Paiol Literário

outubro 2012 / Paiol Literário / Rodrigo Lacerda

Texto publicado na edição #150

Rodrigo Lacerda

“A literatura é uma válvula de escape para essa sensação terrível de que não só a vida é muito estreita como a cada opção que você toma, ela se estreita ainda mais.”

> Por PAIOL LITERÁRIO

Luís Henrique Pellanda e Rodrigo Lacerda no Paiol Literário. Fotos: Matheus Dias

 

No dia 19 de setembro, o projeto Paiol Literário — promovido pelo Rascunho, em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba, o Sesi Paraná e a Fiep — recebeu o escritor RODRIGO LACERDA. Nascido em 1969, no Rio de Janeiro (RJ), Lacerda estreou na literatura em 1995, com a novela O mistério do leão rampante (prêmios Jabuti e Certas Palavras). Publicou ainda A dinâmica das larvas, a coletânea de textos Tripé, os romances Vista do Rio e Outra vida (prêmio da Academia Brasileira de Letras) e o romance juvenil O fazedor de velhos (prêmios Biblioteca Nacional e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), além de atuar como editor e tradutor. Na conversa com o jornalista e escritor Luís Henrique Pellanda no Teatro Paiol, em Curitiba, Lacerda fala sobre seus primeiros contatos com o mercado editorial, as variações temáticas, estilísticas e de gênero em sua obra, e comenta sobre seu novo projeto, no qual ficcionaliza a vida de seu avô, o político e escritor Carlos Lacerda. Leia a seguir os melhores momentos do bate-papo.

• Outros ambientes
Para mim, a principal função, a principal utilidade da literatura, é neutralizar um pouco, aplacar a sensação de que a vida é muito… estreita. Por exemplo: sou um caricaturista frustrado, gosto muito de desenhar rostos; sou um biólogo marinho frustrado também, é uma profissão que admiro muito, gostaria muito de passar a minha vida lá no projeto Tamar, na beira da praia, vendo tartaruguinhas nascer, e não trancado num escritório na frente a uma tela de computador. Não só isso, escolhi São Paulo para morar, mas adoraria morar no Rio, em Curitiba, Londres, Paris, Berlim — coisas que não vou conseguir fazer na vida: não vou conseguir morar em todos esses lugares, ter todas essas profissões, casar com todas as mulheres que acho interessantes, ter todos os amigos que gostaria. Então, a literatura é uma válvula de escape para essa sensação terrível de que não só a vida é muito estreita como a cada opção que você toma, ela se estreita ainda mais. A minha filha tem 17 anos, está escolhendo o que vai fazer no vestibular no fim do ano. É uma opção agudamente, digamos assim, “afuniladora”. Você “afunila” a sua vida. E não tem outro jeito. Quer dizer, a liberdade não está em não fazer essas opções, em não ter que optar; a liberdade está em ser capaz de seguir as suas opções. Porque é ilusória a idéia de que se você não optar, terá tudo. Porque não terá. Na verdade, mais provavelmente não terá nada. Então, você tem de optar, a vida te leva a isso. Mas essas opções restringem. A literatura para mim é essa válvula de escape. Quando leio Os três mosqueteiros, sinto um pouco o que seria a vida sendo um dos mosqueteiros do rei; quando leio Faulkner, o que seria a vida no sul dos Estados Unidos nos anos 10 do século passado. Enfim, são exemplos de autores que são capazes de me transportar para uma vida que não poderei viver. Acho que nem todo mundo tem essa sensação de que a vida seja tão restrita, mas ela existe para todos, tenhamos nós a sensação nítida ou não. A literatura é importante porque ela abre outras portas. E ler é bom exatamente para isso, para poder entrar em outros ambientes que não são os seus.

