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junho 2017 / Entrevistas / Simulador de memórias e futuros

Texto publicado na edição #206

Simulador de memórias e futuros

Entrevista com Roger Mello, autor de W, sua primeira narrativa voltada ao público adulto

> Por MARCIO RENATO DOS SANTOS

Roger Mello, autor de W

Roger Mello, autor de W

Roger Mello, 51 anos, acaba de publicar W, a sua primeira narrativa voltada ao público adulto. Ele já ilustrou mais 100 títulos e escreveu 25 obras infantojuvenis, entre os quais a narrativa visual A flor do lado de lá (2001) e Carvoeirinhos (2009). “Escrevo muito em viagem, e passo mais tempo viajando que parado em um lugar. Os livros que escrevo são resultado do meu nomadismo”, conta o brasiliense que morou 30 anos no Rio de Janeiro e hoje vive em Brasília.

W borra as fronteiras entre os gêneros: pode ser definido como romance, novela ou um conto extenso. Para Mello, a obra representa um livro-mapa, “já que o mapa é visivelmente um híbrido entre palavra e imagem, como a poesia”. Elaborado durante nove anos, W se passa em um “não tempo”. Mello explica: “Eu não conseguia definir ou me impor esse ‘cenário’, ele fugia enquanto eu escrevia”.

O livro apresenta um protagonista que desenha e empresta o nome ao título. W se relaciona com Egon, “o irmão desejado”, e o pai de Egon, “um falso pai”. Há nuances e sutilezas no texto já ensaiado para ser uma peça, mas ainda não encenado publicamente.

W, o personagem, está dependurado e preso num ponto do corpo. “Isso o livra de estar completamente solto, mas lhe permite virar seu eixo e o plano da memória. É um estar dependurado em todas as maneiras que se pode dependurar. É próprio da vida do artista estar dependurado? É e não é”, comenta o autor.

Vencedor dez vezes do Prêmio Jabuti, na categoria infantil, Mello conquistou o Prêmio Internacional Hans Christian Andersen 2014, na Categoria Ilustrador. Concedido pelo International Board on Books for Young People (IBBY), o Hans Christian Andersen é considerado o Prêmio Nobel da Literatura Infantil e Juvenil.

Neste bate-papo, realizado por e-mail, Mello repercute alguns de seus pontos de vista, entre os quais a ideia da inutilidade do livro infantil. “Muitas pessoas acham que o livro infantil não deve existir se não for pra empurrar conteúdos goela adentro, no sentido de tornar as crianças mais aptas, ou mais pragmatizadas, ou mais instruídas, ou sabendo mais do que sabiam antes. A ficção então parece não ter valor, já que criança (aquela que cria) é pura ficção na veia, puro fluxo artístico, avizinhado da loucura e do delírio. Vai servir pra quê, dentro da economia de mercado? Prefiro devolver um pouco da loucura às crianças. Se não posso fazer isso, prefiro não fazer livro nenhum”, argumenta.

Sempre escrevi teatro. E o teatro lido sempre influencia o que escrevo e desenho, principalmente o não-teatral (existe o não-teatral?).

Ele revela que, além das inúmeras atividades que desenvolve, também é orquidófilo e, em dos momentos mais inusitados da conversa, afirma que gostaria de ser uma arraia: “A arraia é uma obra de arte que já vem em forma de tela”. Mello se define como um simulador de memórias e futuros e para entender o motivo disso, confira a entrevista — na íntegra — a seguir.

• Em que contexto, cenário você ambientou W?
Se eu disser num não-lugar e citar o Marc Augé, vai ficar um pouco repetido. Está na moda citar o Marc Augé. Mas é sim, é um não-lugar, até porque em W, do nada, aparece um aeroporto. O aeroporto é o não-lugar mais não-lugar que existe. O que faz um lugar desses em meio ao contexto da produção de mapas, o quê?, no século 15? No que viria a ser a rota do Atlântico? No texto de apresentação, o Luiz Ruffato escreve que o cenário de W é “um espaço no tempo”. Os nomes de lugares (as toponímias) os acidentes geográficos estão por todo o lado do livro, fazendo dele próprio, um mapa. Mas podem ser pistas falsas. Uma multirreferência: Mexilhoeira, a cidade de Lagos na Nigéria, Lagos no Algarve, Faro, as Ilhas Satanazes, Bihar. Então minto, não é um não-lugar, mas um lugar feito de muitos outros. É antes, um não tempo. Eu não conseguia definir ou me impor esse “cenário”, ele fugia enquanto eu escrevia. Fui a quase todos os lugares citados no livro (mesmo os imaginados), não encontrei necessariamente o que esperava, eram pistas. Uma projeção do personagem, uma implicância. Ou seja, uma personagem também, esse cenário, como um mapa que muda, à medida que se caminha com ele, à medida que se rabisca nele.

