Ensaios e Resenhas

fevereiro 2017 / Ensaios e Resenhas / Prazer clandestino

Texto publicado na edição #202

Prazer clandestino

O gaúcho Samir Machado de Machado cria romance histórico intrincado sobre o contrabando de livros eróticos

> Por Jonatan Silva

Samir Machado, autor de Homens elegantes

Samir Machado, autor de Homens elegantes

Não existem livros morais ou imorais, apenas bem ou mal escritos. Ao menos, era isso que acreditava o dramaturgo irlandês Oscar Wilde ao escrever o polêmico O retrato de Dorian Gray (1890), publicado anos antes de sua morte e usado como peça fundamental no processo movido pelo Marquês de Queensberry contra Wilde — que fora amante de seu filho. A Wilde é também atribuído o texto homoerótico Teleny, ou o reverso da medalha, publicado em 1893 e disponível somente por meio de uma intrincada rede de contrabando.

A prática do mercado de negro de livros pornográficos ou eróticos não nasceu com Wilde e muito menos parou com ele. O escritor gaúcho Samir Machado de Machado usa esse gancho para compor seu intrincado romance Homens elegantes, uma bela alegoria contra a hipocrisia e uma grande homenagem metalinguística à literatura. Em 1760, um misterioso carregamento de literatura clandestina interceptado no porto do Rio de Janeiro é estopim para a busca do soldado brasileiro Érico Borges, enviado a Londres para encontrar o culpado pelo furor causado na corte.

Sem nenhuma ironia, a remessa literária que chega a Terra Brasilis tem na capa a inscrição: Catecismo. Basta ser um pouco astuto como Érico para folhear os livros e perceber que o miolo era de Fanny Hill, romance escrito em 1748 por John Cleland e que nada deixa a desejar a Sade.

Samir, mais conhecido como designer e capista que romancista, cria um retrato interessante da época, repleto de referências — de Moll Flanders a Virgílio e Dumas — e combinado a chamada alta literatura ao romance de capa e espada. Talvez, algumas dessas referências, principalmente as contemporâneas, como Seco & Molhados, James Bond e a franquia de jogos Assassin’s Creed, pareçam um tanto deslocadas, embora suas inserções ocorram quase que naturalmente na trama.

Érico, obviamente, não é o melhor arquétipo de herói, não no sentido tradicional. Logo que desembarca em Londres, com um título falso de nobreza, é recebido por cicerones, encarregados de apresentá-lo à cidade. Pouco a pouco, os personagens vão se desenleando, como um novelo de lã que cai no chão. Às investidas de Maria, sobrinha do embaixador, Érico consegue apenas esquivar-se. É no tosco e bruto padeiro Gonçalo que ele vai buscar abrigo e refúgio. Machado consegue extrair do casal algo pouco usual na literatura gay contemporânea: a real naturalidade da relação.

Machado poupa o leitor dos clichês. Tanto Érico quanto Gonçalo se distanciam dos lugares-comuns que abundam na literatura e no cinema e exalam uma virilidade que até anos atrás era quase impossível pensar em personagens homossexuais. Homens elegantes passa ao largo de qualquer publicação de nicho, nem tenta enveredar por esses bosques, e chega às livrarias em um momento no qual o tema tem ganhado cada vez mais as páginas literárias sem criar polêmica ou constranger a parte da sociedade que parece ainda viver em séculos passados.

Baile
Homens elegantes é como um grande baile de máscaras, é preciso impressionar a todos para formar correntes de aliados e inimigos. Nada é muito diferente do que vivemos hoje. O rival de Érico e sua trupe, por exemplo, é ninguém menos que conde de Bolsonaro, um sujeito homofóbico e misógino, interessado apenas em expandir seus negócios a todo custo. Questões como o “crime de sodomia” e os diretos das mulheres eram discutidos à época e ganham espaço no livro.

Capítulo por capítulo, o narrador se embrenha mais e mais em especificidades históricas, detalhes que talvez passassem desapercebidos aos leitores mais desatentos. Esse quê de documentações, de veracidade, dá o tom ao produto final. Ao nos colocar em xeque sobre o que é real e ficção, Samir Machado de Machado colocar o leitor ao seu lado — como um bom lacaio ou um amante amoroso. É como se houvesse um convênio entre realidade e imaginação.

Existe, é verdade, uma grande mística e fetichismo sobre o livro. Prova disso é um dos personagens mais divertidos e intrigantes criados por Samir: o Milanês — misto de Jorge de Burgos, de O nome da rosa, e Gato de Botas. É a ele que Érico recorre, com certa frequência, para solucionar problemas quanto à veracidade de traduções e edições.

Samir brinca, para não dizer “se vinga”, das pretensos tradutores contemporâneos, como diria Denise Bottmann. Os falsários que vertem as obras contrabandeadas para o português — Jean Melville, Pedro de Nasseti e Alexandre de Martins — parecem retirados do blogue de Denise, no qual denuncia esse mundo caótico dos bastidores literários.

Camadas
Todos os personagens são construções minuciosas de autor obcecado pela perfeição — ainda mais se levarmos em consideração o afeto que Machado tem pelo século 17, que é também o cenário do seu o romance anterior, Quatro soldados. De acordo com ele, Homens elegantes surgiu das ideias que sobraram do livro que o procede.

“A ideia da trama assumiu uma forma mais concreta quando conheci Londres pela primeira vez — a cidade que ambientava tantos dos meus livros e autores favoritos. Enquanto eu, brasileiro vindo de um estado periférico de um país em eterno atraso social, me deslumbrava feito caipira na cidade grande com uma cidade que fora o centro nervoso do mundo por tanto tempo, me ocorreu que também era sobre isso que meu livro trataria”, explica Samir em um texto publicado pela editora.

Em paralelo, o autor cria tramas que só encontram sentido quando o livro chega ao final — algo até um tanto quanto didático. Algumas se sustentam mais que outra, ainda assim é impressionante o cabedal que carrega sobre certo recorte histórico.

Isso faz de Homens elegantes um romance de camadas. O narrador, que por ora finge ser onisciente, recebe destaque maior adiante — embora parece pouco provável que soubesse de tudo que conta. São detalhes tão íntimos que podemos chamar o narrador de voyeur ou delator, sem pudor ou culpa. Não que essa estratégia desmonte a obra, mas assusta — pela surpresa e pela ingenuidade de quem lê e também pela astúcia de quem escreve.

No final, o que se percebe é que Samir consegue, com pequenos trunfos, erguer um livro magistral e que transcende gêneros — em todos os sentidos. Homens elegantes, ao contrário o que se possa imaginar é uma obra de nosso tempo, extremamente atual e simbólicos em todas as suas camadas. E, claro, é um livro muitíssimo bem escrito.

 

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Homens elegantes
Samir Machado de Machado
576 págs.
Rocco

 

 

O AUTOR
Samir Machado de Machado
Nasceu em Porto Alegre (RS), em 1981. É autor da novela O professor de botânica (2008) e do romance Quatro soldados (2013). Pela Não Editora organiza a coleção Ficção de polpa, que reúne textos do gênero. Samir é autor do blogue Sobrecapas, a respeito de design gráfico de livros.

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