Ensaios e Resenhas

junho 2017 / Ensaios e Resenhas / Tese banal

Texto publicado na edição #206

Tese banal

"O método Albertine", de Anne Carson, é um malogrado esforço de atrair o leitor para a obra de Proust

> Por Adalberto de Queiroz

Anne Carson, autora de O método Albertine

Anne Carson, autora de O método Albertine

A primeira obra de Anne Carson traduzida no Brasil é um pequeno livro de crítica sobre a obra de Marcel Proust, no qual ela tenta provar teses próprias, sem contudo apaixonar o leitor mais atento de Proust a ler (ou reler) Em busca do tempo perdido.

Pinçando trechos de A prisioneira, Carson tenta provar teses feministas e comportamentos sexuais amplamente disseminados em nossa cultura — a sodomia e o lesbianismo. Apoiada em citação de André Gide, a autora força o texto a provar que a ligação Albertine/Marcel não passa de uma versão disfarçada da relação de Proust com seu motorista particular Alfred Agostinelli, como numa “teoria da transposição”. Como no título original (workout), ei-la em exaustivo exercício de crítica para provar uma tese banal.

Como se sabe, Albertine é uma personagem importante da última parte da obra de Proust. Aquela mesma que Millôr Fernandes fez o mais convincente convite ao jovem leitor: “Ah, por mais que lhe custe/ Leia as 2.000 páginas/Do dândi Marcel Proust”. Não é convite que eu repita para o livro de Carson.

Confessando ter sido difícil atravessar o “deserto Proust” durante seis anos de leitura, e que mais ainda lhe parece doloroso ficar sem ele, a autora não foi capaz de decifrar o enigma proustiano. É uma falha de conexão típica de quem quer colocar o múltiplo Proust numa caixa própria, e, feitas as contas (workout), não estabelece relação da obra com o mundo do leitor comum, nem tampouco com o leitor que pacientemente adentra com respeito essa catedral literária.

Organizado em 59 itens (fragmentos) e 16 apêndices, O método Albertine é, segundo a correta tradutora Vilma Arêas, “um livro sobre a paixão”, sendo a segunda parte composta por apêndices para “ampliar a discussão de alguns tópicos da primeira parte, à imitação de um trabalho acadêmico”.

Não há paixão para um proustiano antigo ver uma vasta obra reduzida a uma “transposição”, na qual os valores eleitos na tese de Carson ficam explícitos, à medida que se avança por itens aleatórios, como a pular sobre pedras de um fosso escuro (a obra de Proust). A natureza dessas escolhas fica logo clara — pois “Não há certo e errado em Proust, diz Samuel Beckett… O blefe, entretanto, permanece uma área indefinida”.

A excêntrica e respeitada Carson fica em dívida com o leitor brasileiro. Ela que tem todo o louvor do establishment acadêmico e artístico norte-americano que lhe bate palmas e sorri encantado. O “exercício” de crítica que pratica é como natação em piscina longa, por várias horas. Parece que “onde outros podem desistir, Carson continua dentro d’água”, produzindo artifícios críticos para um público descolado e fiel aos valores do mainstream literário contemporâneo.

Não é o caso do crítico Benjamin Landry, do Boston Review, que encontrou em The Albertine workout um vínculo com um livro anterior (Eros Bittersweet) de Carson.

Uma razão que Carson pode ter ajustado o foco de sua visão em Albertine é que este personagem ilustra um princípio de resistência erótica descrito no texto do início do livro Eros Bittersweet“Safo percebe o desejo ao identificá-lo como uma estrutura de três partes… Amante, amado e o que se interpõe entre eles”. O componente vital da corrente do desejo, o que se encontra entre Marcel e Albertine, pode encontrar sua expressão em qualquer número de suas óbvias incongruências: sua doentia atitude em contraste com seu atletismo; o grande abismo da diferença de classe; a natureza incognoscível do tempo livre de Albertine, caracterizada por suspeitas de lesbianismo. De acordo com as reflexões do narrador, é este “elemento desconhecido”.