• W surge a partir de referências a cores, nuances e sutilezas. Com quem você dialogou para escrever W?
Fui me perdendo à medida que via que W não se parecia com ninguém conhecido. Tentei ver mil caras de pessoas pra ver qual se parecia com ele; ninguém. Ele é o ninguém mais familiar que já vi. Demorou oito, nove anos até que aparecesse. Até que a intimidade com ele o transformasse num desconhecido. Demora muito texto até se desconhecer alguém. Qorpo Santo e Bispo do Rosário (a formosa fina pluma, por onde sai o verbo estrondo), os mapas na teoria sempre ficcional do Max Justo Guedes, e muito Ruffato na veia, autores com quem dialogo o temo todo. E Gonçalo Tavares. Ricardo Azevedo me apresentou Peter Bichsel. Tem muito de Bichsel na minha cabeça, sempre. Depois de ler o Monta-cargas, vai haver sempre um pouco de Harold Pinter em mim. Sempre escrevi teatro. E o teatro lido sempre influencia o que escrevo e desenho, principalmente o não-teatral (existe o não-teatral?).

• Quem é W, personagem que empresta o nome ao livro?
Só sei que não sou eu, mas sou. Claro que quando alguém responde algo assim é porque tem muito do autor no personagem. Até porque ele é um desenhista e eu sou um desenhista. É um leitor da própria ficção e está à mercê dela. Ele é mais atormentado que eu, o W. Mas não sei se conheço alguém mais atormentado que eu, então… Por favor, leiam tudo isso com uma ironia de canto de boca. W é acalmado por sua mediocridade. Poucas pessoas confessariam a própria mediocridade e sentiriam nela uma zona de conforto. A mediocridade de W é, na verdade, o seu movimento, sua potência. Eu não diria isso, “a minha mediocridade me acalma”, mas ele diz e repete. Isso não quer dizer que ele não tenha pretensões.
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Na verdade, acho que não é um privilégio do livro infantil, ou da arte: nada no mundo tem função. E o que menos tem função é o que mais se pensa que tem. Pra que serve, por exemplo, um “gestor de pessoas” um “especulador da bolsa”?

• Quem são Egon e o pai de Egon?
São pura invenção e projeção de W. É ele quem dá voz aos dois, em sua memória de copista, uma memória rigorosa. A memória presente de um falso pai e a memória de um irmão desejado. Mas há contradição na voz difusa de W. Em sua esquizofrenia. Isso não quer dizer que Egon e o pai de Egon não existam. Eles podem, inclusive, ser mais materiais que W. W é a própria imaterialidade. W não seria um ator representando três personagens, mas um ator que representa uma personagem representando duas outras. Não tem com dissecar o sapo sem matar o sapo. Mas se pode tentar. Falando nisso, depois de escrever o romance por cinco anos, procurei o ator Mauricio Grecco e propus fazermos o W no teatro. Eu dirigindo, ele fazendo o monólogo. Maurício é ator, designer, acrobata, desenhista. Ficamos durante quatro meses em sala de ensaio, debatendo, usando as técnicas do view point e do working progress, encenando, mergulhando no personagem. O romance virava teatro, por mais que a peça de teatro não tenha estreado. Quatro anos depois a Global publicou o W romance, que é feito de todo esse hibridismo de discurso.

• O livro traz uma série de frases de impacto, entre as quais: “Vermelho porque vermelho vem de vermes, coisas esmagadas criando um suco vermelho”. O que a frase quer dizer?
As coisas literais são sempre as que têm menos sentido. Vermelho, vermillion, a palavra vem mesmo de vermes esmagados. O uso é milenar, e já no Mahabarata se fala em palácios revestidos de laca. É mencionada do Sri Lanka ao Japão e no México. A aparência de verme é ficcional também, não é verme, mas um inseto que se alimenta de seiva. A substância é venenosa ao tato até que seque, precisa ser manipulada por um artesão especializado. O nome vermelho, de vermes, é melhor que em outras línguas, rouge, red, rosso, rojo, juhong (ver caracteres coreanos), shuiro (朱色). Tanto que todos os outros nomes do vermelho, quando querem dizer aquele vermelho, aquele, dizem algo parecido com vermillion, ou então o rótulo do corante diz, ou o pigmento, o tubo de tinta dizem. Virá escrito “vermillion”. Vermelho. Esmagar esses vermes que produzem esse vermelho venenoso, essa laca, é muito aproximado da escrita. Espremendo as vísceras do autor e do personagem para conseguir algum suco, um consistência — um nojo isso tudo, eu sei, — enfim, a única maneira.

