Dom Casmurro

julho 2014 / Dom Casmurro / ROBERTO BOLAÑO

Texto publicado na edição #171

ROBERTO BOLAÑO

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert Se você conhece um pouco da biografia do chileno Roberto Bolaño (ou leu Os […]

> Por ROBERTO BOLAÑO

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

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Se você conhece um pouco da biografia do chileno Roberto Bolaño (ou leu Os detetives selvagens, aquele romance descrito pelo autor como “uma declaração de amor à minha geração” e que eu, modestamente, prefiro ao mais celebrado 2666), você sabe que a primeira vocação do escritor chileno foi a poesia. Mais do que isso, Bolaño (1953-2003) sempre se considerou, essencialmente, e até o fim da vida, um poeta. E, apesar de conhecido sobretudo por seus romances, contos e ensaios, ele escreveu versos que nada ficam a dever ao restante de sua produção.

Embora tenha produzido poemas ao longo de toda a vida, Bolaño só começou a publicá-los em livro tardiamente, já então um romancista de prestígio (a não ser que se inclua na lista Reiventar el amor, editado na Cidade do México em 1976, em edição artesanal, 20 páginas e 223 exemplares, quando o autor tinha 23 anos). Em 1993 foi publicado Los perros románticos; em 1995, El último salvage; em 2000, Tres. Finalmente, em 2007, saiu aquela que talvez seja sua obra mais importante em poesia, que é a coletânea póstuma La Universidad Desconocida (Barcelona, Anagrama), de quase 500 páginas, na qual aparecem tanto poemas inéditos quanto alguns já publicados em revistas e nos livros anteriores. La Universidad foi organizada e deixada pronta para publicação pelo próprio Bolaño em 1993, logo após ter sido informado sobre os sombrios prognósticos da insuficiência hepática que acabaria por matá-lo dez anos depois. (Durante uma década, o poeta esperou em vão por um transplante de fígado; quando morreu, em julho de 2003, aos 50 anos, estava nos primeiros lugares da fila)

Já se disse de Roberto Bolaño que ele era um “Borges com vísceras”. Se a comparação foi feita pensando-se na prosa, ela não deixa de ser válida na obra poética. Bolaño, discípulo declarado de Borges, compartilha com o argentino a ideia de que, em literatura, os temas são sempre os mesmos, variando principalmente o tratamento que se dá a eles. Mas, enquanto Borges é contido e cerebral, Bolaño é (a palavra é esta) visceral: amores, saudades, putas e bordéis, a atividade de zelador de camping, a falta de dinheiro, a proximidade da morte e, em meio a tudo isso, uma capacidade única de ver, e traduzir em versos, a beleza das nuvens que passam, da chuva, das tardes iluminadas, das ruas de Barcelona e da Cidade do México.

SEM TÍTULO
Esperas que desaparezca la angustia
Mientras llueve sobre la extraña carretera
El donde te encuentras

Lluvia: sólo espero
Que desaparezca la angustia
Estoy poniéndolo todo de mi parte

SEM TÍTULO
Esperas que desapareça a angústia
Enquanto cai a chuva sobre a desconhecida estrada
Onde te encontras

Chuva: apenas espero
Que desapareça a angústia
Estou dando tudo de mim


AMANECER
Créeme, estoy en el centro de mi habitación
esperando que llueva. Estoy solo. No me importa
terminar o no mi poema. Espero la lluvia,
tomando un café y mirando por la ventana un bello paisaje
de patios interiores, con ropas colgadas y quietas,
silenciosas ropas de mármol en la ciudad, donde no existe
el viento y a lo lejos sólo se escucha el zumbido
de televisión en colores, observada por una familia
que también, a esta hora, toma café reunida alrededor
de una mesa: créeme: las mesas de plástico amarillo
se desdoblan hasta la línea del horizonte y más allá:
hacia los suburbios donde construyen edificios
de departamentos, y un muchacho de 16 sentado sobre
ladrillos rojos contempla el movimiento de las máquinas.
El cielo en la hora del muchacho es un enorme
tornillo hueco con el que la brisa juega. Y el muchacho
juega com ideas. Con ideas y com escenas detenidas.
La inmovilidad es una neblina transparente y dura
que sale de sus ojos.
Créeme: no es el amor el que va a venir,
sino la belleza con su estola de albas muertas.