• Determinismo familiar
Eu sempre digo que isso [Lacerda vem de uma família de editores, escritores e educadores] pode ser uma coisa muito estimulante — como foi para mim —, mas pode ser extremamente castradora — como foi para mim também. Porque quando pequeno, a gente já idealiza os nossos pais, os nossos avós. Aí, quando cresce, descobre que eles não são aquela maravilha toda — mas quando você é pequeno, eles parecem. E se ainda por cima eles têm essa “aura”, assim, de escritores — porque escritor, por incrível que pareça, até hoje tem uma “aura”, como se fosse uma profissão sagrada, uma torre de marfim. Então, era muito estimulante porque eu queria ser igual a eles — o pai da minha mãe não, porque eu não gostava daquele avô, ele era muito pedante; o pai do meu pai, o Carlos Lacerda, conheci muito pouco, mas conhecia de fama, e eu queria ser assim também, que as pessoas me conhecessem. Então, por um lado era muito estimulante, mas era também muito castrador, porque você se sente muito impotente. E essa foi uma sensação que durou até muito mais tarde. Quando comecei a trabalhar na editora [Nova Fronteira] com o meu pai, aos 17 anos, foi a primeira em que trabalhei. E aí eu ia conhecer a Lygia Fagundes Telles, o Josué Montello, o João Ubaldo Ribeiro, e ia com a mão trêmula. O João Ubaldo é um escritor que admiro tanto que até hoje fico completamente imbecil do lado dele. Ele conta uma piada totalmente sem graça e eu me escangalho de rir. Ao mesmo tempo, as minhas piadas não têm graça nenhuma do lado dele, porque eu fico nervoso. Isso foi uma cicatriz que ficou daquela época, de idealizar demais essas pessoas. Então, ter nascido nessa família tão próxima do meio cultural ajudou e atrapalhou ao mesmo tempo. E a prova disso é que tenho muitos primos que não têm nada a ver com o mundo literário, nada a ver com o mundo cultural — têm até um certo desprezo. Foram ser economistas, ganhar dinheiro, e olham para mim com certo desprezo — com razão, de certa forma. O fato é que eles não tiveram nada a ver com isso, em nenhum momento esse mundo os estimulou a seguir esse caminho. A vida é muito mais acidental do que o determinismo familiar pode levar a crer.

• Familiaridade forjada
[Desde] Muito cedo eu gostava de ler. Era — como até hoje me considero — um preguiçoso. Gostava da capa do livro, do cheiro do livro velho, do charme que cada livro tinha, mas lia muita coisa aos pedaços. Tenho admiração por aquele personagem de A náusea, do Sartre, que resolve se educar. Ele vai para a biblioteca e lê todos os autores da letra A, todos os autores da letra B… Eu queria ser assim, ter método e me formar com um plano: agora vou estudar a parte de teoria literária, ou história do renascimento, e ler 50 autores sobre o mesmo assunto. Eu nunca consegui fazer isso. […] Eu gostava de ler, mas sempre me considerei um preguiçoso, porque não lia até o fim das coisas — era um leitor caótico. De tanto insistir, você começa a ganhar alguma familiaridade com certos autores. Na infância, a grande responsável por esse primeiro interesse foi minha mãe, que lia poesias para os filhos. Não que a gente gostasse, na época — chegava uma hora em que não agüentava mais. Tenho péssima memória para recitar poemas, mas não esqueço os que minha mãe lia para mim. São os únicos. Depois, nunca mais guardei nenhum. Então, o I-Juca Pirama, do Gonçalves Dias, alguns poemas do Drummond… “Stop/ a vida parou/ ou foi o automóvel?” Eu ainda falava assim: “Pô, adulto lê isso?”. Quadrilha: “João amava Teresa que amava Raimundo (…)”. Eu falava assim: “Nossa, mas isso é coisa de adulto?”. Então, esses nunca esqueci, são poemas que ficaram. Mas depois, de tanto flertar com esse mundo e, digamos, forjar uma familiaridade com ele, a familiaridade acabou acontecendo realmente.