Daí a compor sua “teoria da transposição”, para provar o homossexualismo de Albertine e de Marcel — as ligações “duplas” e “dúplices” — de Albertine com suas amigas (uma legião delas!), e a de Proust com o motorista Alfred Agostinelli como algo nem bom nem ruim, mas humano.

Ora, isso é tão óbvio que bastaria examinar as relações sodomitas do personagem Sr. De Charlus, em Sodoma e Gomorra e A prisioneira, em que inúmeras passagens validam o comportamento sexual invertido.

Se insistir na tese da transposição, no homossexualismo dos personagens, bastaria ler diretamente o próprio Proust! “Que pólvora inútil para o pombo do óbvio, tão acadêmico como os fogos de artifício” — dirá o leitor médio. Ouçamos Proust:

Ah! Muito teria que ensinar aos que fazem inquéritos sobre a nova geração descartada das vãs complicações de seus antepassados, diz o Sr. Bourget! Tenho um amiguinho nessa geração, de quem falam muito, que fez coisas admiráveis, mas enfim não quero ser mau, voltemos ao século XVII, você sabe que Saint-Simon disse do Marechal d’Huxelles entre tantos outros: “Voluptuoso em depravações gregas que não tomava o trabalho de esconder, atraía jovens oficiais que ajeitava, além de jovens criados de boa estampa, e isto sem disfarce, no exército e em Estrasburgo.

Uma das cenas mais fantásticas de A prisioneira não tem lugar no livro de Carson, justamente por uma questão de método e estilo — afinal, estilo é escolha. Que o leitor abra Em busca do tempo perdido e se deleite com um exercício do estilo proustiano. Depois de comparar a beleza de Morel, companheiro do Sr. Charlus e motivo de sua melancolia e tristeza, Proust nos faz saber que Morel era louco, mas Albertine, não: “Tudo isso, justifica o narrador, é apenas comparação. Albertine não era louca.” E segue-se a cena: “Soube que nesse dia ocorrera uma morte que me causou vivo pesar, a de Bergotte”. Leiam Vista de Delft de Vermeer — aquele que no delírio da morte ainda via a Beleza “não tirava os olhos, como faz o menino com a borboleta amarela que quer pegar, do precioso panozinho de muro. Assim é que eu deveria ter escrito, dizia consigo. Meus últimos livros são demasiado secos, teria sido preciso passar várias camadas de tinta, tornar a minha frase preciosa em si mesma, como este panozinho de muro”.

Lendo isso, talvez até os “descolados” possam concluir que Proust é maior do que uma “teoria invasiva e melancólica” (da transposição), ou do que a análise sutil e maliciosa, que é maior do que uma mentira (ou um blefe). No entanto, segundo Benjamin Landry,

Carson parece desesperadamente querer inventar a personagem só dela, de nome Albertine, mas esses esforços estão impedidos pelo fato necessário de que, sem a superfície de projeção relativamente limpa da personagem Albertine — uma insistência estranha sobre o texto de Proust para ter certeza —, não há Marcel, e nenhuma história.

O método Albertine é um malogrado esforço de atrair o leitor para a obra de Proust, não obstante a concisão textual (e o exibicionismo) do livro. Junta-se uma Albertine inventada por Anne Carson a um esforço temeroso de encontrar justificativa para a sua tese, na qual “não há Marcel”, não há história de uma Albertine com certidão de nascimento passada por seu Criador (Proust).

Há mais razões para se apaixonar pela obsessiva busca do tempo perdido elaborada pelo “dândi Marcel Proust” do que tentar decifrar a carsoniana “teoria da transposição”. Vale mais ir ao original do que tentar se conduzir pelas bruxuleantes luzes críticas no texto de Anne Carson.

 

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O método Albertine
Anne Carson
Trad.: Vilma Arêas e Francisco A. Guimarães
Jabuticaba
45 págs.

 

 

A AUTORA
Anne Carson
Nasceu no Canadá, em 1950. É professora universitária de grego antigo, poeta e ensaísta. Autora, entre outros, de Eros the bittersweet, Autobiography of red, Decreation, Nox, If not, Antigonick. Já recebeu os prêmios Lannan Award, Pushcart Prize, Griffin Trust Award, Guggenheim Fellowship e o MacArthur Genius Award.

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