AMANHECER
Creia-me, estou no centro de minha casa
esperando que chova. Estou só. Não me importa
terminar ou não meu poema. Espero a chuva,
tomando um café e olhando pela janela uma bela paisagem
de pátios internos, com roupas penduradas e imóveis,
silenciosas roupas de mármore na cidade, onde não existe
o vento e ao longe só se escuta o zumbido
da televisão em cores, assistida por uma família
que também, a esta hora, toma café reunida em volta
de uma mesa: creia-me: as mesas de plástico amarelo
se estendem até a linha do horizonte e mais além:
até os bairros distantes onde se constroem edifícios
de apartamentos, e um garoto de 16 sentado sobre
ladrilhos vermelhos contempla o movimento das máquinas.
O céu na hora do garoto é um enorme
parafuso oco com quem a brisa brinca. E o garoto
brinca com ideias. Com ideias e com cenas congeladas.
A imobilidade é uma neblina transparente e dura
que sai de seus olhos.
Creia-me: não é o amor que vai chegar,
mas a beleza com sua estola de alvoradas mortas.


POETA CHINO EN BARCELONA
Un poeta chino piensa alrededor
de una palabra sin llegar a tocarla,
sin llegar a mirarla, sin
llegar a representarla.
Detrás del poeta hay montañas
amarillas y secas barridas por
el viento,
ocasionales lluvias,
restaurantes baratos,
nubes blancas que se fragmentam.

POETA CHINÊS EM BARCELONA
Um poeta chinês pensa ao redor
de uma palavra sem chegar a tocá-la,
sem chegar a olhá-la, sem
chegar a representá-la.
Atrás do poeta há montanhas
amarelas e secas varridas
pelo vento,
chuvas ocasionais,
restaurantes baratos,
nuvens brancas que se fragmentam.


SEM TÍTULO
Duerme abismo mío, los reflejos dirán
que el descomprimiso es total
pero tú hasta en sueños dices que todos
estamos comprometidos que todos
merecemos salvarnos

SEM TÍTULO
Dorme abismo meu, os reflexos dirão
que o descompromisso é total
mas tu até em sonhos dizes que todos
estamos comprometidos que todos
merecemos salvar-nos.


SEM TÍTULO
Una voz de mujer dice que ama
la sombra que talvez es la tuya
Estás disfrazado de policía y contemplas
caer la nieve ¿Pero cuándo?
No lo recuerdas Estabas en la calle
y nevaba sobre tu uniforme de poli
Aun así la pudiste observar:
una hermosa muchacha a horcajadas
sobre una motocicleta negra
al final de la avenida

SEM TÍTULO
Uma voz de mulher disse que ama
a sombra que talvez seja a tua
Estás disfarçado de policial e contempla
a neve que cai Mas quando?
Não te lembras Estavas na rua
e nevava sobre teu uniforme de tira
Ainda assim a pudeste observar:
uma bela mulher montada
numa motocicleta negra
no final da avenida


SEM TÍTULO
Ahora tu cuerpo es sacudido por
pesadillas. Ya no eres
el mismo: el que amó,
que se arriesgó.
Ya no eres el mismo, aunque
tal vez mañana todo se desvanezca
como un mal sueño y empieces
de nuevo. Tal vez
mañana empieces de nuevo.
Y el sudor, el frío,
los detectives erráticos,
sean como un sueño.
No te desanimes.
Ahora tiemblas, pero tal vez
mañana todo empiece de nuevo.

