Ensaios e Resenhas

maio 2011 / Ensaios e Resenhas / Subliteratura e vingança

Texto publicado na edição #132

Subliteratura e vingança

A obra do cearense Adolfo Caminha só confirma minhas conclusões de que os frutos do naturalismo brasileiro — essa “planta […]

> Por RODRIGO GURGEL

Adolfo Caminha por Robson Vilalba

A obra do cearense Adolfo Caminha só confirma minhas conclusões de que os frutos do naturalismo brasileiro — essa “planta exótica”, segundo o sugestivo enunciado de Lúcia Miguel-Pereira — são, em sua maior parte, excêntricos quanto aos temas e medíocres no que se refere à forma. No caso específico de Caminha, contudo, há um desonroso complemento: seus principais livros, A normalista e Bom Crioulo, nasceram, principalmente, do rancor.

Órfão de mãe aos dez anos, Caminha, doente depois de sofrer as agruras de uma terrível seca, é enviado a Fortaleza pelo pai. Dali, parte para o Rio de Janeiro, onde um tio o inscreve na Escola Naval. Republicano servindo na Marinha, a mais monarquista das instituições militares, o escritor não se adapta à Corte e solicita o retorno ao Ceará. Aos 22 anos, apaixona-se pela esposa de um alferes; esta, para escândalo dos fortalezenses, abandona o marido e passa a viver com Caminha. As pressões obrigam-no a abandonar sua carreira nas forças armadas e, apesar do novo emprego — de insignificante escriturário na Tesouraria da Fazenda —, a se transferir, em 1893, para o Rio de Janeiro, quando publica A normalista, livro no qual pretendeu ajustar contas com a sociedade que praticamente o expulsara de Fortaleza. Dois anos mais tarde, surge Bom Crioulo — e desta vez a vingança terá como alvo a Marinha.

Certos críticos modernos pretendem minimizar essa característica — a do romance enquanto desforra — e, também, isentar Caminha de suas responsabilidades, colocando nos ombros das “instituições conservadoras” a culpa pelo destino do escritor. Esquecem-se, no entanto, de que, em 1884, quando ele discursa na Escola Naval, diante do próprio imperador, e critica a monarquia, isso não o impede de ser promovido a guarda-marinha (1885) e segundo-tenente (1888). Na verdade, livrar Adolfo Caminha de culpa é uma solução deveras fácil para quem preferiu agir como se atos não produzissem conseqüências. O arroubo imaturo cobrou seu preço — e o autor, considerando-se perseguido e injustiçado, decidiu revidar com a arma que tinha à mão.

Ressentimento
A escritora e editora Louise DeSalvo estudou, em Concebido com maldade, alguns casos semelhantes ao de Caminha, de autores que escreveram movidos pelo desejo de vingança. Ainda que suas reflexões sejam superficiais e discutíveis, o livro permite a abertura de um debate sobre os motivos éticos da produção literária. DeSalvo enaltece as obras que nascem do ressentimento, legitimando seu raciocínio por meio de um freudismo superficial, muito disseminado nos estudos acadêmicos, ou servindo-se de citações genéricas, exemplos daquele beletrismo que serve para justificar qualquer coisa. Por exemplo, a retórica da frase “Nenhuma motivação é demasiado vil para a arte”, de John Gardner (a pesquisadora certamente se refere ao romancista e crítico norte-americano e não ao escritor inglês), esconde um juízo que pretende abarcar todos os comportamentos, inclusive os mais levianos. Ora, se nada é “demasiado vil para a arte”, o homicídio praticado pelo escritor cujo objetivo último é apenas descrever com perfeição um assassinato seria uma motivação aceitável?

A escritora Anaïs Nin também se mostra condescendente, o que, para quem conhece sua biografia, não é nenhuma surpresa:

O escritor é o duelista que jamais luta na hora marcada, que guarda um insulto como qualquer outro objeto curioso, um item de colecionador, despeja-o mais tarde sobre sua mesa e empenha-se verbalmente num duelo com ele. Algumas pessoas chamam isso de fraqueza. Eu chamo de adiamento… Pois ele preserva, coleciona o que depois vai explodir em sua obra.