• Escritor humanizado
Acho que no fundo eu tinha a ilusão de que sucederia meu pai [Sebastião Lacerda, fundador da editora Nova Aguilar]. Porque achava que a vida dele era boa. Ele sempre trazia livros para casa, conhecia pessoas interessantes, tinha amigos divertidos… Mas na verdade fui fazer faculdade de História por falta de melhor opção. Fui fazer uma que pelo menos me daria, digamos, certa cultura geral, quase como na geração do meu pai quem não sabia o que queria fazer, fazia Direito. Direito, eu sabia que não ia dar certo. Então, fui fazer História, que pelo menos eu sairia com uma bagagem cultural melhorzinha. E aí um professor do meu pai e da minha mãe, velho professor, de quando eles eram do ginásio, foi à editora, e ele tinha um projeto de escrever um dicionário de nomes, termos e instituições históricas. E o meu pai falou: “Claro, eu adoraria publicar o livro. E você não vai precisar de um assistente de pesquisa, alguém para ir à Biblioteca Nacional para você e ‘amassar o barro’ lá no xerox da vida?”. E aí meu pai arrumou esse primeiro emprego para mim. Nessa época eu tinha 16 anos. Então, foi assim que comecei. […] E quando acabou o dicionário, naturalmente entrei na editora, porque, enfim, participei das revisões do dicionário, comecei a freqüentar a “cozinha editorial” — não apenas a sala do meu pai, mas o lugar onde o livro realmente é feito — e conhecer aquelas pessoas. Tive professores maravilhosos de editoração. Me lembro de uma, Marília Pessoa, que vi com esses olhos que a terra há de comer: ela ao lado do João Cabral de Melo Neto, falando assim: “Mas João, esse verso aqui, a métrica não está certa, isso aqui não está legal”. E ele falava: “É mesmo, Marília. Que sugestão você dá?”. “Ah, bota isso aqui.” Ela era nesse nível, de conversar de igual para igual com um autor como ele. Então, essa época foi muito importante porque, ao ver uma coisa dessas, ou ao ver, por exemplo, autores consagrados que não sabiam botar vírgula — literalmente não sabiam botar vírgula —, isso humanizou a figura do escritor. Foi ótimo. Foi aí que achei que eu tinha alguma chance, que cometi os primeiros poemas, escrevi o primeiro capítulo de um romance que nunca levei adiante. Enfim, comecei a esboçar alguns gestos nessa direção.

• Desgraçados
Depois dessa fase “poesia” na infância — claro, afora Monteiro Lobato —, tive a fase livros de aventura: Os três mosqueteiros, O conde de Monte Cristo, A ilha do tesouro, Capitão Blood, O gavião do mar. Essas coisas, eu lia tudo, e um pouquinho de Sherlock Holmes. O primeiro autor, digamos assim, de literatura adulta — se é que essas categorias têm alguma importância — foi o Eça de Queirós. O primeiro livro que li, acho que foi A cidade e as serras. Me apaixonei e fui adiante. Quando estava nessa fase, entrando na editora, o autor que me marcou foi Shakespeare. Porque meu pai me deu a obra completa do Shakespeare em inglês. Naquela época, estava aprendendo a falar o inglês do século 20, quer dizer, o inglês do século 17 era absolutamente impenetrável. E foi um presente que me envaideceu, porque ele imaginar que eu seria capaz de ler aquilo — isso me deixou orgulhoso de mim mesmo. Mas o orgulho durou pouco, porque ao tentar ler aquilo eu vi que era totalmente incapaz. […] Costumo dizer que se tivesse que ir para uma ilha deserta, levaria três escritores: o Eça, que me ensinou a rir das minhas desgraças; o Shakespeare, que me ensinou a arregaçar as mangas para sair da sensação de desgraçado; mais tarde na vida, já por volta dos 30 anos, o Faulkner, que me ensinou que não há saída, todo mundo é desgraçado — pelo menos não era só eu.

Rodrigo Lacerda. Foto: Matheus Dias

• A química de Ubaldo
[João Ubaldo Ribeiro] Foi fundamental. Viva o povo brasileiro eu li quando tinha 15 anos. Estava fazendo intercâmbio, morando nos Estados Unidos, no subúrbio de Detroit. É como fazer tratamento de canal: é melhor ter feito do que estar fazendo. Foi um horror. Sentia uma solidão extrema, não entrei naquele mundo, não consegui, enfim, me misturar ali — tanto que era para ficar um ano e fiquei seis meses. Ler Viva o povo brasileiro nessas circunstâncias — só pelo título você já está inclinado a gostar, porque fica com saudade das piores coisas do seu país quando está longe e se sentindo solitário. […] Então, foi uma emoção. Primeiro porque o João Ubaldo conseguiu uma fusão que para mim seja talvez até hoje crucial — embora nem todos os meus livros sigam essa linha —, que é a de uma grande erudição — você lê aquele livro e nitidamente vê que ele é um homem extremamente culto: sabe história, história da língua, sociologia, sabe um monte de coisa, sabe história da cultura popular. E você pega toda essa erudição e joga um tempero de humor — que é um pouco a receita do Eça também, de certa forma, todo o preciosismo verbal do Eça nas descrições, na capacidade descritiva infinita que aquele homem tinha, de saber a palavra exata para cada pedaço de cada móvel, de cada vestido. Só que, ao invés de virar uma coisa pedante, chata e tediosa, com o humor, com a leveza, com a inteligência que a pessoa consegue dar àquilo, você junta o melhor dos dois mundos: o melhor do entretenimento com o melhor de uma cultura mais sofisticada. Então, pelo contato com a cultura brasileira e por essa química deliciosa que o João Ubaldo fez no Viva o povo brasileiro, o livro me marcou muito.