• Há outras frases impactantes em W, por exemplo: “Sabe qual é a pior coisa que pode acontecer a alguém que se acha perseguido?/ Perceber que de fato ninguém o persegue”. O que você diz sobre esta frase?
Ser perseguido é ser notado, amado. Berkeley diria: ser é ser percebido. Eu acrescentaria: ser é ser perseguido. Não falo, evidentemente, de perseguição ideológica ou política. Ser perseguidor você mesmo, principalmente. Por muitos que de fato o perseguem por que pensam que estão cheios de motivos. Por uma ideia de identidade que é sempre mutante, por mais que as pessoas se apeguem a um conceito de “eu” muito presente, muito fixa. Este “eu” se expande quando vemos um personagem cindido, em três no mínimo? W pode inclusive ser a puta cartomante com quem tem conversas mais relaxadas, menos perseguidas.

• W vive numa situação limite? Pergunto isso por causa, entre outra evidências, de uma frase da página 50: “Às vezes esqueço que estou dependurado”. W está/vive dependurado? O que você pode dizer a respeito?
Não estar de pé era muito importante nesse caso, estar invertido, como na carta do Enforcado do Tarot. Lembro de umas ilustrações do Lorenzo Mattotti, pessoas na água, soltas, podendo se contorcer para qualquer lado. Se fosse no teatro, haveria fios por onde se pendurariam, no caso dos bonecos do teatro bunraku, pessoas manipulariam o personagem fazendo com que flutuasse, mesmo num caminhar cotidiano. W está ao mesmo tempo, dependurado e preso num ponto do corpo. Isso o livra de estar completamente solto, mas lhe permite virar seu eixo e o plano da memória. É um estar dependurado em todas as maneiras que se pode dependurar. É próprio da vida do artista estar dependurado? É e não é. O atelier em que ele trabalha junto ao irmão adotivo e ao pai improvável rende dinheiro. Ele junta o dinheiro que restou da execução do pai, execução paga por eles. E insiste em mostrar o local ao irmão. Vivem um arremedo de família. Mas sente algo familiar no ato prosaico de apontar: o dinheiro está escondido aqui, não quero saber disso sozinho. W não parece querer proximidade com a arte. Quanto mais científico o mapa, mais artístico, mais impreciso.

Não somos funcionais, não somos máquinas perfeitas como queria o Descartes, ele já nasceu ultrapassado. Somos o desajuste e a entropia, ou não sobreviveríamos.

• De acordo com a narrativa, W é um copista. “O serviço é entender a respiração da criatura que fez o original”. Poderia explicar a frase?
W diferencia copiador de copista. Acho que essa diferença nem existe, é coisa interna dele. Eu não fui verificar, não poderia fazer isso com o personagem, nunca. Mentira, a diferença é clara, copiador copia a dor dos outros, o copista é quem entende a respiração, o gestual, um observador coreano, um especialista. Quem nunca falsificou uma assinatura? Se você fizer o traço igualzinho fica perfeito demais, tremido demais, pesado demais, marcando o papel. O copiador aparece mais que o copiado. Tem que se morrer e nascer de novo, respirando junto, subvertendo, inventando pistas falsas. É uma arte, a cópia. Principalmente no caso de um copista de mapas. É um caso de vida ou morte. O copista não é um copiador como os membros da escola de Dieppe ou Alberto Cantino, enxertando os mapas portugueses pra fazer seu mapa-múndi, ou como o Jorge Vercilo, arremedando a batida do Djavan.

• Quem são W e Egon? Oeste e Leste? Em relação a qual mapa?
Pontos que precisam se afastar para que o vazio se encha de pontes. Como alguém se afasta do espelho para ver o todo, mas perde o foco. Sou míope, talvez só os míopes entendam isso. Os mapas são todos relativos, tem razão. Não estamos parados. Veja, Gerardus Mercator era um péssimo fazedor de mapas, copiou e adaptou um planisfério (a pior maneira de se representar um mapa, o mesmo que tentar fazer uma esfera virar um cilindro). Esse é o mapa que vemos em todos os lugares até hoje. Uma das exceções é o mapa de Torres García. Mercator não é um delirante, colocando a Europa no hemisfério norte, ele forjou uma maximização dos países descritos no alto. Puro eurocentrismo gráfico. O planisfério é uma mentira de péssima qualidade, e não um delírio de um viajante.

