Ensaios e Resenhas

março 2012 / Ensaios e Resenhas / Poesia e resistência

Texto publicado na edição #143

Poesia e resistência

Os poemas da polonesa Wislawa Szymborska são o lugar de afirmação da sobrevivência do sujeito

> Por LUIZ GUILHERME BARBOSA

A poeta polonesa Wislawa Szymborska

Desde que foi lançado, há alguns meses, o livro de poemas da polonesa Wislawa Szymborska coleciona leitores apaixonados. Sua poesia, que se produziu de 1957 a 2009, parece responder a uma ampla demanda dos leitores contemporâneos, que, de modo geral, buscam poetas que ampliem as preocupações modernas de afirmação pública da poesia no cotidiano de trabalho e salário das grandes cidades. No caso de Szymborska, a poesia é o lugar de afirmação da sobrevivência do sujeito.

“Prefiro-me gostando das pessoas/ do que amando a humanidade”: é no registro da simplicidade e da recusa aos monumentos e emblemas que a poeta prefere gostar a amar, prefere a pessoa ao homem, prefere preferir. A preferência é uma espécie de escolha íntima sobre a qual temos pouco a dizer, pois se enraíza em sensações e afetos inconscientes. Quando afirmamos a preferência por alguma coisa, estamos agindo e, portanto, inscrevendo quem somos no mundo, mesmo que não saibamos exatamente o que nos levou a escolher tal ou tal coisa. Penso que são estas situações tão corriqueiras de invenção de si, diante do risco do esquecimento, da inexistência, que movem a poética da polonesa.

Elas podem acontecer em situações de exceção, como numa guerra, ou de alta civilização. No poema Vietnã, oito perguntas dirigidas a uma mulher são sempre respondidas com um “Não sei”: como se chama, quando nasceu, desde quando está escondida, de que lado da guerra está, etc. Trata-se de alguém que, por medo de revelar ou por desesperança, atravessa um interrogatório — semelhante a uma entrevista jornalística de televisão, rápida e incisiva — como uma mulher sem história, os vínculos com os outros e consigo perdidos, ou suspensos. A não ser pela última pergunta: “Esses são teus filhos? — São.” A respeito de seu nome, de sua origem e da guerra, nada sabe; mas, quanto ao vínculo mais primário de amor e proteção, tudo sabe. Ela sobrevive pelo outro.

No poema Retornos, um homem volta para casa, “estava claro que teve algum desgosto”, deita-se, cobre-se, encolhe-se:

Tem uns quarenta anos, mas não agora.
Existe — mas só como na barriga da mãe
na escuridão protetora, debaixo de sete peles.
Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase
na cosmonáutica metagaláctica.
Por ora dorme, todo enroscado.

Novamente nos deparamos com a pequena narrativa de um anônimo, mas agora, em lugar da mãe, o filho. Na verdade, um pesquisador angustiado, na véspera de uma palestra, que, no momento de crise, é como um feto exilado da barriga da mãe, de extrema fragilidade e, ao mesmo tempo, sobrevivente ao exílio.

É também a sobrevivência da poesia um tema que se repete em Szymborska. Uma poesia que procura resguardar a força de ser anônima, sem abrir mão do reconhecimento. Assim é que ironiza o deslumbramento com a arte numa sociedade que transformou as pinturas e instalações em commodities — “Tem sido de bom-tom há gerações/ ter a obra em alta conta,/ deslumbrar-se e comover-se com ela”. Assim é que ironiza o reconhecimento institucional da poesia numa sociedade que quase não a lê: “ser poeta,/ estar condenado a duras florbelas,/ por falta de musculatura mostrar ao mundo/ a futura leitura escolar — na melhor das hipóteses”. Nestes poemas, o deslumbramento é tão esvaziado — pois é convencional, é “de bom-tom” — quanto as apropriações escolares do poema. Preferir e gostar de poesia são os verbos eleitos para representar uma relação em que o leitor não se coloca inteiro no poema, mas sempre em parte. A poesia é colocada lado a lado dos pequenos afetos, como no poema Alguns gostam de poesia: “Gostam —/ mas também se gosta de canja de galinha,/ gosta-se de galanteios e da cor azul,/ gosta-se de um xale velho,/ gosta-se de fazer o que se tem vontade/ gosta-se de afagar um cão”.

Poesia e sujeito
Este lugar reduzido é o mesmo em que o sujeito encontra sua sobrevivência, de modo que a obra de Szymborska não separa uma crise da outra. É justo quando se encontram — poesia e sujeito — que o poema termina. Essa estrutura se repete em diversos de seus textos, como já vimos em Vietnã. O sujeito é, na maioria das vezes, o suporte dessa poesia.

O poema Recital da autora é exemplar no enfrentamento da crise da poesia como crise do sujeito. Ele, de saída, encena a fala da poeta, num recital, como que pedindo para ser lido em voz alta. (São muitos os poemas em que aparecem diálogos, trechos de falas, ou que brincam com alguns atos de escrita cotidianos, como o de escrever um currículo, aproximando o poema do uso cotidiano da linguagem não só pelo vocabulário ou pela sintaxe, mas também pelo ato de fala: a conversa, a entrevista, o recital, o currículo, etc.) Depois de 16 versos em que, invocando a Musa, enumera, diante dos espectadores que a esperam recitar, imagens da crise da poesia (“Uma dúzia de pessoas na sala”, “As mulheres adorariam desmaiar”, “mostrar ao mundo/ a futura leitura escolar — na melhor das hipóteses”), a poeta encontra, na desatenção de um espectador da primeira fileira, o espaço necessário para começar a leitura.