• Pontapé inicial
Meu primeiro livro, O mistério do leão Rampante, é uma colagem do João Ubaldo. Na hora, enquanto estava escrevendo, não tinha consciência disso. Os meus modelos ali, por incrível que pareça, eram a minha ópera preferida, Don Giovanni, do Mozart — que também mescla drama e humor, tem uma tragédia e tem cenas muito humorísticas, personagens tipicamente humorísticos —, e não me lembro mais qual era a outra influência, talvez fosse o próprio João Ubaldo. E ao escrever O mistério de leão Rampante, eu queria isto: brincar com uma linguagem erudita com humor. […] Mas o verdadeiro pontapé inicial do livro foi um curso de pós-graduação que tratava sobre as fronteiras entre literatura e História. A tese da professora era a seguinte: que ciência maluca é essa que se você pega um historiador católico, o Brasil Colônia é uma coisa; se é um historiador marxista, o Brasil Colônia é outro; se é um historiador do imaginário, é uma terceira; e assim por diante. Então, o que há de ciência aí, se na verdade a História é também a construção de um discurso? Ao folhear um arquivo, você vai selecionar dez documentos para usar na sua tese de historiador. Mas por que aqueles dez documentos, e não outros? Quer dizer, há uma série de aportes subjetivos que determinam para que lado aquela “ciência” vai. Então, isso aproxima a História da literatura, com a diferença de que a literatura é assumidamente ficcional, e a História é envergonhadamente ficcional. Esse era o tema do curso, e eu ia escrever uma tese sobre Shakespeare, por causa da minha paixão na época. E o exercício do fim do curso foi transformar a nossa tese em um conto. Eu não consegui escrever um conto e escrevi uma pequena novela, O mistério do leão Rampante, que é sobre como Shakespeare é um autor que nos leva a olhar para dentro de nós mesmos e ver o quanto temos de mau e de bom misturados. […] E tudo isso se junta no Mistério do leão Rampante: a questão da linguagem, a questão das fronteiras entre literatura e história e o meu amor por essa nova ética que aprendi com Shakespeare.

• Na contramão
Não sou o único [a destoar do cenário da literatura brasileira da década de 1990, cuja tendência era tematizar o mundo urbano, contemporâneo, e a violência]. Inclusive, na mesma época em que lancei o meu livro [O mistério do leão Rampante, de 1995], num espaço de poucos anos reparei que saíram uma série de obras que iam na mesma linha, digamos, de uma “carnavalização” da história, de um tratamento humorístico da linguagem erudita. Então, teve O Chalaça, do José Roberto Torero, que ganhou o prêmio Jabuti exatamente um ano antes de mim; a Carla Camurati fez o filme Carlota Joaquina, e é o mesmo espírito; o Jô Soares lançou seu primeiro livro, Xangô; o Luís Antônio Giron lançou um livro sobre teatro [Ensaio de ponto]. Mas tudo era escolher um período histórico, trabalhar com uma linguagem que não era a do Rubem Fonseca, contemporânea, que se usava, e tratar aquilo com humor para que não virasse uma coisa pedante, ridícula. Então, acho que era um momento em que algumas pessoas já estavam se sentindo um pouco sufocadas por aquele excesso de realismo que o Rubem Fonseca instaurou na literatura — não por culpa dele, mas por mérito, porque era muito bom. Mas o fato é que ele criou uma dinastia onipresente de seguidores. Então acho que o Leão Rampante vem num movimento para dizer: “Olha, também é possível fazer de outro jeito”. Mas não por acaso, foi o primeiro [livro] de todos nós: do Torero, o meu, da Carla Camurati, do Jô. É uma linguagem que você trabalha a partir de pesquisa, e isso facilita um pouco, mais do que uma linguagem que você tem que fazer brotar de dentro de si. Isso é um desafio que vem depois.