SEM TÍTULO
Agora teu corpo é sacudido por
pesadelos. Já não és
o mesmo: o que amou,
que se arriscou.
Já não és o mesmo, ainda que
talvez amanhã tudo se desvaneça
como um sonho ruim e comeces
de novo. Talvez
amanhã comeces de novo.
E o suor, o frio,
os detetives erráticos,
sejam como um sonho.
Não desanimes.
Agora tremes, mas talvez
amanhã tudo comece de novo.


LOS PERROS ROMÁNTICOS
En aquel tiempo yo tenía veinte años
y estaba loco.
Había perdido un país
pero había ganado un sueño.
Y si tenía ese sueño
lo demás no importaba.
Ni trabajar, ni rezar,
ni estudiar en la madrugada
junto a los perros románticos.
Y el sueño vivía en el vacío de mi espíritu.
Una habitación de madera,
en penumbras,
en uno de los pulmones del trópico.
Y a veces me volvía dentro de mí
y visitaba el sueño: estatua eternizada
en pensamientos líquidos,
un gusano blanco retorciéndose
en el amor.
Un amor desbocado.
Un sueño dentro de otro sueño.
Y la pesadilla me decía: crecerás.
Dejarás atrás las imágenes del dolor y del laberinto
y olvidarás.
Pero en aquel tiempo crecer hubiera sido un crimen.
Estoy aquí, dije, con los perros románticos
y aquí me voy a quedar.

OS CÃES ROMÂNTICOS
Naquele tempo eu tinha vinte anos
e estava louco.
Havia perdido um país
mas havia ganhado um sonho.
E se tinha esse sonho
o resto não importava.
Nem trabalhar, nem rezar,
nem estudar de madrugada
junto aos cães românticos.
E o sonho vivia no vazio de meu espírito.
Uma morada de madeira,
na penumbra,
em um dos pulmões do trópico.
E às vezes me revirava dentro de mim
e visitava o sonho: estátua eternizada
em pensamentos líquidos,
um verme branco se retorcendo
no amor.
Um amor desbocado.
Um sonho dentro de outro sonho.
E o pesadelo me dizia: crescerás.
Deixarás para trás as imagens da dor e do labirinto
e esquecerás.
Mas naquele tempo crescer teria sido um crime.
Estou aqui, eu disse, com os cães românticos
e aqui eu vou ficar.


EL DINERO
Trabajé 16 horas en el camping y a las 8
de la mañana tenía 2.200 pesetas pese a ganar
2.400 no sé que hice con las otras 200
supongo que comí y bebí cervezas y café con
leche en el bar de Pepe García dentro del
camping y llovió la noche del domingo y toda
la mañana de lunes y a las 10 fui donde
Javier Lentini y cobré 2.500 pesetas por una
antología de poesía joven mexicana que
aparecerá en su revista y ya tenía más de
4.000 pesetas y decidí comprar un par de
cintas vírgenes para grabar a Cecil Taylor
Azimuth Dizzie Gillespie Charlie Mingus
y comerme un buen bistec de cerdo
con tomate y cebolla y huevos fritos y escribir
este poema o esta nota que es como un pulmón
o una boca transitoria que dice que estoy
feliz porque hace mucho que no tenía
tanto dinero en los bolsillos

O DINHEIRO
Trabalhei 16 horas no camping e às 8
da manhã tinha 2.200 pesetas apesar de ganhar
2.400 não sei o que fiz com as outras 200
suponho que comi e bebi cervejas e café com
leite no bar do Pepe Garcia dentro do
camping e choveu na noite de domingo e em toda
a manhã de segunda e às 10 fui onde
Javier Lentini e cobrei 2.500 pesetas por uma
antologia de poesia jovem mexicana que
aparecerá na sua revista e já tinha mais de
4.000 pesetas e decidi comprar um par de
fitas virgens para gravar Cecil Taylor
Azimuth Dizzie Gillespie Charlie Mingus
e comer uma boa bisteca de porco
com tomate e cebola e ovos fritos e escrever
este poema ou esta nota que é como um pulmão
ou uma boca transitória que disse que estou
feliz porque há muito que não tinha
tanto dinheiro nos bolsos


SEM TÍTULO
Todos los comercios hoy estaban cerrados
y además sólo tenía 50 pesetas
Tres tomates y un huevo
Eso fue todo
Y softly as in a morning sunrise.
Coltrane en vivo
Y comí bien
Cigarrillos y té hubo a mi alcance.
Y paciencia en el compás
del atardecer.