De minha parte, não considero tal atitude “fraqueza” ou “adiamento”, mas apenas covardia. E os gestos que nascem da pusilanimidade, não só no que se refere à arte, costumam ser desprezíveis.

Se, como afirma DeSalvo, “a obra de arte substitui uma inadequação” e é somente um “meio infantil, regressivo e escapista de lidar com um fracasso”, então os gênios da literatura são, necessariamente, monstros morais ou, numa hipótese mais amena, adultos que não amadureceram. Tais generalizações servem ao intuito da autora, com certeza, mas fecham os olhos à complexidade não só dos escritores, mas de todos os seres humanos. Como classificar, por exemplo, Tolstói, a quem Isaiah Berlin — em seu magnífico ensaio O porco-espinho e a raposa — se refere como “o mais trágico entre os grandes escritores”, que se debateu, por toda a vida, entre “o orgulho e o ódio por si mesmo, onisciente e duvidando de tudo, frio e violentamente apaixonado, desdenhoso e pronto a se humilhar, atormentado e desapegado, rodeado por uma família que o adorava, por seguidores dedicados, pela admiração de todo o mundo civilizado e, ainda assim, quase totalmente isolado”?

Outro exemplo de DeSalvo, Henry Miller dizia que sua escrita talvez parecesse “monstruosa (para alguns) pois era uma violação, porém eu me tornei um indivíduo mais humano depois dela. Eu retirava o veneno do meu sistema sanguíneo”. Não sabemos o que significou para ele tornar-se “mais humano” — e desconhecemos se sua afirmação é sincera —, mas escrever movido por um desejo maléfico e distribuir o seu “veneno” a milhares de leitores é, no mínimo, uma forma discutível de purificar a própria consciência. De qualquer forma, se Caminha teve oportunidade semelhante, pôde desfrutar dela por pouco tempo, pois morreu dois anos depois de publicar Bom Crioulo. Suas tentativas patológicas de retaliação, contudo, ficaram. Em A normalista, segundo Alfredo Bosi, “o ressentimento do autor, apoucado pela vida de amanuense no meio hostil de Fortaleza, leva-o a nivelar todas as personagens no sentido das pequenas vilezas que a hipocrisia do meio se esforça em vão por encobrir”. Como veremos, não será diferente no caso de Bom Crioulo.

Linguagem
Se fosse possível sintetizar, numa única expressão, esse livro que uma parcela da crítica endeusa pelo fato de ser o primeiro “romance homossexual” da literatura brasileira, eu diria que se trata de uma cascata de adjetivos e lugares-comuns. Há adjetivos às pencas. Nem José de Alencar conseguiu usar tantos. O leitor abre o Capítulo I e lá encontra esta fórmula de gosto duvidoso: “(…) o silêncio infinito das esferas obumbradas pela chuva de ouro do dia”. O protagonista, marujo a quem se apelidou de Bom Crioulo, é

um latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desafiando, com um formidável sistema de músculos, a morbidez patológica de toda uma geração decadente e enervada.

Tal maçante retórica irá perseguir o leitor até a última linha desse conto à força estendido. E virá acompanhada de “horizontes cor-de-rosa”, “coragem espartana”, o espírito que se debate “como um pássaro agonizante”, o “azul inconsútil” do céu, a ventania que tem “a força extraordinária de titãs”, “desejos de touro”, “frenesi de gozo”, o céu “alto e imenso na eterna glória da luz”, o “silêncio infinito da noite clara”, o som da viola que “embriaga a alma” e mais quantos lugares-comuns se possa desejar.

