Dom Casmurro

outubro 2017 / Dom Casmurro / Stanley Kunitz

Texto publicado na edição #210

Stanley Kunitz

Oito poemas de Stanley Kunitz

> Por André Caramuru Aubert

Stanley Kunitz, poeta norte-americano.

Stanley Kunitz, poeta norte-americano.

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Stanley Kunitz (1905-2006) viveu uma longa vida, durante a qual jamais deixou de escrever poemas. Nascido em Massachusetts, descendente de judeus da Lituânia, Kunitz ficou marcado pelo suicídio do pai, ocorrido quando ele ainda estava na barriga da mãe. Admirado por poetas de sucessivas gerações, ganhador do Pulitzer, do National Book Award e por duas vezes Poeta Laureado do Congresso, a obra de Kunitz, contudo, jamais teve multidões de leitores, algo que me parece absolutamente inexplicável.

Touch me

Summer is late, my heart.
Words plucked out of the air
some forty years ago
when I was wild with love
and torn almost in two
scatter like leaves this night
of whistling wind and rain.
It is my heart that’s late,
it is my song that’s flown.
Outdoors all afternoon
under a gunmetal sky
staking my garden down,
I kneeled to the crickets trilling
underfoot as if about
to burst from their crusty shells;
and like a child again
marveled to hear so clear
and brave a music pour
from such a small machine.
What makes the engine go?
Desire, desire, desire.
The longing for the dance
stirs in the buried life.
One season only,
and it’s done.
So let the battered old willow
thrash against the windowpanes
and the house timbers creak.
Darling, do you remember
the man you married? Touch me,
remind me who I am.

Toque em mim

O verão tarda, meu amor.
Palavras tiradas do ar
uns quarenta anos atrás
quando eu estava perdido de amor
quase quebrado ao meio
esparramado como as folhas desta noite
de chuva e vento assobiando.
É meu coração que tarda,
é minha canção que flui.
Lá fora, por toda a tarde
sob um céu cor de metal
pondo estacas no meu jardim,
eu me ajoelho sobre os grilos cantando
no caminho, como se a quase
explodir seus rígidos corpos;
e como se fosse criança de novo,
maravilhado ao ouvir aquela tão
clara e firme maquinha.
O que faz com que o motor trabalhe?
Desejo, desejo, desejo.
E a saudade de dançar
desperta na vida sepultada.
Só uma estação
e acabou.
Deixe o velho e surrado salgueiro
açoitar os vidros das janelas
enquanto as vigas gemem.
Meu amor, você se lembra
do homem com quem se casou? Toque em mim,
lembre-me de quem sou.

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The portrait

My mother never forgave my father
for killing himself,
especially at such an awkward time
and in a public park,
that spring
when I was waiting to be born.
She locked his name
in her deepest cabinet
and would not let him out,
though I could hear him thumping.
When I came down from the attic
with the pastel portrait in my hand
of a long-lipped stranger
with a brave moustache
and a deep brown level eyes,
she ripped it into shreds
without a single word
and slapped me hard.
In my sixty-fourth year
I can feel my cheek
still burning.

O retrato

Minha mãe jamais perdoou meu pai
por se matar,
especialmente em tempos tão difíceis
e numa praça pública,
naquela primavera
quando eu me preparava para nascer.
Ela escondeu o nome dele
no seu armário mais fundo
e nunca o deixou sair,
embora eu pudesse ouvi-lo batendo.
Quando eu desci do sótão
com o retrato em pastel, na minha mão,
de um desconhecido de lábios longos
com um bravo bigode
e profundos olhos castanhos,
ela o rasgou em pedaços
sem dizer palavra
e me esbofeteou a face.
No meu sexagésimo quarto ano de vida
ainda posso sentir
a bochecha ardendo.

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First love

At his incipient sun
The ice of twenty winters broke,
Crackling, in her eyes.

Her mirroring, still mind,
That held the world (made double) calm,
Turned fluid, and it ran.

There was a stir of music,
Mixed with flowers, in her blood;
A swift impulsive balm

From obscure roots;
Gold bees of clinging light
Swarmed in her brow.

Her throat is full of songs,
She hums, she is sensible of wings
Growing on her heart.

She is a tree in spring
Trembling with the hope of leaves,
Of which the leaves are tongues.

Primeiro amor

No seu incipiente sol
Quebrou-se o gelo de vinte invernos
Sob olhos dela, estalando.