• Qual a diferença entre escrever um livro como W e outras obras que publicou anteriormente?
Cada livro tem um desafio diferente. W é um livro para adultos. Mas adultos gostam de livros infantis. O leitor escolhe o livro e o subverte. O escritor? Bom, no meu caso a diferença entre cada livro está na maneira como ele se modifica e me intriga. Escrevo muito em viagem, e passo mais tempo viajando que parado em um lugar. Os livros que escrevo são resultado do meu nomadismo.

• Em uma entrevista em 2015, para um jornal português, você disse: “A função da literatura é difusa, é a liberdade de expressão, a formação de um leitor crítico”. Por isso gosta de dizer que “o livro infantil não serve para nada, não tem função, a função é tirar a função, é despragmatizar”?
Escrevi essa frase, muitos reclamaram ou concordaram, acabei por perceber que entrei pra uma já extensa fila de autores que disseram a mesma frase, e defendem a não-função da arte. Na verdade, acho que não é um privilégio do livro infantil, ou da arte: nada no mundo tem função. E o que menos tem função é o que mais se pensa que tem. Pra que serve, por exemplo, um “gestor de pessoas” um “especulador da bolsa”? Ninguém questiona, são um delírio coletivo, essas novas funções, obviamente são coisas que não servem pra nada. O livro infantil é cobrado mais que as outras, digamos assim, categorias. Por quê? Porque muitas pessoas acham que o livro infantil não deve existir se não for pra empurrar conteúdos goela adentro, no sentido de tornar as crianças mais aptas, ou mais pragmatizadas, ou mais instruídas, ou sabendo mais do que sabiam antes. A ficção então parece não ter valor, já que criança (aquela que cria) é pura ficção na veia, puro fluxo artístico, avizinhado da loucura e do delírio. Vai servir pra quê, dentro da economia de mercado? Prefiro devolver um pouco da loucura às crianças. Se não posso fazer isso, prefiro não fazer livro nenhum. Claro que posso pensar que não-função é uma função também, mas dizer isso é ficar retórico. Então, que alívio!, que ao menos a arte não tenha função. Sabe o que é pior? Depois de se pragmatizar tanto as pessoas, e transformá-las em adultos mais “empreendedores”, outra coisa que não serve pra nada, criam-se “dinâmicas” para estimular a criatividade, leia-se, loucura dessas criaturas pragmatizadas. Não somos funcionais, não somos máquinas perfeitas como queria o Descartes, ele já nasceu ultrapassado. Somos o desajuste e a entropia, ou não sobreviveríamos. Quem constrói a ponte sabe que a ponte quebra se não balançar, não quebra? A busca da função e o pragmatismo nos anestesiam a cada respiração. Viramos zumbis. Acordamos cedo e batemos ponto por causa de uma coisa que não existe: a função. Não precisamos adiantar esse endurecimento cada vez mais cedo, impondo conteúdos na infância. Precisamos deixar as crianças e os livros em paz.

• Para o mesmo jornal, você comentou que quando escreve ou ilustra não pensa num destinatário específico: “Eu faço para mim, egoisticamente, e depois divido com a criança. Não penso em faixa etária. Quando você pensa em faixa etária, você faz para ninguém. Quando se fala em criança, fala-se de maneira genérica, mas eu penso em indivíduo, eu respeito o indivíduo. Uma criança gosta, outra não gosta. Uma está num momento, outra não está”. Poderia comentar o seu ponto de vista?
Tenho sorte de trabalhar com excelentes editores, mas tem todo tipo de gente, não vou mentir. Não me importo em mexer, remexer, retirar, repensar, a gente dar copy paste, deleta tudo, faz de novo, recomeça, desiste, acima de tudo desistir é um ato de coragem. Mas fazer as coisas pra determinada “faixa etária” ou pensando num “público-alvo”? Não faço ideia do que esses termos signifiquem. Pra quê? Pra ficar mais acessível? Pra atingir mais crianças? Nem pensar… Antes de mais nada, mais acessível, só com uma escada magirus. Segundo, não quero atingir um monte de gente, ou pensar em pessoas como alvo, atirando pra qualquer lado, não sei fazer isso, eu quero fazer livros para ninguém, a literatura é um grito da exceção. Dos fora da curva. Fico feliz de ter parceria com editores que pensam da mesma maneira. Crianças não são uma massa multicor que ao longe parece homogênea. São individualidades, pura dor, pura pulsação. Se uma criança me diz: que livro doido, eu já fico realizado.