O exagero das descrições é evidente desde a primeira linha. O ódio não permitiu ao escritor filtrar um pouco os seus ímpetos qualificativos. A corveta que servirá de palco à cena inicial do livro é “velha e gloriosa”, tem o “casco negro” e as “velas encardidas de mofo”, assemelha-se à “sombra fantástica de um barco aventureiro”, mas não passa de uma “velha carcaça flutuante”, “esquife agourento (…) quase lúgubre na sua marcha vagarosa” — “um grande morcego apocalíptico de asas abertas sobre o imenso mar”. E estes são apenas trechos selecionados dos três breves parágrafos que abrem o Capítulo I… Logo, logo veremos o vento “açoitando os cabos, fustigando a superfície da água” e, pasmem, “gemendo tristemente salmodias de violoncelo fantástico”.

Apaixonado por Aleixo, um grumete de 15 anos, Bom Crioulo sofre o “forte desejo de macho torturado pela carnalidade grega”, seja lá o que isso for. Sempre a acompanhar o casal de namorados, lá está, “no alto do grande hemisfério que a luz do meio-dia incendiava”, nada mais que “o azul, sempre o azul claro, o azul imaculado, o azul transparente e doce, infinito e misterioso”. E à noite, é claro, não falta a lua, eterna protetora dos apaixonados, que necessariamente surge, primeiro, “cor de fogo”, para depois se tornar “fria e opalescente, misto de névoa e luz, alma da solidão”, “derramando sobre o mar essa luz meiga, essa luz ideal que penetra o coração do marinheiro” e atormenta os leitores que conservaram um mínimo de bom senso.

Bom Crioulo não se excita, apenas, mas sente “uma febre extraordinária de erotismo, um delírio invencível de gozo pederasta” — por um momento, o leitor tem a clara impressão de que ele se jogará pela amurada. Já em terra, no aconchego de uma “triste e desolada baiúca da Rua da Misericórdia”, o negro venera as “formas roliças de calipígio” do seu amante. Os dois vivem numa suja água-furtada, “espécie de sótão roído pelo cupim e tresandando a ácido fênico”, mas que apresenta “sombra voluptuosa”, “penumbra acariciadora” e, graças aos rabiscos do escritor, se transforma num “ignorado e impudico santuário de paixões inconfessáveis”. E se não estamos satisfeitos com o palavrório, ainda podemos saber que Aleixo é um “belo modelo de efebo que a Grécia de Vênus talvez imortalizasse em estrofes de ouro límpido e estátuas duma escultura sensual e pujante”. Convenhamos, nem o pior dos românticos produziria uma frase tão afetada.

Mas vamos em frente. Bom Crioulo, levado ao hospital da Marinha depois de receber chibatadas — punição habitual à época —, chega aos estertores da saudade:

Um desespero surdo, um desespero incrível, aumentado por acidentes patológicos, fomentado por uma espécie de lepra contagiosa que brotara, rápido, em seu corpo, onde sangravam ainda, obstinadamente, lívidas marcas de castigo — um desespero fantástico enchia o coração amargurado de Bom Crioulo.

Como vemos, o hiperbolismo causa efeito oposto àquele que o autor busca. Depois de algumas páginas abarrotadas de adjetivos que pretendem, repetidamente, construir a mesma ênfase expressiva, o recurso começa a produzir incredibilidade e, logo depois, aversão. No caso acima, não basta que o “desespero” seja “surdo” e “incrível” — ele também precisa ser “fantástico”, além de vir acompanhado de indescritíveis “acidentes patológicos” e de “uma espécie de lepra contagiosa”. Não é só a cena que desmorona diante do olhar saturado do leitor, mas a própria verossimilhança da história fica comprometida, principalmente quando sabemos que, poucos parágrafos à frente, o personagem — que há dias sangra no seu leito — agirá como um super-herói: saltará janela e muros, fugirá da ilha em que o hospital está instalado e, chegando ao continente, caminhará longos quarteirões em busca de sua paixão.

