🔓 Mostra o seu que eu mostro o meu

Parafraseando Otto Lara Resende, o hábito de escrevermos cartas tornou-se também um cadáver do passado, agora não amarrado, mas enterrado sob os pés
Ilustração: Eduardo Mussi
15/06/2022

Voltei da Festa Literária de Guaratinguetá, em São Paulo, lendo uma seleta de contos do Fernando Molica. Os originais. A viagem de quase quatro horas até o Rio seria atravessada por canetadas no papel. Sublinhados, apontamentos. “Rabisque”, pediu o Molica. Ao que respondi com uma frase fisgada da lembrança de Dalton Trevisan: “Serei cruel”.

Era o que Dalton rogava aos amigos quando lhes enviava os textos recém-escritos. Otto Lara Resende, um desses confidentes, acabaria por adotar a máxima para lidar com a própria prole. “Costumo pedir aos meus filhos que me policiem. Sejam cruéis. Aí outro dia a Cristiana me advertiu: Pai, cuidado. Você está muito reminiscente”, conta ele em crônica de 1991. “Mas é isto mesmo. Depois de certa altura, a gente traz o cadáver do passado amarrado ao pé.”

Missivista contumaz, Otto dedicou boa parte de suas cartas a comentar textos alheios que haviam acabado de ganhar vida. Uma prática, aliás, comum a muitos escritores de outros tempos. Estão aí os livros de correspondências de Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector, Fernando Sabino e Hilda Hilst que não me deixam mentir. Citei apenas brasileiros quando poderia listar autores do mundo todo. O esquema “mostra o seu que eu mostro o meu” sempre rompeu fronteiras. É um costume universal.

No diálogo epistolar, há um farto escambo de elogios mas também espaço para a crítica franca e aberta. A pesquisadora Elvia Bezerra, que tem se dedicado a compilar a correspondência de Otto para futuro livro, contou uma dessas histórias em evento recentemente promovido pelo Instituto Moreira Salles (IMS).

Certa vez, em resposta a Rubem Braga, o escritor mineiro fez duros reparos ao título da crônica que lhe fora submetida. No texto em questão, Rubem reclama da conjuntura nacional o trânsito enrascado, o desconforto do povo —, antes de relatar a esticada a Paquetá. Quer “descansar de si mesmo” e lamenta-se por não poder viajar ao exterior devido ao câmbio altíssimo, restando-lhe o remédio de escrever cartas.

Mas carta, pondera, “não é remédio para curar nada, é apenas aspirina que mal atenua a dor da saudade”. “Carta é uma pastilha barbitúrica.” “Barbitúrica!”, exclama Rubem na sequência, para concluir: “Duvido que alguém me mostre uma outra palavra mais feia na língua portuguesa.”

O cronista passa, então, ao chiste puro e simples. “Sento-me para escrever uma carta a uma pessoa querida e de repente me aparece essa palavra, como uma pequenina mulher barbuda que sofre de ácido úrico, e com voz esganiçada, a fazer caretas, me diz: eu sou a barbitúrica, eu sou a barbitúrica!”. Seria melhor, assim, não comprar dólar, nem escrever carta alguma. E gastar o pouco dinheiro numa esticada à pacata ilha carioca. Foi o que fez.

Otto pondera que “Um passeio a Paquetá” não é título apropriado para a crônica. Que “barbitúrica” é uma palavra em tudo oposta a Paquetá, no que esse vocábulo traz de singeleza e lirismo. Mas Rubem firma o pé. O texto termina sendo publicado com o nome original.

Digressiono ao reportar aqui esse episódio porque a crônica, afinal, é terreno de liberdade. Uma conversa fiada — e seus fios não têm a obrigação de emaranhar um assunto só. Mas me pego a pensar, juntando as rasuras nos contos do Molica e a interlocução postal entre Otto e Rubem, que esse esquema de trocas continua em vigor. No futuro, contudo, leitores curiosos e pesquisadores não terão material sobre o qual se debruçar.

É comum que, ao terminar um texto, eu o remeta a colegas escritores para uma apreciação menos viciada. E vice-versa. Papeamos, argumentamos, refletimos, só que nossas hesitações, as possíveis emendas, assim como as mensagens de parte a parte, tudo isso rapidamente se dissipa na rarefação da neblina digital. Desmancha no ar. Parafraseando o Otto, o hábito de escrevermos cartas tornou-se também um cadáver do passado. Agora não amarrado, e sim enterrado sob os pés. 

Marcelo Moutinho

É autor dos livros  A lua na caixa d’água (Prêmio Jabuti 2022), A palavra ausente (2022), Rua de dentro (2020), Ferrugem (Prêmio da Biblioteca Nacional 2017), Na dobra do dia (2015), e dos infantis Mila, a gata preta (2022) e A menina que perdeu as cores (2013), entre outros.

Rascunho