“Decadência”
A dinâmica das larvas é uma farsa, portanto também um livro humorístico, sobre o mundo editorial: as intrigas, os podres e as loucuras do mundo editorial. Na época, já tinha trabalhado na Nova Fronteira, portanto numa editora privada, de literatura, e estava trabalhando na editora da Universidade de São Paulo, pública e acadêmica. Já tinha circulado pelo menos nos dois pólos mais extremos desse mercado. E publicado o primeiro livro, o que significa que obviamente o meu sonho era parar de trabalhar e só escrever, não ter mais que ganhar dinheiro, não ter mais emprego. Então o Dinâmica das larvas era a minha vingança contra o mercado editorial, que justamente era o que me sustentava. [risos] Contradições da vida… Ele é diferente do Leão Rampante, mas de certa forma não é, porque a linguagem farta, abundante, com frases longas, sonoras, muitos adjetivos que usei para forjar uma linguagem de época, transferi aquilo para o Dinâmica das larvas, que é uma coisa que se passa nos nossos dias — claro, atualizando o vocabulário, mas, sintaticamente, a coisa das frases longas, dos adjetivos, dos parágrafos longos, a coisa sonora, tudo isso continuava. Então, era quase como uma atualização daquela linguagem, mas no fundo acho que ainda era a mesma. Mas com o Dinâmica das larvas começou a minha vertiginosa e precoce decadência, porque o Leão Rampante tinha ganhado o prêmio Certas Palavras e o Jabuti. O Dinâmica das larvas, que lancei exatamente um ano depois, não só não ganhou prêmio nenhum como teve uma crítica mais dividida. Entrei em crise, não só porque a crítica não foi tão boa, mas porque falei: “Não posso continuar escrevendo assim para sempre. Eu não quero, aos 27 anos, dizer: ‘Isso é que é o meu estilo, não vou tentar mais nada’”. E aí passei dos 27 aos 30 experimentando formas. Fui escrever igual ao Rubem Fonseca, quer dizer, não igual, mas fui escrever roteiro, crônica, conto — que eu não fazia, só fazia novelas. Então, fiquei experimentando — outros gêneros, outros registros, outras linguagens. E foi um período muito importante para mim e desaguou no Tripé.

• Abrindo portas
[Tripé] É dividido em crônicas, roteiros e contos. […] É um livro laboratório, até hoje as livrarias não sabem onde colocá-lo, porque não sabem se colocam na prateleira de não-ficção, na de teatro ou na de ficção — tem as três coisas. Então, continua a minha vertiginosa decadência, porque esse não teve resenha nenhuma, caiu no silêncio, no vácuo. [risos] Não sei se tinha um projeto [de ser um escritor camaleônico], mas uma tendência. Embora tenha sido um retumbante fracasso de público e crítica, para mim foi muito importante e acho que ele é injustiçado. Acho que ele tem coisas muito boas. Ele foi importante porque, primeiro, fez o balanço daqueles três anos de pesquisa; e segundo, o último texto que escrevi, Estante nova, é uma crônica na qual conto uma história real. […] E esse último texto me deu o tom para o livro seguinte. Foi quando falei: “Agora achei para qual caminho tenho que seguir”. E é um caminho muito mais enxuto, com uma linguagem muito mais enxuta, do que o Leão Rampante e o Dinâmica das larvas. Quer dizer, aquela experimentação toda acabou dando resultado. Abriu uma porta.