Ao dedicar-se com tal empenho à sua vingança, Adolfo Caminha seguiu os passos de Aluísio Azevedo, e aprendeu com seu mestre a importância de coalhar o texto de imagens mórbidas. Assim, lá estão os “ímpetos vorazes de novilho solto” — ou, se preferirem, o “grande ímpeto selvagem de novilho insaciável” —, as “incongruências de macho em cio”, as “nostalgias de libertino fogoso”, a mulher masculinizada, de “pernas gordas e penugentas”, que se transforma numa “vaca do campo extraordinariamente excitada” e, “segurando os seios moles”, traz “um estranho fulgor no olhar de basilisco”. Tudo se animaliza, tudo se degrada, a fim de corroborar, à força, as teorias deterministas. Do “bodum africano”, passando pelo “hermafroditismo agudo”, chega-se às “sucções violentas”. E quando Bom Crioulo, fugido do hospital, percorre as ruas em busca de Aleixo, “pairava um cheiro forte de urina, assim como uma emanação agressiva de mictório público, envenenando a atmosfera, intoxicando a respiração”. É pena que, no final, quando o negro salta de navalha em punho sobre o amante, apresente, além do ciúme, o raríssimo sintoma de “estrabismo nervoso de alucinado”… Esse problema não poderia tê-lo impedido de acertar o alvo?

Toda a conhecida ladainha biologista do naturalismo polui a obra: como vimos, Bom Crioulo é o melhor contraponto à suposta “morbidez patológica de toda uma geração decadente e enervada”; certo personagem traz “no rosto imberbe de adolescente (…) uma precoce morbidez sintomática”; o grumete tem uma “vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro”; a natureza não só “impõe castigos”, mas “pode mais que a vontade humana”. Não estamos diante de afetos passíveis de serem controlados pela razão ou, ao menos, capazes de provocar dúvidas de ordem existencial ou moral, mas de uma “obsessão doentia” que “redobra com uma força prodigiosa”, “acorda zelos que pareciam estagnados” e “comove fibras que já tinham perdido antigas energias”. A luta de Bom Crioulo contra os seus instintos, anunciada com fanfarras no Capítulo III, não dura poucos parágrafos, de maneira que a homossexualidade se apresenta como um “ideal genésico” cuja força obriga o “selvagem de Zanzibar” a “cair em êxtase (…) diante de um ídolo sagrado pelo fetichismo africano”.

Composição
Mas os defeitos de Bom Crioulo não se restringem à linguagem. O livro é composto sobre esquematismos e obviedades. Logo no início, à calmaria enfrentada pela corveta corresponde, evidentemente, a preguiça dos marujos. O oficial que preza a obediência da marujada precisa ser um disciplinador arrogante. Agostinho, um guardião também responsável por aplicar as chibatadas, não pode desaprovar o que é obrigado a fazer por ordens superiores, mas deve, necessariamente, ter a personalidade de um sádico. O feliz casal de homossexuais carece de um antagonista — e, claro, nada melhor do que o elemento feminino, a portuguesa Carolina, para assumir o posto, formando o trio de personagens a partir do qual se construirá a trama corriqueira: encontro — sedução — posse do objeto amoroso — separação momentânea — sedução do antagonista — ciúme descontrolado — tragédia/morte.

A história é tão previsível, que se cortássemos, além dos trechos de retórica vazia, as digressões que só reiteram as qualidades físicas dos marinheiros enamorados e seus repetitivos sentimentos, recíprocos ou não, o livro poderia perder dois terços de gordura e se transformar num conto de vinte ou trinta páginas.

Há também sérios problemas de passagem do tempo. Em menos de um mês, enquanto Bom Crioulo se encontra no hospital, Aleixo se torna “gordo, forte, sadio (…), músculos desenvolvidos como os de um acrobata (…), expressão admirável de robustez física” — e a única razão apresentada para essa mudança são os cuidados de Carolina. Antes, sem que se cumpra sequer um ano de convivência, Bom Crioulo consegue ver “crescer a seu lado Aleixo, assistindo-lhe o desenvolvimento prematuro de certos órgãos, o desabrochar da segunda idade”. Próximo do fim do livro, passadas as poucas semanas em que permaneceu no hospital, o protagonista já não sabe ao certo onde é a residência de Carolina, lugar no qual vivia muito antes de conhecer Aleixo — e age como se sua última noite ali tivesse ocorrido há décadas. Finalmente, parado defronte à casa, conversa com o funcionário da padaria e este lhe diz que o grumete e a portuguesa acordam tarde; o dia mal amanheceu, mas, surpresa!, Aleixo sai para a rua.