SEM TÍTULO
Todo o comércio estava fechado hoje
e além do mais eu só tinha 50 pesetas
Três tomates e um ovo
Isso foi tudo
E softly as in a morning sunrise,
Coltrane ao vivo
E comi bem
Cigarros e chá ao meu alcance.
E paciência no compasso
do entardecer.

 

SEM TÍTULO
Las persianas dejan pasar, apenas, dos rayos de luna.
Como en una vieja película española,
No hay nadie en la habitación,
Los ceniceros están limpios, la cama sin deshacer,
el ropero cerrado y lleno de abrigos, chaquetas, pantalones.
Pero no hay nadie.
Sólo los rayos de luna.
Como en una vieja película española.

SEM TÍTULO
As persianas deixam passar, apenas, dois raios de lua.
Como num velho filme espanhol,
Não há nada na casa,
Os cinzeiros estão limpos, a cama sem desfazer,
o armário fechado e cheio de casacos, jaquetas, calças.
Mas não há ninguém.
Somente os raios de lua.
Como num velho filme espanhol.

 

OTRO AMANECER EN EL CAMPING ESTRELLA DE MAR
Sólo la radio cruza el silencio
(Magníficas nubes Magnífico aire)
Voces lejanas que compartí
contigo Canciones
que bailamos hace mucho
cuando ninguno tenía
veinte años
y éramos menos pobres y menos serenos
que hoy
(Magníficas nubes Magnífico aire)
Dulce estilo nuevo de la primavera
10 grados sobre cero
a las 6 a.m.

OUTRO AMANHECER NO CAMPING ESTRELA DO MAR
Somente o rádio cruza o silêncio
(Magníficas nuvens Magnífico ar)
Vozes distantes que compartilhei
contigo Canções
que dançamos há muito
quando ninguém tinha
vinte anos
e éramos menos pobres e menos serenos
que hoje
(Magníficas nuvens Magnífico ar)
Doce estilo novo da primavera
10 graus acima de zero
às 6 a.m.

 

MOLLY
Una muchacha con libras irlandesas
y una mochila verde.
143 pesetas por una libra irlandesa,
es bastante, ¿no?
No está mal.
Y dos cervezas en una terraza
de Barcelona.
Y gaivotas.
No está mal.

MOLLY
Uma garota com libras irlandesas
e uma mochila verde.
143 pesetas por uma libra irlandesa,
é o bastante, não?
Não está mal.
E duas cervejas em uma varanda
De Barcelona.
E gaivotas.
Não está mal.

 

SEM TÍTULO
Nadie te manda cartas ahora Debajo del faro
en el atardecer los labios partidos por el viento
Hacia el Este hacen la revolución Un gato
duerme entre tus brazos
A veces eres inmensamente feliz.

SEM TÍTULO
Ninguém te manda cartas agora Debaixo do farol
ao entardecer os lábios rachados pelo vento
No Leste fazem a revolução Um gato
Dorme entre teus braços
Às vezes és imensamente feliz.