• Ainda para o mesmo veículo, você afirmou: “Palavras e imagens são a mesma coisa. E posso provar isso”. Pode?
Sim, se um dia comprar um caminhão, desenharei na placa na carroceria: “Palavras e imagens são a mesma coisa”. A palavra texto, a palavra trama vêm de tecido e textura, portanto: imagem. A expressão dos caçadores-coletores nas pinturas rupestres era já processo, abstração e narrativa visual sobre o anteparo-rocha, substrato, como papel, pergaminho, papiro, placa de argila ou silício, portanto: ilustração. A ilustração é anterior à arquitetura, às artes plásticas, à letra, ao design. Mas é tudo isso ao mesmo tempo. E é, certamente, a mais vilipendiada das artes. O que lhe dá uma liberdade. Estar na estante alta mata a liberdade da arte. A letra, como sabemos, surge de uma abstração progressiva de uma representação visual, como terra, chuva, lagoa… Dependendo da escrita e de associações entre signos, continua carregando uma proximidade muito grande com essa primeira representação, como nos caracteres chineses, ou na forma da boca e da língua do traço estilizado do alfabeto Hangul, criado pelo rei coreano Sejong no século 14. Não importa, mesmo que a letra não guarde mais semelhanças com uma imagem inicial, ela continua sendo uma imagem narrativa, como letra, como frase, como mancha gráfica, como sentido intrínseco e abstração visual de texto. Mas não, queremos compartimentar: insistimos em dividir para compreender. Charge, quadrinhos, literatura, arquitetura, design, teatro, dança, como se fossem coisas separáveis, pior é que tem muito artista que reforça isso. Uma pessoa que vê limites tão claros entre as coisas é sempre uma pessoa limitada. Vivo numa não-fronteira, tenho isso em comum com o W, não consigo compartimentar, só aceito a fronteira desenhada por uma criança, ou um louco, não acredito em fronteiras de países, subjetividades desse nível. Existem deslocamentos, mas não existem migrantes porque não existem fronteiras, nem países. Cultura existe, linguagem, artes forjadas artificiais potentes, assim como a matéria inata do pensamento e loucura existe. O resto é pura e constante interação. Fronteira é não abstração, não existe, nem existe função, nem sentido nas coisas.

• Em entrevista ao Correio Braziliense em 2009, você disse que, em relação a seus livros, “o primeiro leitor sou eu mesmo, meio louco né?”. “Gosto de não saber aonde a história vai me levar. Por mais engraçado que pareça, a maneira de se respeitar a criatividade do leitor, é esquecer que ele vai ler. É fazer como se fosse só pra gente, ou pra uma criança que a gente conhece muito.”. Poderia ampliar este assunto?
Idade do leitor não é um gênero. Literatura infantil não é um gênero. E o gênero puro não existe. Ao mesmo tempo, vejo que qualquer assunto, qualquer livro interessa a todas as idades, porque o que interessa é o indivíduo. Estive em um colégio em que o menino de nove anos gostava de Dostoiévski, então falamos sobre Dostoiévski. O importante era a troca entre indivíduos, o “eu, adulto, autor de texto e imagem”, e o “ele, criança, aluno”, esses eram elementos acessórios, desimportantes. Éramos dois indivíduos falando sobre arte.
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Não quero atingir um monte de gente, ou pensar em pessoas como alvo, atirando pra qualquer lado, não sei fazer isso, eu quero fazer livros para ninguém, a literatura é um grito da exceção. Dos fora da curva.

• Em outra entrevista, você ponderou: o que vem primeiro: a escrita ou os desenhos? “Em cada livro, é de um jeito. Nesse caso, a história chegou antes. Mas apesar de as ilustrações não estarem logo prontas, eu comecei a desenhar o marimbondo. Precisei entender o desenho das asas desse inseto, desenhar o barulho dessas asas. O marimbondo é o narrador da história, aliás, constituindo seu ninho redondo com barro molhado como são construídos os fornos que os meninos barreiam. Só que de cabeça pra baixo.” O que diz a respeito?