A vertigem do Mal
Enquanto relia Bom Crioulo, lembrei-me do ensaio — elogioso e demoníaco — de Georges Bataille sobre Jules Michelet e seu La sorcière (A feiticeira). Do princípio ao fim, Caminha parece guiado pela mesma paixão que, segundo Bataille, comandava Michelet: “a vertigem do Mal”. Entregue ao seu desejo de vingança, enquanto escrevia Adolfo Caminha talvez repetisse o gesto de Michelet: “No decurso do seu trabalho, acontecia faltar-lhe a inspiração: descia então de sua casa, dirigia-se a um mictório cujo cheiro era sufocante. Aspirava profundamente e, tendo-se assim ‘aproximado, o mais perto que podia, do objeto do seu horror’, voltava ao trabalho”.

Encontrar quem elogie tal subliteratura é uma evidência de quanto a nossa episteme se encontra deteriorada, submetida à mais ordinária doxa. Realmente, uma parcela da crítica literária abdicou do seu papel, preferindo destruir a autonomia da literatura e sujeitar a arte à deplorável ditadura do politicamente correto. Harold Bloom está certo quando diz que todos os padrões estéticos e a maioria dos padrões intelectuais estão sendo abandonados em nome de uma falsa e forçada harmonia social. E, completo, com um agravante: mente-se descaradamente aos jovens, levando-os a valorizar uma ficção medíocre. Tal obsessão significa, na prática, a renúncia à autonomia de pensamento — um desatino frente ao qual muitos se mostram indefesos.

NOTA
Desde a edição 122 do Rascunho (junho de 2010), o crítico Rodrigo Gurgel escreve a respeito dos principais prosadores da literatura brasileira. Na próxima edição, Domingos Olímpio e Luzia-Homem.

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Adolfo Caminha

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Nasceu em Aracati (CE), a 29 de maio de 1867, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), a 1.º de janeiro de 1897. Foi romancista, contista e poeta. Em 1886, reúne poesias sob o título de Voos incertos e, já na Marinha, faz viagem de instrução aos Estados Unidos. No ano seguinte publica o livro de contos Judite e lágrimas de um crente. Em 1891, lança A normalista e colabora nos jornais Gazeta de Notícias e O País. Publicado em 1894, No país dos yankees é o relato de sua viagem aos EUA. Um ano depois surgem Bom Crioulo (romance) e Cartas literárias (crítica). Em 1896, funda o semanário Nova Revista e publica o romance Tentação. Debilitado pela tuberculose, morre aos 29 anos. Deixa, inacabados, os romances: Ângelo e O emigrado.

Consumia-se em reflexões pueris, verberando o procedimento de Aleixo, uivando pragas que ninguém escutava, dardejando cóleras, tempestuoso e medonho na sua mudez alucinada. Eram noites e noites de um sonambulismo fantástico e enervante, de uma obsessão rude e esmagadora. E quando, pela madrugada, vinha-lhe o sono, era impossível dormir, porque vinham-lhe também o que ele chamava “as coceiras”, um horroroso prurido na pele, no corpo todo, como se o sangue fosse esguichar pelos poros numa hemorragia formidável ou como se estivesse crivado de alfinetes da cabeça aos pés; — não podia fechar os olhos, nem tranqüilizar o espírito. Seu desejo era sair como um doido por ali fora, meter-se num banho e ficar na água um ror de tempo agachado, nu em pêlo. Parecia uma maldição! Rebentavam-lhe feridas: havia uma grande aberta no joelho esquerdo. Não atinava com aquilo. Talvez alguma praga injusta... Era horroroso! Levar um homem a noite inteira sem dormir, pensando numa coisa, noutra, e, ainda por cima, o diabo de umas coceiras que punham a gente doida!