O que ela espelhava, ainda me lembro,
Manteve o mundo (que se duplicara) quieto,
Agora fluido, e correu.

Havia uma agitação com música,
Misturada a flores, no sangue dela;
Um ligeiro e impulsivo bálsamo

De origens obscuras;
Abelhas douradas de luz pegajosa
Enxameavam em sua testa.

Sua garganta está repleta de canções,
Ela sussurra, ela sente as asas
Crescendo em seu coração.

Ela é uma árvore na primavera
Vibrando com a esperança de folhas,
De folhas as quais são línguas.

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Day of foreboding

Great events are about to happen.
I have seen migratory birds
in unprecedented numbers
descend on the coastal plain,
picking the margins clean.
My bones are a family in their tent
huddled over a small fire
waiting for the uncertain signal
to resume the long march.

Pressentimento

Grandes eventos estão para acontecer.
Eu vi pássaros migratórios
em número sem precedentes
pousando na planície costeira,
deixando as margens limpas.
Meus ossos são uma família, em sua tenda,
em torno de uma pequena fogueira
aguardando por um sinal incerto
a fim de retomar a longa marcha.

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The last question

Oh the good times! the laughter on the hill!
The parties down at Larry’s in the spring!
Your sovereign pleasure, careless itself to save,
Goes naked at the heart. Touching, you bring
Rumors of heaven and its generous spoils
Here, even, where our hooded shadows rise
To play the stab-scene, the end of love,
While grief intones, ever the third that stays.
Now that your pity shines in other hall,
Now that your grain again comes to the mill,
Shall I be happy soon, shall I rejoice,
Or wrestle with that stranger whom you praise?

A última pergunta

Ah, os bons tempos! o riso na colina!
As festas no Larry na primavera!
Seu prazer soberano e descuidado, esquecido
Indo nu ao coração. Tocante, você traz
Rumores do céu, com seus generosos espólios
Aqui, ainda, onde se erguem nossas sombras encapuzadas
Para representar a cena da punhalada, do fim do amor,
Enquanto o sofrimento entoa, sempre o terceiro que fica.
Agora que sua piedade brilha em outra sala,
Agora que seu trigo novamente chega ao moinho,
Deverei logo ser feliz, deverei celebrar,
Ou lutar contra aquele estranho a quem você venera?

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How long is the night?

On the anvil of love my flesh has been hammered out.
Indifferent, in the indifferent air,
I circulate and suck the star-space in.
No one is dear to me now,
Leastly myself that sickened in the night.
I would abandon this loose bag of bones
And walk between the world’s great wounds, unpitying.
Quanto dura a noite?

Na bigorna do amor minha carne foi marcada.
Indiferente, no ar indiferente,
Eu faço círculos e sugo o espaço das estrelas.
Ninguém me é caro agora,
Nem mesmo eu que adoeci à noite.
Eu abandonaria este frouxo saco de ossos
e caminharia entre as grandes feridas do mundo, impiedosamente.

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Father and son

Now in the suburbs and the falling light
I followed him, and now down sandy road
Whiter than bone-dust, through the sweet
Curdle of fields, where the plums
Dropped with their load of ripeness, one by one.
Mile after mile I followed, with skimming feet,
After the secret master of my blood,
Him, steeped in the odor of ponds, whose indomitable love
Kept me in chains. Strode years; stretched into bird;
Raced through the sleeping country where I was young,
The silence unrolling before me as I came,
The night nailed like an orange to my brow.

How should I tell him my fable and the fears,
How bridge the chasm in a casual tone,
Saying: “The house, the stucco one you built,
We lost. Sister married and went from home,
And nothing comes back, it’s strange, from where she goes.
I lived on a hill that had too many rooms:
Light we could make, but not enough of warmth,
And when the light failed, I climbed under the hill.
The papers are delivered every day;
I am alone and never shed a tear.”

At the water’s edge, where the smothering ferns lifted
Their arms, “Father!” I cried, “Return! You know
The way. I’ll wipe the mudstains from your clothes;
No trace, I promise, will remain. Instruct
Your son, whirling between two wars,
In the Gemara of your gentleness,
For I would be a child to those who mourn
And brother to the foundlings of the field
And friend of innocence and all bright eyes.
O teach me how to work and keep me kind.”

Among the turtles and the lilies he turned to me
The white ignorant hollow of his face.