Na primeira fila um velhinho sonha docemente
que a finada esposa ressuscitou e
assa para ele um bolo com passas.
Com fogo, mas não alto, para o bolo não queimar,
começamos a leitura. Ó Musa.

Quando o poema termina é que a leitura dos poemas, no recital, pode começar. E só depois de encontrar, nesse velhinho e no bolo que ele imagina, o espaço de inserção do poema na subjetividade do outro, esse momento em que o poema em crise, de público reduzido, de decepção emotiva e institucionalizado pelo Prêmio Nobel, encontra um leitor distraído, pensando na vida.

Espanta que existir pareça peça de museu. Que, passeando por um museu de peças cotidianas de outras épocas sem a memória dos gestos e sujeitos — pratos sem o apetite, leques sem os rubores, alaúdes sem o ritual —, o espectador se surpreenda (no poema Museu) com sua sobrevivência diante das coisas: “Quanto a mim, vou vivendo, acreditem./ Minha competição com o vestido continua”. É uma poesia da memória, mas não daquelas reminiscências de uma vida; é uma poesia da memória no sentido da preservação e do arquivamento dos sujeitos. Porque, num mundo com uma quantidade avassaladora de gente, menos espaço há para a circulação subjetiva de cada um. Ao mesmo tempo, essa abundância não interfere no espaço que alguém cria para a própria vida: “Quatro bilhões de pessoas nesta terra,/ e minha imaginação é como era./ Não se dá bem com grandes números./ Continua a comovê-la o singular” (Um grande número).

Em suma, estamos falando de uma poesia que se situa no espaço do testemunho, ou seja, um espaço de hesitação entre a ficção e a autobiografia, entre a arte e o que lhe escapa. Nela, o poema acontece quando não há como decidir entre alguém e a arte. Quando, na arte, não se pode abrir mão de alguém. Principalmente se anônimo e distraído.

A obra de Szymborska pode ser lida como uma resposta, em poesia, ao sistema de aniquilamento subjetivo que se implantou nos campos de concentração, dos quais o mais conhecido, o de Auschwitz, se situava na Polônia, país da poeta. Os sobreviventes testemunham casos de prisioneiros que perdiam a fala, tornavam-se completamente prostrados e, quando não sucumbiam, eram incapazes de narrar o que tinham passado nos campos. Este personagem não aparece na obra da poeta — ao menos nos poemas traduzidos por Regina Przybycien. Os poemas trazem, quase sempre, vestígios das pessoas, como formas de vida que resistem à aniquilação, ao desaparecimento, ao esquecimento. O lugar por excelência destes personagens é aquele que se encontra no poema Impressões do teatro, no qual lemos um elogio daquele momento em que, finda a peça, os atores, ainda vestidos de seus personagens, agradecem ao público. Mais comovente do que a peça é o momento em que se aplaude o ator pelo personagem, em que se aplaude o personagem por seu desaparecimento, em que depois da arte, a vida cotidiana começa a retornar.

A entrada em fileira dos que morreram muito antes,
nos atos três e quatro, ou nos entreatos.
A volta milagrosa dos que sumiram sem vestígios.
Pensar que, pacientes, esperavam nos bastidores
sem tirar os trajes,
sem remover a maquiagem,
me comove mais que as tiradas da tragédia.

Assim como nos comove pensar no verso “Quanto a mim, vou vivendo, acreditem” e lembrar da morte da poeta em 1º de fevereiro passado. Quando morreu, um famoso boxeador polonês, Andrzej Golota, publicou nos jornais um pequeno poema em homenagem. Suas obras completas ocuparam o primeiro lugar de livro mais vendido na Itália. Dois acontecimentos incomuns a poetas. No Brasil, a poeta Ana Cristina Cesar interessou-se e traduziu, junto com Grazyna Drabik, poemas de Szymborska, ainda inéditos em livro.

A antologia recém-lançada ainda traz os poemas em polonês, na metade final do livro, o que, se não serve para engrossar o volume, ao menos faz circular uma língua tão desconhecida por aqui. A orelha, de Nelson Ascher, e a introdução, da tradutora Regina Przybycien, fazem, cada uma, um retrato da obra da poeta — retrato este que, a cada leitor, só pode se multiplicar e se transformar, sempre outro. Uma poeta que mantém os versos inteiros, fazedora de frases surpreendentes e simples, destoa, espanta, interessa. Que o leitor destoe de todas as leituras é o brinde que se pode fazer ao abrir o livro de Szymborska.

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Wislawa Szymborska

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Nasceu na Polônia, em 1923, e morreu no dia 1º de fevereiro de 2012. Recebeu o Prêmio Nobel em 1996 e publicou 12 livros de poesia, além de crônicas em jornais.

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Wislawa Szymborska
Trad.: Regina Przybycien
Companhia das Letras
168 págs.