Tudo é narrativa

novembro 2017 / Tudo é narrativa / Varo, essa alquimista

Texto publicado na edição #211

Varo, essa alquimista

A espanhola Remedios Varo encontrou no México a sua morada e refúgio

> Por Tércia Montenegro

Ilustração: Valdir Heitkoeter

Ilustração: Valdir Heitkoeter

Não é raro que artistas se sintam atraídos pelo mágico. Talvez o próprio processo de criar ainda conserve sua aura de mistério — malgrado o que afirmam certos críticos ou softwares. Caso contrário, se o encanto foi mesmo descartado para esta e as próximas gerações, consolemo-nos vendo o que se fazia tempos atrás. Podemos pensar em Artaud e seu teatro ritual, assimilado a uma cura xamânica, ou então lembraremos Rimbaud e a cabala, Borges e suas ligações com o ocultismo, Jodorowski ou Mutarelli e as práticas com o tarô… Muitos exemplos seriam apropriados — mas, como sempre tenho grande interesse no México, aproveito-me do tema.

Remedios Varo, embora nascida na Espanha, encontrou ali a sua morada e refúgio. Dizia que sua pintura, misteriosíssima e cheia de fabulações cosmogônicas, poderia ter sido criada em qualquer lugar — porém, duvidemos. O México, conforme bem assinalava André Breton, é um “lugar surrealista por excelência”.

Sua chegada ao país em 1941 foi reflexo da política de Lázaro Cárdenas, que na ocasião defendia o Direito de Asilo e se posicionava contrariamente às violações de liberdade praticadas tanto pelo imperialismo nazista quanto pelo franquismo. Por causa dessa atitude, uma importante corrente de refugiados — dentre os quais estavam grandes nomes da intelectualidade europeia — foram se encontrar no exílio. Surrealistas como Leonora Carrington, Wolfgang Paalen, Alice Rahon, Kati e José Horna, Benjamin Péret, César Moro e vários outros assim conviveram. A efervescência entre os estrangeiros fez com que eles se encastelassem numa espécie de gueto convivial — em que havia inclusive um combate aos “três emes”: Mexicanidade, Machismo e Muralismo, considerados muito poderosos na arte nativa.

Ao lado de Leonora especialmente, Remedios fez parcerias artísticas, como a elaboração de uma peça de teatro “irrepresentável”, devido à complexidade do cenário, ao número de personagens e sua peculiar caracterização. Mas as próprias autoras mostraram-se cientes disso, ao afirmar no início: “Esta obra foi feita somente para divertimento dos atores. O público é mero acidente”. Fragmentos da peça — que, ao que parece, foi feita ao modo surrealista do cadavre exquis, em que cada autora escrevia uma parte ignorando totalmente o que a outra escreveria — podem ser vistos no livro Cartas, sueños y otros textos de Remedios Varo, publicado pelas Ediciones Era.

Com Leonora, Remedios também preparava receitas enigmáticas, feitas para curar a insônia ou produzir sonhos eróticos. Ambas frequentavam livrarias ocultistas, o que sem dúvida contribuiu para a construção do universo mutante, misterioso e quase fantasmagórico de vários de seus quadros.

Entretanto, a sua principal postura foi a de criação solitária, concentrada na disciplina e jamais na vaidade de um possível aplauso. Em carta destinada ao primeiro marido, Gerardo Lizarraga, ela inclusive comentava: “Me custa muito entender a importância que parece ter para ti o reconhecimento do teu talento. Eu pensava que para um criador o importante seria criar, e o futuro de sua obra seria uma questão secundária, e fama, admiração, curiosidade das pessoas etc. muito mais consequências inevitáveis que coisas desejadas”.