Pai e filho

No bairro distante a luz vai caindo
Eu o sigo, vou descendo a rua empoeirada
Mais branca do que pó de osso, através das doces
Ondulações dos campos, onde as ameixas
Vão caindo maduras, uma a uma.
Milha após milha eu o sigo, com passos leves,
Em busca do mestre secreto de meu sangue,
Ele, impregnado do odor das lagoas, cujo indômito amor
Me manteve acorrentado. A marcha dos anos; transformado em pássaro;
Percorrido o país adormecido onde fui criança,
O silêncio se impôs a mim conforme eu chegava,
A noite pregada feito uma laranja em minha testa.

Como eu poderia falar com ele das minhas fábulas e dos medos,
Como transpor o abismo num tom casual,
Dizendo: “a casa com estuque que você ergueu,
Nós perdemos. Minha irmã se casou e foi embora,
E nada vem, é estranho, de onde ela está.
Eu vivi numa colina onde há muitos quartos:
Luz nós temos, mas o aquecimento é pouco,
E quando faltou a luz eu desci a colina.
Jornais são entregues diariamente;
Estou sozinho e jamais deixei cair uma lágrima.

Na beira do lago, onde as densas samambaias erguiam
suas hastes, “Pai!”, eu gritei, “Volte! Você sabe
O caminho. Eu limparei as manchas de lama das suas roupas;
Nenhum traço, eu prometo, ficará. Eduque
Seu filho, rodopiando entre duas guerras,
Na Guemará de sua brandura,
Porque eu serei um filho para aqueles que velam
E um irmão para as crianças abandonadas no campo
E um amigo da inocência e dos olhos que brilham.
Oh, me ensine como trabalhar e me mantenha bom.”

Por entre as tartarugas e as flores ele se virou para mim
Com o vazio oco e alheio de sua face.

>>>

What of the night?

1.
One summer, like a stone,
dropped down a well,
I sank into myself
and raked
the bottom slime.
When I stretched out my thigh
it touched the dark,
and the dark rolled over me.
A brackish life
filled the cups of my skin.
Then gradually I heard
above the steady
breathing of the land
a high, inhuman chord
light-years away,
out of a cleaner space,
a more innocent age,
as when pilot angels
with crystal eyes and streaming hair
rode planets through the skies,
and each one sang
a single ravishing note
that melted
into the music of the spheres.

2.
What wakes me now
like the country doctor
startled in his sleep?
Why does my racing heart
shuffle down the hall
for the hundredth time
to answer the night-bell?
Whoever summons me has need of me.
How could I afford
to disobey that call?
A gentle, insistent ring
pulled me from my bed,
from loving arms,
though I know
I am not ready yet
and nobody stands on the stoop,
not even a stray cat
slouches under the sodium lamp.
Deceived! or self-deceived.
I can never atone for it.
Oh I should be the one
to swell the night with my alarm!
When the messenger comes again
I shall pretend
in a childish voice
my father is not home.
O que, da noite?

1.
Num verão, como uma pedra,
lançada em um poço,
eu afundei dentro de mim
e agitei
o lodo do fundo.
Quando estiquei minha coxa
ela tocou a escuridão,
e a escuridão passou por cima de mim.
Uma vida salobra
encheu os copos da minha pele.
então aos poucos ouvi
por cima da firme
respiração da terra
um acorde, alto e desumano
distante anos-luz,
vindo de um mais límpido espaço,
de uma mais inocente era,
como se quando anjos-pilotos
com olhos de cristal e cabelos em cascata
conduziram planetas pelos céus,
cada um deles cantando
uma única e arrebatadora nota
que se mesclava
à música das esferas.

2.
O que me desperta agora
como o médico interiorano
chamado enquanto dormia?
Por que será que meu acelerado coração
vai, pela centésima vez, aos
tropeços, para o vestíbulo,
para atender à campainha noturna?
Quem quer que me chame precisa de min.
Como poderia eu me negar
a atender o chamado?
Uma delicada e insistente campainha
arrancou-me da cama,
dos braços amorosos,
mesmo que eu saiba
que ainda não estou pronto
e que não há ninguém na varanda,
que nem mesmo um gato vira-latas
desliza sob a lâmpada de sódio.
Iludido! Ou auto-iludido.
Não tenho como compensar isso.
Oh, eu devo ser aquele
que com meus alarmes dilata a noite!
Quando o mensageiro voltar
Vou fingir
fazendo voz de criança
que meu pai não está em casa.

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