Dom Casmurro

outubro 2017 / Dom Casmurro / Rosalba Campra

Texto publicado na edição #210

Rosalba Campra

Seis poemas de Rosalba Campra

> Por ADRIANA LISBOA

Rosalba Campra, autora de Las puertas de Casiopea.

Rosalba Campra, autora de Las puertas de Casiopea.

Tradução: Adriana Lisboa

Buenos Aires I

Nesta cidade passamos fome.
Comemo-nos uns aos outros.
Mas se algo nos venceu foi este horizonte que não cessa,
a teimosia deste rio que volta à nascente.

Quem sabe quantas vezes teremos que fundá-la.

Buenos Aires I

En esta ciudad pasamos hambre.
Entre nosotros nos comimos.
Pero si algo nos venció fue este horizonte que no cesa,
la tozudez de este río que remonta su cauce.

Quién sabe cuántas veces tendremos que fundarla.

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Buenos Aires II

Cruzamos uma água escura e silenciosa, grande.
E depois este mar doce, e outro idioma.
Agora pertencemos a esta cidade,
a sua música astuciosa e a uma esquina.

Por que então nossa nostalgia é sem sossego.

Buenos Aires II

Cruzamos un agua oscura y silenciosa, grande.
Y después este mar dulce, y otro idioma.
Ahora a esta ciudad pertenecemos,
a su música artera y a una esquina.

Por qué entonces nuestra nostalgia es sin sosiego.

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Córdoba I

O fundador pensou: este lugar é bom.
E fundou a cidade. Depois viu que tinha errado
e disse: mais para lá. Pois bem: deslocaram-na.
À hora da sesta, quando não podem vê-la,

a cidade memoriosa se busca. Mais para lá.

Córdoba I

El fundador pensó: este lugar es bueno.
Y fundó la ciudad. Después vio que había errado
y dijo: más allá. Pues bien: la desplazaran.
A la hora de la siesta, cuando no pueden verla,

la ciudad memoriosa se busca. Más allá.

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Córdoba II

Este talho divide a cidade
sonhando que é rio.
Um único fantasma
passeia por suas pontes.

Fantasma vira-lata, sem estirpe.

Córdoba II

Este tajo divide la ciudad
soñano con que es río.
Un único fantasma
aprovecha sus puentes.

Fantasma callejero, sin ningún abolengo.

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Roma Londres Paris etc.

Estás na cidade insistentemente desejada.
Por fim sua ponte seu museu sua catedral sua ruína.
Daqui vêm a metade do teu sangue
e as palavras que usas para medir o mundo.

E no entanto não. Será que não te fere o bastante.

Roma Londres París etc.

Estás en la ciudad tercamente deseada.
Por fin su puente su museo su catedral su ruina.
De aquí es de donde vienen la mitad de tu sangre
y las palabras que usas para medir el mundo.

Y sin embargo no. Será que no te hiere lo bastante.

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Regresso a Itapoã

Naquele tempo havia discos de vinil.
Na voz de Caymmi eu passeava com um namorado
pelas areias brancas de Itapoã.

Nos CDs de hoje a voz de Caymmi se ouve opaca.
Subiram muros ao redor, já não sussurra o vento
entre as palmeiras de Itapoã.

Como tudo mudou, digo, enquanto passeio de mãos dadas
com outro namorado que hoje me traz
a conhecer as praias do Brasil.

Você me disse que nunca tinha estado em Itapoã, ele protesta.
Como lhe explicar que a nostalgia às vezes prescinde da ancoragem,
que este lugar ficava numa canção.

Regreso a Itapoan

En aquel tiempo había discos de vinil.
En la voz de Caymmi con un enamorado me paseaba
por las arenas blancas de Itapoan.

En los CD de hoy la voz de Caymmi se oye opaca.
Alrededor han crecido las tapias, ya no susurra el viento
entre las palmeras de Itapoan.

Cuánto cambió todo, digo mientras paseo de la mano
con otro enamorado que hoy me trae
a conocer las playas de Brasil.

Me habías dicho que nunca estuviste en Itapoan, reprocha.
Cómo explicarle que la nostalgia a veces prescinde del anclaje,
que este lugar quedaba en una canción.

Rosalba Campra
Nasceu na Argentina e vive em Roma (Itália). Ensinou literatura hispano-americana em universidades de diversas partes do mundo e publicou ensaios (Itinerarios en la crítica hispanoamericana, 2013), poesia (Ciudades para errantes, 2007) e ficção — o romance Las puertas de Casiopea (2012), a coletânea Cuentos del cuchillo de jade (2010) e as micronarrativas de Ficciones desmedidas (2015), entre outros títulos.

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