 

EN ALGÚN LUGAR SECO Y ENORME, 1949
Tu y yo vestidos confortablemente observando la línea recta
mientras en el cielo las nubes corren como en la película
que a veces sueñas hacer Tú y yo sin los hijos observando
la línea recta entre dos amarillos que antes fueron
la masa amarilla y que nunca sabremos en qué demonios se
convertirán (¡ni nos importa!) Tú y yo en la casa alquilada
sentados junto al ventanal la verdad dices es que podría
llorar toda la tarde la verdad es que no tengo hambre y sí
un poco de miedo de a emborracharme otra vez sentados junto
a un ventanal recto ¿no? mientras a nuestras espaldas
los pájaros saltan de rama en rama y la luz de la cocina
parpadea Tú y yo en una cama ¡allí estamos! observando
las paredes blancas – dos perfiles que se continúan – ayudados
por la luz de la calle y por la luz de nuestros corazones fríos
que se niegan a morir

EM ALGUM LUGAR SECO E ENORME, 1949
Você e eu vestidos confortavelmente observando a linha reta
enquanto no céu as nuvens correm como no filme
que às vezes Você sonha fazer comigo sem os filhos olhando
a linha reta entre dois amarelos que antes foram
a massa amarela e que nunca saberemos em que demônios
se converteram (nem nos importa!) Você e eu na casa alugada
sentados junto ao janelão a verdade disse é que poderia
chorar por toda a tarde a verdade é que não tenho fome e sim
um pouco de medo de embebedar-me outra vez sentados junto
a um janelão reto, não? enquanto atrás de nós
os pássaros saltam de galho em galho e a luz da cozinha
pisca Você e eu em uma cama, ali estamos! Observando
as paredes brancas – dois contornos que se misturam – ajudados
pela luz da rua e pela luz de nossos corações frios
que se negam a morrer.

 

LUPE
Trabajaba en la Guerrero, a pocas calles de la casa de Julián
y tenía 17 años y había perdido un hijo.
El recuerdo la hacía llorar en aquel cuarto del Hotel Trébol
espacioso y oscuro, con baño y bidet, el sitio ideal
para vivir durante algunos años. El sítio ideal para escribir
un libro de memorias apócrifas o un ramillete
de poemas de terror. Lupe
era delgada y tenía las piernas largas y manchadas
como los leopardos.
La primeira vez ni siquiera tuve una erección:
tampoco esperaba tener una erección. Lupe habló de su vida
y de lo que para ella era la felicidad.
Al cabo de una semana nos volvimos a ver. La encontré
en una esquina junto a otras putitas adolescentes,
apoyada en los guardabarros de un viejo Cadillac.
Creo que nos alegramos de vernos. A partir de entonces
Lupe empezó a contarme cosas de su vida, a veces llorando,
a veces cogiendo, casi siempre desnudos en la cama,
mirando el cielo raso tomados de la mano.
Su hijo nació enfermo y Lupe prometió a la Virgen
que dejaría el oficio si su bebê se curaba.
Mantuve la promesa un mes o dos y luego tuve que volver.
Poco después su hijo murió y Lupe decía que la culpa
era suya por no cumplir con la Virgen.
La Virgen se llevó al angelito por una promesa no sostenida.
Yo no sabia qué decirle. Me gustaban los niños, seguro,
pero aún faltaban muchos años para que supiera
lo que era tener un hijo.
Así que me quedaba callado y pensaba en lo extraño
que resultaba el silencio de aquel hotel.
O tenía las paredes muy gruesas o éramos los únicos ocupantes
o los demás no abrían la boca ni para gemir.
Era tan fácil manejar a Lupe y sentirte hombre
y sentirte desgraciado. Era tan fácil escucharla referir
las últimas películas de terror que había visto
en el cine Bucareli.
Sus piernas de leopardo se anudaban en mi cintura
y hundía su cabeza en mi pecho buscando mis pezones
o el latido de mi corazón.
Eso es lo que quiero chuparte, me dijo una noche.
¿Qué, Lupe? El corazón.