Sou sinestesia pura. Adoro insetos. Tratamos insetos como visitantes de outro mundo, tanto que colocamos antenas e roupas metálicas nas representações de seres extraterrestres. Eles estão por aqui antes dos dinossauros. Mas não vou mudar de assunto… Será que consigo? Carvoeirinhos era o segundo livro que eu escrevia e desenhava, tocando na ferida do trabalho infantil. Mas é a história desse menino que consegue se esconder num monte de sacos de carvão pra desaparecer, enquanto o amigo albino não consegue, um menino que pilota o carrinho de mão como se fosse uma Ferrari. O narrador surgiu desse descompasso, de não poder transformar uma história numa denúncia, num conteúdo sobre a cadeia de produção da quarta commodity do Brasil, o aço. Era pra ser pura ficção, nem sei se consegui. Mas precisamos falar dessas coisas, dejetos no mangue, as vossorocas, a arquitetura dos fornos de carvão em Goiás, Mato Grosso, Minas, Pará. Essas também são paisagens made in Brasil, elas precisam habitar as mesmas livrarias que os contos de fadas. Eu sei, é um correr riscos demais: tentar não empurrar conteúdo, não fazer denúncia pela denúncia, criando uma estética às avessas. Mas como não mostrar, como não falar do assunto? Antes, o marimbondo, um personagem não-humano, precisa se autoconstruir como narrador. Gosto de personagens não-humanos, estão em desvantagem em relação ao leitor e precisam construir sua humanidade, como a Loucura de Erasmo de Rotterdam e a Emília de Lobato. Não são humanos, têm inveja do humano, o que os humaniza. O marimbondo não quer sair logo contando essa história, primeiro tem que entender uma paisagem invertida. Precisa gestar, ao mesmo tempo e através do verbo, um menino criatura-sem-asas, e seu próprio filho, um ovo, uma larva, dentro de uma minúscula casa de barro.

• Que artista você é? Desenhista ou escritor?
Sou os dois, e não sou nem um, nem o outro. Ser escritor ou desenhista não é o que importa, o que importa é estar povoado de dúvidas, é desconhecer as fronteiras entre as artes, narrativas ou não. Uma dúvida: existe arte não-narrativa?

• O que dizem a seu respeito que é equívoco?
Tudo? Vamos precisar de muito papel. Brincadeira. Que uso cores vivas e alegres. Minhas cores, quando vêm, doem muito. Não são nada aleatórias, ao contrário de outros elementos do que crio. Desenhar é pensar com o traço. Então há muito de desenho no escrito. No desenho industrial, design ou programação visual, passei o tempo todo ouvindo que aquilo não era faculdade de desenho, que não resolvêssemos as coisas com meras ilustrações. No teatro, um gesto caricatural, repetitivo, é chamado ilustrativo. Vejo as pessoas na área de letras dizerem que ilustração é adereço do texto. “Uma mera ilustração”, como se a imagem não fosse também texto. Como se a palavra texto não viesse de tessitura e portanto: imagem. As pessoas repetem qualquer bobagem nessa área, desconhecendo completamente a trajetória da palavra e imagem narrativa do livro. A ilustração existe antes de existir o papel, inventado na China, onde também se inventou a impressão com tipos móveis. Antes dos pergaminhos e papiros e códices mexicanos e das tábuas de argila da Mesopotâmia, onde Enheduana, uma mulher, assinou o primeiro poema escrito do mundo, há quatro mil anos. Enheduana, a primeira pessoa a assinar um texto, muito antes da epopeia de Gilgamesh.

• O que ninguém disse a seu respeito que precisa ser enunciado?
Que sou um orquidófilo.

• O que você não é?
Não sou bom de saber a diferença entre os tipos de vinho.

• O que você gostaria de ser?
Poliglota.

• Que animal você gostaria de ser?
Toda vez que penso assim, essa é uma pergunta muito boa, a pergunta acaba ficando sem resposta. Fico dando voltas num pensamento. Mas não, eu seria uma arraia. A arraia é uma obra de arte que já vem em forma de tela. Ou seria um inseto, ou outro artrópodo como um camarão louva-a-deus multicolorido. Isso me faz pensar em Ovídio, o semideus da metamorfose entre palavra e imagem. Sou louco por animais, mas não queria estar na pele ou carapaça de um bicho, nesse contexto, onde o homem é um político de segunda que usurpou o topo da cadeia.

• Afinal, o que e quem é Roger Mello?
Um copista? Gosto tanto de taxonomias que Mariana Massarani disse que sou um Humboldt do mundo moderno. Queria ser sim, mas sou mais um simulador de memórias e futuros. Um copista? Um copiador, não, nunca, tento não ser pelo menos.

>>> Leia resenha de W

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