Para Remedios Varo, realizar a Grande Obra era o que lhe permitia conhecer e conhecer-se. Numa espécie de concepção transcendental, o próprio processo estético se tornava um fazer mágico. Ela pintou perseguidores da sabedoria interior, como um taoísta em Ermitão (1955), um escalador espiritual em Ascensão ao monte análogo (1960) e um peregrino descalço cruzando o deserto em Caminho árido (1962).

No livro de Masayo Nonaka sobre a pintora, ressalta-se a raiz hispânica desses ritos — vindos de sábios influenciados pelo Islã, “astrólogos e alquimistas que adquiriram a sabedoria mística ao estudar a natureza e observar os planetas. Eram versados em geometria, matemáticas e teoria musical, cujos princípios estavam baseados na harmonia. O universo em si era harmonia. Varo se inspira nas sensibilidades místicas de sua herança espanhola”.

Sempre fascinada por eclipses, forças telúricas e zodiacais, Varo desenvolve um ponto específico de sua iconografia através do movimento. Muitas de suas figuras são viajantes, movem-se por meio de complicados aparatos mecânicos ou máquinas bizarras com polias, asas ou rodas; são deslocadas pelos astros ou pelas águas, sofrem traslados através de capilaridades ou quebras gravitacionais. Porém, como ressalta José Lucas, no artigo Remedios Varo: el viaje interior, este movimento é na verdade interior, cíclico, metafórico.

Novamente aqui, vemos que o autoconhecimento era o que impulsionava a artista. Mas engana-se quem imagina que essa busca foi severa, reflexo da implacável educação religiosa que Varo recebeu na infância. O seu humor está presente em diversas telas, como por exemplo nas invenções fantásticas de Vampiros vegetarianos (1962), de Banqueiros em ação (1962) e Locomoção capilar (1959). Além disso, as experiências surrealistas lhe asseguraram uma mirada risível sobre os comportamentos. Ela costumava lançar-se ao que denominava experimento “psico-humorístico”, que consistia no envio de cartas para desconhecidos, cheias de confissões disparatadas ou convites misteriosos. Conforme testemunhou Leonora Carrington: “Nunca chega uma resposta. As pessoas não têm tempo para nada realmente interessante”.

Outros que conviveram com ela — como foi também o caso de Octavio Paz — costumavam destacar a sua capacidade de ironizar qualquer tema, inclusive os que lhe eram mais sagrados. É o que vemos Varo fazer, numa de suas cartas, quando escreve (sob pseudônimo) a respeito de pintura — e chega a extremos cômicos com ímpetos que deve ter conhecido na prática:

A coisa começou aproximadamente há seis meses. Eu pintava com entusiasmo um quadro onde se via um amável prado, com carneiros e vacas passeando serenamente. Confesso que me sentia satisfeito com a obra, mas aqui de repente uma força irresistível me impeliu a pintar, sobre o lombo de cada carneiro, uma pequena escada, em cujo extremo superior se encontrava uma imagem da minha vizinha da frente; sobre as vacas me via obrigado a colocar, não sem angústia, uns lenços bem pregados. Poderá você imaginar a minha surpresa e desolação. Escondi este quadro, começando outros, mas me via sempre instado a introduzir elementos estranhos neles, até que chegou um momento em que, tendo derramado por acaso certa quantidade de molho de tomate sobre minha calça, achei a mancha tão extremamente significativa e emocionante, que rapidamente cortei o pedaço de tecido e o emoldurei. Eu me vi obrigado a levar, a partir do momento em que pintei o primeiro quadro que lhe mencionei, uma vida quase clandestina, temendo que as pessoas me descubram e me façam examinar por um alienista.

Em 1986, cerca de vinte anos após sua morte, Remedios Varo integrou a exposição Arte e Alquimia, na Bienal de Veneza. E hoje, três décadas depois, ela continua ensinando mistérios — de força ancestral, rito ou riso — a quem quer que seja. Basta que vejamos quadros como Bordando o manto terrestre (1961), Criação das aves (1957) ou Presença inquietante (1959), dentre tantos mais.

Print Friendly