústia suburbana

Em Cascadura, uma busca banal por conserto vira deriva mental: sol, cansaço e memória fazem ressurgir o fantasma de um mestre morto
Ilustração: Taise Dourado
01/01/2026

A placa indica: Rua da Pedreira. Em vez de uma pedreira, tudo o que vejo é a luz atordoante do sol. Estou em Cascadura, busco uma loja de informática indicada por meu amigo Silvio. Acontece que meu laptop entrou em pane. Em Copacabana, só consegui orçamentos extorsivos. Parece que aqui, Silvio me garante, encontrarei bons preços. Sigo em direção à Rua Ferraz, como ele me orientou. Assim que a tomo, logo no número 2, deparo-me com um imenso CIEP. Leva o nome, para mim sagrado, de Manoel Maurício de Albuquerque, que foi meu professor de História na adolescência.

Não dormi bem essa noite. Confuso com o sol vermelho e pesado de Cascadura, sinto-me tonto. Não devia ter vindo. Não hoje. Sofro, porém, de uma tendência enfermiça para tomar decisões erradas e nos dias errados. Repeti o erro. Enfim, aqui estou. Já que estou, decido entrar no CIEP para beber água e descansar. Arrasto-me pela escadaria que leva ao prédio principal. O sol me embacia a vista. Sou um homem fraco, roído pelo tempo e pela desesperança, e a realidade derrete diante de mim.

Chego ao hall de entrada. A gritaria dos alunos aumenta meu desconforto. Minha angústia. Sento-me no primeiro banco para respirar. Vem-me à mente, então, a figura imensa e indolente de Manoel Maurício, que morreu em uma livraria do centro do Rio, no ano de 1981. Contam que folheava um livro e, de repente, caiu duro. Fazia muito calor e ele suava muito também. Qual terá sido a última frase que meu mestre, ainda de pé, conseguiu ler? Que palavras o mataram? Que mensagem fulminante se guardava no livro desconhecido que o assassinou?

Recordo, então, que o espanhol Enrique Vila-Matas tem um pequeno livro, A assassina ilustrada, escrito em Paris em 1975, que guarda uma relação com a morte de meu querido professor. O romance de Vila-Matas conta a história de um livro assassino — o próprio livro que o leitor tem nas mãos. Vila-Matas, eu soube depois, partiu de uma lembrança de Miguel de Unamuno que, passando uma temporada na mesma Paris, teve a ideia de escrever um livro que provocava a morte de quem o lesse. Morrer de um livro? Nunca saberei se Manoel Maurício morreu da frase que acabara de ler, ali de pé, entre as estantes. Ninguém saberá. Talvez não tenha lido frase alguma, tenha só acabado de abrir o livro desconhecido. Pode ser que, enquanto o folheava distraído, alguma lembrança íntima, ou aflição, ou angústia o derrubou.

Batizada com seu nome, a escola pública de Cascadura despeja sobre mim não só sua imagem imensa e suada, mas esse monte de hipóteses desconexas e implausíveis. Agora, naquele banco de escola, essa maçaroca de ideias me tritura a mente. Preciso me erguer e seguir. Preciso tomar coragem e é o que, apesar da figura do mestre grudada à minha testa, acabo por fazer. Mal me ergo, uma moça se aproxima. Aproveito para perguntar se ela conhece uma pequena loja de informática na Rua Ferraz. “Não temos isso por aqui”, ela diz. “Melhor ir a Madureira”. Como assim? Nos dias de hoje, a informática se espalha por todos os lados. Por que não haveria, em Cascadura, uma loja especializada? “Tenho um amigo que me garantiu que…” — mas ela não me deixa terminar a frase e me dá as costas. Parece estar atrasada ou indisposta. Pode ser que apenas fuja de mim.

Para me refrescar, mas também para ter certeza de que continuo a ser quem sou, procuro por um sanitário onde, por certo, haverá um espelho. Acho o espelho. Por sorte, o banheiro está vazio, o que facilita a minha meditação. Posto-me diante do espelho e ponho-me a me observar. Mais que observar: a, como um detetive perverso, investigar. Continuo a ser quem sou? Pareço desfigurado e também estou pálido, como se minha pele tivesse sido rasgada e minha imagem se desmanchasse. Ainda existo? Lavo o rosto na esperança de despertar. Nem confiro se voltei a mim, se já me tenho sob controle, e saio. Já estou de volta à Rua Ferraz.

Avanço pela calçada, mas há alguma coisa dentro de mim que continua a gotejar. Silenciosa, discreta, massacrante. Enervante. Uma inquietação, uma impaciência, uma inquietude que não se relaciona com os fatos banais que estou vivendo. Que não diz respeito a Cascadura, mas a mim mesmo. Um temor, porque há um fantasma que, silencioso, me segue. De quem seria, senão de Manoel Maurício, meu grande mestre? Lembro de suas lições de materialismo histórico. Só a matéria e a história existem; no mais, tudo é ilusão. Só o mundo concreto deve ser considerado, nada mais. Entretanto, o fantasma do mestre continua nos meus pés.

Resolvo entrar em um bar, na esperança de que ele me perca de vista. Que nada — já está diante do balcão e pede um drinque. Todos o veem, já não é um fantasma. Em algum momento terá sido um fantasma? Não me olha, me ignora. O que quer de mim? “Uma aguardente, por favor”, ouço-o pedir. Esquenta-se. Em pleno calor suburbano, se aquece mais ainda. “Dose dupla”, acrescenta. É uma chance de escapar. Dando passos para trás, lentamente, distancio-me do balcão. Ainda andando de costas, saio do bar. Na calçada, sigo em disparada pela Rua Ferraz. Quem terá sido esse Ferraz? Meu amigo Silvio, doutor em Cascadura, deve saber. Um dia lhe perguntarei. Mas agora preciso fugir.

Duas quadras à frente, encontro uma serralheria. Tem um toldo verde, sob o qual posso me abrigar. Respiro. Até que, do interior da casa, ressoa uma voz. “Pode embrulhar meia dúzia, por favor.” Nem preciso me virar, é a voz de Manoel Maurício. Como terá chegado antes de mim? Fantasmas, é verdade, vivem em outra dimensão. Escondo-me em um canto da entrada. Em seguida, ele sai com seu pequeno pacote. O que terá vindo comprar? Parafusos? Para lacrar melhor o caixão em que deveria estar deitado?

Lá estou eu de novo diante do CIEP. E lá está Manoel Maurício, meu incansável mestre, que me espera à entrada. Ainda não me viu. Como sabia que eu voltaria? Estou preso a uma rede do passado. Asfixio-me. Começo a suar. Toda a admiração que sinto por ele de nada me serve. A admiração é só um detalhe perdido no imenso assombro. Acho que vou desmaiar. Do nada, surge meu amigo Silvio, que me dá a mão.

José Castello

É escritor e jornalista. Autor do romance Ribamar, entre outros livros.

Rascunho