Ensaios e Resenhas

outubro 2019 / Ensaios e Resenhas / Sobre palavrões, livros e ombreiras

Texto publicado na edição #conteúdo on-line

Sobre palavrões, livros e ombreiras

Uma reflexão sobre a moda dos palavrões nos títulos de livros

> Por Antoine Abed

Foda_livros

O que poderia chamar mais atenção para um livro do que um palavrão no seu título, não é mesmo? Um rápido passeio pelas livrarias é suficiente para notar que a palavra “foda” (e suas variáveis) está em alta no mercado editorial. Tenho a impressão que estamos vivendo uma onda bem peculiar, onde autores dos mais variados países, para ganhar atenção do público e se destacar de alguma maneira entre os outros, usam um artifício que não podemos chamar de novo, mas está sendo usado de forma mais comum. Quer se surpreender? Entre no site da Amazon e pesquise publicações com a palavra “foda”, a quantidade de novos livros é impressionante.

Não me entenda mal, acredito que textos politicamente incorretos fazem bem a uma sociedade e que o mercado tem que ser livre, pois, se existe oferta, é porque uma demanda está aí fora consumindo isso tudo.

É fato que existem pessoas que desprezam livros com esse tipo de título agressivo, mas temos que ter em mente que os livros mais vendidos atualmente são os de autoajuda com algum tipo de palavrão na capa.  Começou com a palavra “idiota”, agora estamos na fase do “foda-se” e, logo mais, quando o “foda-se” deixar de chocar o público, virá outra expressão ainda mais chocante… E aí eu me pergunto: será que isso é uma espécie de moda ou os títulos com palavrões formarão tendência daqui pra frente?

Se tentarmos entender a sociedade atual talvez encontremos algumas respostas para a pergunta. Não consigo pensar em sociedade moderna sem pensar em Bauman. Em seus pensamentos, o filósofo diz que estamos na passagem da modernidade sólida para a líquida e essa modernidade líquida é marcada por grandes transformações, sendo a fragmentação do indivíduo a principal delas. Para ele, a sociedade moderna líquida não é fixa em um determinado espaço ou tempo. Estamos sempre adotando formas para experimentar o novo. Manter uma forma fixa não é mais um objetivo como era antes. Agora, tendemos a nos adaptar ao ambiente para retirar o melhor dele e essa busca contínua da sociedade pelo novo é que pode nos fazer entender o sucesso de livros com palavrões em seus títulos, onde a inovação e a maneira direta de comunicação acabam atraindo novos leitores.

E onde a moda de escrever palavrões se encaixa nisso tudo? Como sabemos, a moda é transitória e, por definição, é o uso passageiro que rege, de acordo com o gosto do momento, a maneira de viver, vestir etc. Nada mais sugestivo para facilitar o entendimento nesse cenário, não é mesmo? Se a moda é por definição transitória, e a sociedade atual busca sempre o novo, experimentando e se adequando, acho que fica fácil entender o motivo de estarmos vivendo a moda dos palavrões nos livros de hoje. Esse movimento pode significar que estamos um pouco cansados da antiga forma de escrever e agora temos liberdade e criatividade para testar novas formas de comunicação.

É ou não é o encaixe perfeito?

Tenho a impressão que esse movimento representa somente o início de uma nova forma de comunicação e, como todo começo de uma transformação, deve ser marcante o suficiente para ser notado. Acredito ainda que não pararemos por aí, muitos ajustes ocorrerão nesse sentido.

Temo que esses livros que tendem a abusar dos palavrões, não só nos seus títulos, mas também em seu conteúdo, fiquem marcados como toda moda que perde adeptos, dando a sensação de ultrapassados, e serão lembrados como os livros “daquela época onde os autores deixaram a polidez de lado”.

Nesse sentido, tudo me leva a acreditar que a moda editorial e a moda das passarelas estão mais próximas do que se imagina, onde a percepção dos títulos agressivos de hoje se assemelha às estampas coloridas e ombreiras de outrora.

Print Friendly