Miniconto: melhores (?) momentos

Aonde querem nos levar os minicontistas? Ao silêncio pré-cambriano? Afinal o que querem os minicontistas? Reduzir a prosa a pó? E depois? Que faço eu com as centenas de páginas de Guerra e Paz
01/01/2001

Aonde querem nos levar os minicontistas? Ao silêncio pré-cambriano? Afinal o que querem os minicontistas? Reduzir a prosa a pó? E depois? Que faço eu com as centenas de páginas de Guerra e Paz, Em Busca do Tempo Perdido, O Tempo e o Vento? Aviões de papel? Uma esquadrilha inteira? Disparates!

Cuidado, vocês, não baixem a guarda! Dentro de todo romancista existe sempre um minicontistas pronto para desabrochar. Quando menos se espera, zás! Vocês já eram. Eles andam sozinhos mas atacam em bando. Não respeitam crianças nem idosos. Em suma: não têm dignidade.

Algo, nos minúsculos relatos que nos impingem, tem o poder encantatório das fábulas de Esopo e La Fontaine. Minifabulistas! Muitos deles têm o desplante de botar no palco bichos que falam! Por isso nos cativam tanto. Voltamos a ser crianças nas suas mãos.

Kafka, por exemplo. É, o tuberculoso de Praga. Advogado, filho exemplar (o pai que o diga…). Um inseto, um grilo falante, isso sim é o que era. Logo que lhe emprestaram pena e papel, que é que o sujeito fez?

Pequena fábula

— Ah! — disse o camundongo —, a cada dia o mundo se torna mais estreito. No início ele era tão amplo que eu tinha medo, mas continuei correndo e fiquei feliz por finalmente avistar muros ao longe, à esquerda e à direita, mas esses longos muros seguem tão rápido um na direção do outro que já estou no último quarto de milha e ali, no canto, está parada a armadilha para dentro da qual sigo correndo.

— Você precisava apenas alterar a direção da corrida — disse o gato, e devorou-o.

E Cortázar?! É, o gigante do Jogo da Amarelinha. Mais de quinhentas páginas para nada?! Num planeta de pigmeus, quis o destino que ele fosse o Pantagruel rio-platense: cabeça e membros hipertrofiados. Doença? Sim e não. O futuro decidirá. Que fez Julito com o que recebeu? Um livro inteiro de firulas, meus amigos. De firulas!

Progresso e retrocesso
Inventaram um vidro que deixava passar as moscas. A mosca chegava, empurrava um pouco com a cabeça e pop, já estava do outro lado. Enorme, a alegria da mosca.

Tudo foi estragado por um sábio húngaro, quando este descobriu que a mosca podia entrar mas não podia sair, ou vice-versa, por causa de quem sabe lá que besteira na flexibilidade das fibras daquele vidro que era extremamente fibroso. Em seguida inventaram o caça-moscas com um torrão de açúcar dentro, e muitas moscas morreram desesperadas. Assim acabou toda a esperança de confraternização possível entre nós e esses animais dignos de melhor sorte.

De lá para cá a coisa degringolou de vez. Os brasileiros entraram na dança (êpa!), a crítica aplaudiu (justo a crítica!?), os jornais abriram espaço (miniespaços, diga-se de passagem, que é o que eles realmente merecem) e agora Esopo e La Fontaine também falam português! Um português arrevesado, irônico, mal-humorado. Mas, enfim, o único que temos:

Duzentos acertos
Ultimamente ando muito ocupado. Venho treinando nos duzentos acertos. São necessários duzentos acertos para que eu esteja apto a defender minha pátria. Há vários dias venho treinando sem parar. Hoje alcancei a marca de três acertos em três disparos. Quando alcançar duzentos acertos em duzentos disparos, irei para a porta da minha casa e ficarei sentado, vendo as pessoas na rua. Atrás de mim estará o parapeito de onde treino; à minha frente, as pessoas passando pela rua. Aí, então, me sentirei satisfeito e descansado, pois estarei apto a defender minha pátria.

Armado o circo de pulgas, teve novelista que abandonou o gênero e caiu de cara no haikai. Humilhante! E a imprensa, é óbvio, não deixou passar batido o fato. O haikai, velhote bexiguento — ai, ai —, agradeceu de mãos juntas:

Haikai

— Já reparei, garçom: a segunda empadinha nunca é tão boa como a primeira.

— …

— Hoje você me traga a segunda antes da primeira.

E teve este senhor — quase sexagenário, meus amigos!, pai de família, avô safenado! — que na virada do ano, do século, do milênio, teve a audácia de arreganhar as páginas da puta mais velha do pedaço: o dicionário. Arreganhou e arrombou. O di-cio-ná-rio! O que escapou de lá de dentro não tenho coragem de nomear:

Afuazado
Ainda não morri por artes de berliques e berloques, como diria meu avô; dia desses recebo um trampesco bem dado na fuça, babau; preciso me conter, ser menos impulsivo, ficar sempre de bico fechado, domesticar a minha linguagem chula, patatipatatá; pensando bem, nasci assim, não dou quartel aos inimigos, esses idiotas, bando de seres repetitivos, sem imaginação, pois sempre que se aproximam, os atoleimados vão logo dizendo, purutacotataco, dá o pé louro, dá; impossível não responde de chofre, enfia esse dedinho no cuzinho.

Cuidado! Os minicontos aqui reproduzidos (a título de alerta) pertencem às seguintes obras: Nas galerias, de Franz Kafka (Estação Liberdade); Histórias de Cronópios e de Famas, de Julio Cortázar (Nova Fronteira); Dinorá, de Dalton Trevisan (Record); As Laranjas Iguais, de Oswaldo França Júnior (Nova Fronteira) e Grogotó!, de Evandro Ferreira (Topbooks). Quando estiver num sebo ou numa livraria, desvie delas.

Nelson de Oliveira

É ficcionista e crítico literário. É autor de Poeira: demônios e maldições e Ódio sustenido, entre outros.

Rascunho