LUPE
Trabalhava na Guerrero, a poucas ruas da casa de Julián
e tinha 17 anos e havia perdido um filho.
A lembrança a fazia chorar naquele quarto do Hotel Trébol
espaçoso e escuro, com chuveiro e bidê, o lugar ideal
para viver durante alguns anos. E lugar ideal para escrever
um livro de memórias apócrifas ou um ramalhete
de poemas de terror. Lupe
era magra e tinha as pernas longas e manchadas
como os leopardos.
Na primeira vez nem sequer tive uma ereção:
tampouco esperava ter uma ereção. Lupe falou de sua vida
e do que para ela era a felicidade.
Ao cabo de uma semana voltamos a nos ver. Encontrei-a
em uma esquina junto a outras putinhas adolescentes,
apoiada no para-lama de um velho Cadillac.
Creio que nos alegramos em nos vermos. A partir de então
Lupe começou a me contar coisas de sua vida, às vezes chorando,
às vezes trepando, quase sempre nus na cama,
olhando para o céu limpo dando as mãos.
Seu filho nasceu doente e Lupe prometeu à Virgem
Que deixaria a profissão se seu bebê se curasse.
Manteve a promessa por um mês ou dois mas logo teve que voltar.
Pouco depois seu filho morreu e Lupe dizia que a culpa
Era sua por não manter a promessa à Virgem.
A Virgem levou o anjinho por uma promessa não mantida.
Eu não sabia o que dizer-lhe. Eu gostava de crianças, é certo,
mas ainda faltavam muitos anos para que eu soubesse
o que era ter um filho.
Assim é que eu ficava calado e pensava que esquisito
parecia o silêncio daquele hotel.
Ou tinha paredes muito grossas ou éramos os únicos ocupantes
ou os demais não abriam a boca nem para gemer.
Era tão fácil lidar com a Lupe e se sentir homem
e se sentir desgraçado. Era tão fácil escutá-la falar
dos últimos filmes de terror que havia visto
no cine Bucareli.
Suas pernas de leopardo se enroscavam na minha cintura
e afundava sua cabeça em meu peito em busca de meus mamilos
ou do pulsar de meu coração.
É isso o que eu quero chupar, me disse uma noite.
O quê, Lupe? O coração.

 

DEVOCIÓN DE ROBERTO BOLAÑO
A finales de 1992 él estaba muy enfermo
y se había separado de su mujer.
Ésa era la puta verdad:
estaba solo y jodido
y solía pensar que quedaba poco tiempo.
Pero los sueños, ajenos a la enfermedad,
acudían cada noche
con una fidelidad que conseguía asombrarlo.
Los sueños que lo trasladaban a ese país mágico
que él y el nadie más llamaba México D.F.
y Lisa y la voz de Mario Santiago
leyendo un poema
y tantas otras cosas buenas y dignas
de los más encendidos elogios.
Enfermo y solo, él soñaba
y afrontaba los días que marchaban inexorables
hacia el fin de otro año.
Y de ello extraía un poco de fuerza y de valor.
México, los pasos fosforescentes de la noche,
la música que sonaba en las esquinas
donde antaño se helaban las putas
(en el corazón de hielo de la Colonia Guerrero)
le proporcionaban el alimento que necesitaba
para apretar los dientes
y no llorar de miedo.

DEVOÇÃO DE ROBERTO BOLAÑO
Em fins de 1992 ele estava muito doente
e havia se separado de sua mulher.
Essa era a puta verdade:
estava sozinho e fodido.
e costumava pensar que restava pouco tempo.
Mas os sonhos, alheios à doença,
acudiam a cada noite
com uma fidelidade que conseguia assombrá-lo.
Os sonhos que o transportavam para esse país mágico
que ele e ninguém mais chamava de México D.F.
e Lisa e a voz de Mario Santiago
lendo um poema
e tantas outras coisas boas e dignas
dos mais ardentes elogios.
Doente e sozinho, ele sonhava
e enfrentava os dias que marchavam inexoráveis
até que terminasse outro ano.
E disso extraía um pouco de força e de valor.
México, os passos fosforescentes da noite,
a música que tocava nas esquinas
onde antes se enregelavam as putas
(no coração de gelo da Colônia Guerrero)
lhe proporcionavam o alimento de que necessitava
para apertar os dentes
e não chorar de medo.

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