🔓 Aqui se matam mulheres

O Brasil ocupa o quinto lugar entre os países com maior número de feminicídios – são três mulheres assassinadas por dia, uma a cada sete horas
Ilustração: FP Rodrigues
15/01/2021

Que o Brasil é um país machista, não resta a menor dúvida. O nosso presidente, com o perdão da má palavra, Jair Bolsonaro, encarna à perfeição o homem brasileiro padrão. Com seus surtos de exibicionismo viril e seu profundo desprezo pelo sexo feminino – pelo gênero humano, na verdade –, ele é uma espécie de Vladimir Putin do Terceiro Mundo… Não é à toa que sob seu (des)governo explodiram os casos de feminicídio.

Em 2019, o número de assassinatos de mulheres aumentou 7,3% em comparação com 2018. Foram 1.314 homicídios – média de um a cada sete horas, três por dia, o que coloca o Brasil no quinto lugar no ranking de países que mais matam mulheres no mundo. E, infelizmente, a desorganização social provocada pela pandemia piorou ainda mais a situação. Não há números totalizados referentes a 2020 ainda, mas sabe-se que somente no primeiro semestre houve um crescimento de 2% no número de assassinatos de mulheres. Nos meses mais críticos da pandemia, entre março e abril, o número de mulheres mortas em São Paulo subiu inacreditáveis 41%.

Em quase 80% dos casos de feminicídio, os agressores são o atual ou o ex-companheiro, que não se conformam com o fim do relacionamento – e a violência acomete mulheres de todas as classes sociais, indiscriminadamente. Segundo as estatísticas, antes do crime, há episódios de intimidação moral, sofrimento psicológico, ameaças e mesmo agressões e lesões corporais. O sociólogo alemão Henning von Bargen afirma que homens que enfrentam uma crise social, cujos empregos e padrões de vida estão ameaçados, são particularmente suscetíveis à ideia de culpar as mulheres por sua própria miséria. Daí para a violência é um passo…

Não foi à toa, caríssimo(a) leitor(a) que associei Bolsonaro a Putin no primeiro parágrafo. Em 7 de fevereiro de 2017, o presidente russo promulgou lei que despenaliza a violência doméstica, sempre que o agressor não seja reincidente dentro do prazo de um ano. Ou seja, as agressões que causam dor física, mas não lesões, e deixam hematomas, arranhões e ferimentos superficiais na vítima não são consideradas mais crime lá. Só quando houver reincidência, o agressor poderá ser processado pela via penal e punido com prisão, sempre e quando a vítima conseguir comprovar os fatos. Ah, a Rússia, preocupado(a) leitor(a), a Rússia que manda foguete para o espaço, possui bomba atômica, vacina contra covid-19, etc. ocupa o quarto lugar no ranking mundial do feminicídio…

Luz na escuridão
Tarso de Melo, poeta: “Sou um anotador compulsivo, então essa pergunta – o que você está escrevendo? – me deixa em parafuso. Minhas anotações costumam ser o estado dos textos durante a maior parte do processo e, de uma hora para outra, revelam o texto que querem ser. No que diz respeito aos poemas, não costumo projetar livros: os poemas vão surgindo e o que reúno em livro é quase sempre o retrato de um momento, de um conjunto de preocupações de determinado momento. Em 2019 tive a experiência de fazer uma antologia – o volume Rastros – de poemas dos livros que publiquei entre 1999 e 2018. De lá pra cá, sigo escrevendo poemas que, até o presente momento, ainda não me parecem querer se juntar em livro, mas acredito que este ano deva fechar um ciclo, ou seja, um novo livro de poemas. Para além disso, além dos estudos sobre ‘uberização do trabalho’ (minha pesquisa acadêmica) e das notas que tomo para um livro sobre os Racionais MC’s (um projeto de vida), estou trabalhando num ensaio sobre ‘ler-escrever poesia’, em que investigo o pensamento dos poetas (sobre poesia) a partir de seus processos criativos (que recolho de entrevistas, depoimentos, ensaios dos poetas), tentando organizar ideias que me perseguem há bastante tempo e, a meu ver, abrem uma fresta importante com relação à atividade propriamente crítica. Este ensaio sairá como texto de abertura da coletânea de ensaios e resenhas que publiquei desde os anos 1990. Trabalho também num ensaio a quatro mãos, com o Reynaldo Damazio, sobre literatura e perambulação, que já está bem avançado, mas 2020 nos roubou as ruas e talvez seja esta a razão do atraso”.

Parachoque de caminhão
“Se não consigo ser otimista é porque igualmente não consigo ser menos calvo do que sou, ou menos baixo de estatura, ou ainda menos feio do que pareço diante do espelho.”
Campos de Carvalho (1916-1998)

Antologia pessoal da poesia brasileira
Ascânio Lopes
(Ubá, MG, 1906 Cataguases, MG, 1929)

O revoltado

A sirena apitou longamente
fazendo parar os teares e as máquinas.
Ele vestiu o paletó e saiu para o bairro pobre
onde mora, numa casa pobre.
As suas mãos estão calejadas.
O corpo dolorido anseia um descanso infinito
[desconhecido.
Olha só para frente, sem se importar com quem passa.
Parou pensando uma coisa
e brilhou no seu olhar o ódio contido
faiscou rápido o desejo insatisfeito.
Pôs-se a andar
Os grandes olhos abertos, mas sem lágrimas.

(1928, provavelmente)

Luiz Ruffato

Publicou diversos livros, entre eles Inferno provisório, De mim já nem se lembra, Flores artificiais, Estive em Lisboa e lembrei de você, Eles eram muitos cavalos, A cidade dorme e O verão tardio, todos lançados pela Companhia das Letras. Suas obras ganharam os prêmios APCA, Jabuti, Machado de Assis e Casa de las Américas, e foram publicadas em quinze países. Em 2016, foi agraciado com o prêmio Hermann Hesse, na Alemanha. O antigo futuro é o seu mais recente romance. Atualmente, vive em Cataguases (MG).

Rascunho