• Improviso
O fazedor de velhos é a prova incontestável de que, não só quando você senta para escrever, não tem muito controle do que vai sair, como depois que o livro é publicado, também não tem nenhum controle do que acontecerá com ele. Já estava escrevendo o Outra vida, que é o romance lançado depois de O fazedor de velhos. Mas era um livro muito difícil, que eu não estava sabendo como terminar, como finalizar, e resolvi tirar umas férias desse romance complicado e escrever uma coisa leve para me divertir, um livro juvenil para a minha filha. Porque tem uma frase que ouvi o Ulysses Guimarães, um político, contando no programa do Jô. Ele teve aula de piano com o Mário de Andrade. E o Ulysses contava que o Mário de Andrade uma vez falou para ele que “conselho é que nem sol de inverno: ilumina, mas não aquece”. Nunca me esqueci dessa frase, porque você vê o seu filho crescendo e tem vontade de dar mil conselhos, mas você sabe que não basta o convencimento racional, o convencimento intelectual. Se o coração da pessoa apontar para outro lado, toda a sabedoria que você tem para passar vai por água abaixo, porque a força vital é muito maior. Então, O fazedor de velhos era um pouco assim, tratar de alguns assuntos que gostaria de tratar com ela. Ela na época tinha 12 para 13 anos, então estava iniciando a vida social, e junto com a social, a vida amorosa, os primeiros namorados. Eu queria falar desses assuntos. Mas não tinha um plano. Sentei para escrever o livro na base do improviso. Dois livros, escrevi improvisando: Leão Rampante e O fazedor de velhos. Não tinha plano nenhum. Todos os outros eu improviso, mas parto de um plano, que uma bela hora descubro que não vai dar certo, e aí começo a improvisar. Mas esses dois, já comecei improvisando, sem plano nenhum. E não por acaso são os meus dois livros mais bem-sucedidos, porque talvez essa espontaneidade com a qual sentei para escrever esteja impregnada ali de alguma forma. Mas o fato é que O fazedor de velhos é um sucesso surpreendente para os meus padrões — deve estar indo para os 35 mil exemplares. Então é essa surpresa, que é uma delícia e é uma agonia, porque você fala: “Pô, gostaria de escrever todos os meus livros desse jeito, com essa espontaneidade”. Mas como é que você programa a espontaneidade, né? Ela não acontece quando você quer. Então, a maioria dos livros é 10% de inspiração e 90% de transpiração mesmo. Não acho que eles fiquem piores por causa disso, mas essa espontaneidade tem um mistério ali, ela ilumina, eles nascem virados para a lua e têm uma estrela mais generosa. Mas, realmente, não adianta querer controlar essas coisas, você nunca sabe para que lado seu livro vai.

• Outra vida
Queria primeiro falar da classe média. A minha geração cresceu muito debaixo de uma literatura ou de um momento político-social do país em que ou você falava da criminalidade à la Rubem Fonseca ou falava da criminalidade à la Paulo Lins, Cidade de Deus — mas você tinha que falar de miséria. Se não falasse de miséria, era alienado. Nunca me senti habilitado a forjar uma voz para criar um narrador favelado, porque a verdade é que nunca vivi essa vida. Tanto gosto de ler esse tipo de literatura que escrevi uma tese sobre João Antônio, que é um dos mestres desse tipo de coisa. Não tenho nenhum preconceito, pelo contrário. Mas não sou eu. E queria trabalhar também com a corrupção, porque é uma coisa tão presente no nosso dia-a-dia, e estranhamente a nossa literatura trata pouco desse assunto. Trata pouco de política. A sensação que tenho é de que a literatura brasileira é tão prisioneira ideológica de um vago pensamento de esquerda, que para não bulir com esse arcabouço que já recebe pronto, ela então não pode falar desse assunto. Porque como a realidade é muito mais complexa do que um arcabouço, qualquer que seja — de direita, de esquerda, de centro —, que você receba pronto, as pessoas não falam nesse assunto. Acho isso muito estranho. Então, queria falar de política e queria falar de corrupção. Mas não queria construir estereótipos, quer dizer, “o corrupto”, aquela figura desprezível, que todo leitor ia apontar o dedo e falar: “Esse cara é miserável!”. Queria construir um personagem complexo o suficiente para que o leitor falasse: “Na posição dele, talvez eu aceitasse essa grana também”. Queria que ele entendesse por que aquele homem tinha se deixado subornar, isso era um objetivo. O leitor precisava, em alguma medida, se identificar com aquele corrupto.

• História familiar
Escrevi um conto chamado Política, e nele aproveitava as lembranças do velório do meu avô. Ele morreu em 1977. Estava cassado desde 1968, e antes tinha rompido com a esquerda, depois rompeu com o governo militar — portanto, rompe com a direita —, então ele ficou num certo ostracismo político nos últimos anos de vida. E ao escrever esse conto, eu narrava os acontecimentos do velório, que foram muito surpreendentes, sobretudo para mim, que era um menino de oito anos: houve um início de tumulto, começou a chegar gente, gente, gente, não cabia, começou a ter empurra-empurra, pessoas passando mal, outras se jogando no caixão. E tinha uma coisa passional de ex-lacerdistas desesperados — que eu nunca tinha visto, eu tinha oito anos e ele estava cassado há dez. Claro, sempre convivi com pessoas que amavam e odiavam, e faziam questão de me dizer isso. Mas nunca tinha visto aquele desespero. Foi uma experiência muito marcante. Mas quando escrevi o conto, o nome dele nem aparecia. Era o velório de um político e eu tentava fazer um balanço da geração dele, dos anos 1930 até os anos 1970, políticos dessa fase da história brasileira. Mas o conto chamou atenção e me convidaram para transformá-lo em um romance. Aceitei, desgraçadamente, o convite. Desgraçadamente porque virou um livro muito mais difícil do que eu imaginava. Porque cheguei à conclusão de que para falar sobre ele, precisava falar sobre seus antecedentes políticos. E o pai dele foi político, os dois tios foram políticos, e o avô foi político. Então, ao invés de iniciar o livro em 1930, quando ele entra na vida pública, tive que começar o livro em 1880, quando o avô dele, republicano, começa a fazer política abolicionista. […] Então, quando meu avô entra em cena, você já tem uma bagagem política e histórica do Brasil, e a idéia do livro se tornou agora contar a história dessas três gerações da família fundindo essa história à história do Brasil.

• Esteio
O ato de escrever é o que mais gosto de fazer. Quando fico muito tempo sem escrever — e por muito tempo entenda-se 15 dias —,começo a deprimir, porque a vida começa a ficar uma sucessão, uma repetição de gestos vazios. Preciso escrever para ter a sensação de que a vida valeu a pena, que vou deixar alguma coisa, mesmo que… Quer dizer, eu não sei se a minha obra vai entrar para os cânones — provavelmente não. Outro dia eu estava lendo um livro do Afrânio Peixoto. Ninguém mais lê Afrânio Peixoto. Ele saiu dos cânones — se é que já pertenceu a eles. Mas o fato de eu tirar o livro dele e ler, conheço um pouco do Afrânio Peixoto. Quer dizer, estabelece-se uma ligação entre mim e um escritor do passado, perdido na história da literatura brasileira. Então, isso me dá certa tranqüilidade, porque a vida é muito curta, ainda mais, como eu falei, para os homens da minha família. Acho que não agüentaria ter a sensação de que não estou deixando alguma coisa que me ultrapasse. Isso é um pouco uma fonte de felicidade para mim. Ou pelo menos é o calmante que me permite aproveitar as felicidades, porque sem isso ficaria numa fissura que acho que não ia conseguir aproveitar nada, na verdade. Ia querer engolir tudo de uma vez e não ia conseguir aproveitar nada. A literatura me dá essa acalmada. Ela é um esteio, o que faz com que a vida ganhe algum sentido, por mais curta que ela seja. Isso é uma forma de felicidade que ela me dá. Agora, luto contra maiores ambições literárias, assim, porque, como disse, não controlo, não depende de mim. Tem pessoas que você fala: “Esse aí é talhado para fazer sucesso. Tem o temperamento, o carisma, a verve”. Eu não tenho. Sou uma pessoa muito caseira, gosto de ficar em casa, lendo, vendo televisão, jantando com a minha filha. Vir aqui hoje, para mim, é um acontecimento. Tenho colegas que ficam pulando de feira em feira, feira literária aqui, feira literária ali, palestra… Não faço isso muito não, porque só gosto de ir quando acho que tenho alguma coisa nova para dizer. Porque ficar ouvindo o som da minha voz falando as mesmas coisas, não gosto, não. Então, escolho. Muito. Não tenho essa capacidade de… sei lá, de perseguir a fama, nesse sentido. Quero escrever livros o mais marcantes possível, não só para mim, mas para a história da literatura brasileira — quero entrar na história da literatura brasileira, sim, não vou negar. Mas isso pode acontecer durante a minha vida, pode acontecer depois. Pode acontecer quando eu tiver 70 anos, e aí vai ter tão menos importância… Sei lá. É tão imprevisível… Felicidade para mim é muito mais corriqueira, muito mais cotidiana, familiar. A literatura é uma fonte de felicidade, mas eu tenho muitas outras e não me realizo só nela.

Print Friendly