Dom Casmurro

outubro 2015 / Dom Casmurro / Poemas de William Carlos Williams

Texto publicado na edição #185

Poemas de William Carlos Williams

Poemas selecionados e traduzidos por André Caramuru Aubert

> Por RASCUNHO

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

O poeta William Carlos Williams

O poeta William Carlos Williams

Por meses eu resisti à tentação de traduzir William Carlos Williams para as páginas do Rascunho. Foram dois os motivos principais. Em primeiro lugar, Williams é meu poeta preferido; mais do que isso, eu aprendi a gostar de poesia lendo seus poemas (e também, que se faça justiça, os de Edgar Allan Poe e Wallace Stevens). E o segundo motivo é o fato de as magistrais traduções de José Paulo Paes (publicadas pela Companhia das Letras em 1987) terem estabelecido um patamar tão elevado que me deixaram com medo de encarar a missão. Mas finalmente criei coragem, e o resultado está aqui.

Muito já se escreveu a respeito de Williams, um dos maiores nomes da poesia norte-americana do século 20 e provavelmente o mais influente (nem sempre com bons resultados). Me limito, aqui, a dizer que considero Williams o Mário de Andrade dos Estados Unidos. Enquanto outros dois grandes nomes contemporâneos a ele (Pound, seu amigo, que ele amava; e Eliot, de quem não gostava) atravessavam o Atlântico em busca da respeitabilidade e das influências britânicas e clássicas, Williams ficou buscando, em casa, obsessivamente, uma poesia que refletisse a linguagem das ruas, dos imigrantes, dos operários e das raízes americanas. Isso, é importante ressaltar — assim como no caso de Mário de Andrade —, não era fruto de ingenuidade ou populismo; era um ambicioso projeto estético.

Para esta pequena seleção, eu naturalmente evitei os poemas já traduzidos por Paes (sem grande perda, pois ali estão algumas das mais divulgadas composições de W.C.W., como o Carrinho de mão vermelho e Mulher em frente ao banco), assim como poemas que, segundo identifiquei, já haviam sido traduzidos em blogs e publicações alternativas; ou seja, salvo engano, todos os poemas desta seleção foram vertidos pela primeira vez para o português. Com toda a humildade e o respeito.

 

The new clouds

The morning that I first loved you
had a quality of fine division about it
a lightness and a light full of
small round clouds all rose upon the
ground which bore them, a light of
words upon a paper sky, each a meaning
and all a meaning jointly. It was a
quiet speech, at ease but reminiscent
and of praise — with a disturbance
of waiting. Yes! a page that glowed
by all that it was not, a meaning more
of meaning than the text whose
separate edges were the edges of the sky.

 

As novas nuvens

A manhã quando eu primeiro te amei
tinha uma qualidade de delicada divisão a respeito e
uma leveza e uma luz repleta de
pequenas nuvens todas crescendo sobre o
chão que as criou, uma luz de
palavras num céu de papel, cada uma um significado
e todas juntas outro significado. Foi uma fala
quieta, tranquila mas reminiscente
e de preces — com uma perturbação
da espera. Sim! uma página grudada
por tudo aquilo não era, um significado mais
que significado do que o do texto cujas
pontas separadas eram as pontas do céu.

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A negro woman

carrying a bunch of marigolds
wrapped
in an old newspaper:
She carries them upright,
bareheaded,
the bulk
of her thighs
causing her to waddle
as she walks
looking into
the store window which she passes
on her way.
What is she
but an ambassador
from another world
a world of pretty marigolds
of two shades
which she announces
not knowing what she does
other
than walk the streets
holding the flowers upright
as a torch
so early in the morning.

 

 Uma mulher negra

levando um maço de calêndulas
enroladas
em um jornal velho:
Ela as leva verticais,
sem chapéu,
o volume
das suas coxas
fazendo-a gingar
enquanto anda
olhando para
a vitrine pela qual ela passa
em seu caminho.
O que será ela
se não uma embaixadora
de um outro mundo
um mundo repleto de calêndulas
de dois tons
que ela apresenta
sem saber o que fazer
além
de caminhar pelas ruas
levando as flores bem retas
como uma tocha
na manhã tão cedo.

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The dead baby

Sweep the house
under the feet of the curious
holiday seekers —
sweep under the table and the bed
the baby is dead —

The mother’s eyes where she sits
by the window, unconsoled —
have purple bags under them
the father —
tall, wellspoken, pitiful
is the abler of these two —

Sweep the house clean
here is one who has gone up
(though problematically)
to heaven, blindly
by force of the facts —
a clean sweep
is one way of expressing it —

Hurry up! any minute
they will be bringing it
from the hospital —
a white model of our lives
a curiosity —
surrounded by fresh flowers

 

O bebê morto

Varrer a casa
sob os pés dos curiosos
caçadores de feriados —
varrer embaixo da mesa e da cama
o bebê está morto —

Os olhos da mãe onde ela se senta
junto à janela, inconsolável —
têm sacos púrpura sob eles
o pai —
alto, bem falante, compassivo
é dos dois o mais capaz —

Varrer a casa deixá-la limpa
aqui está alguém que subiu
(ainda que de maneira problemática)
para o céu, cego
por força dos fatos —
uma boa varrida
é uma maneira de expressar —

Apresse-se! a qualquer minuto
eles o trarão
do hospital —
um modelo branco de nossas vidas
uma curiosidade —
envolta em flores frescas

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The return to work

Promenading their
skirted galleons of sex,
the two office assistants

rock unevenly
together
down the broad stairs,

one
(as I follow slowly
in the trade wind

of my admiration)
gently
slapping her thighs.

 

A volta ao trabalho

Passeando suas
saias como galeões do sexo,
duas auxiliares de escritório

balançam desigualmente
juntas
descendo a larga escada,

uma
(conforme eu lentamente
sigo sob o vento alísio

do meu encanto)
suavemente
batendo nas coxas.

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View

The moon
ovoid
in the black press
sits
hugging his knees,
gone with thought
above
the ringed city.

 

Visão

A lua
ovoide
que na prensa negra
senta
abraçando seus joelhos,
se foi com pensamentos
acima
da cidade anelada.

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Winter

Now the snow
lies on the ground
and more snow
is descending upon it —
Patches of red dirt
hold together
the old
snow patches

This is winter —
rosettes of
leather-green leaves
by the old fence
and bare trees
marking the sky —

This is winter
winter, winter
leather-green leaves
spearshaped
in the falling snow

 

Inverno

Agora a neve
repousa no chão
e mais neve
vem caindo sobre ela —
Pedaços de lama vermelha
mantêm unidos
os velhos
pedaços de neve

Isto é inverno —
rosetas de
folhas verde-couro
junto à velha cerca
e árvores nuas
marcando o céu —

Isto é inverno
inverno, inverno
folhas verde-couro
caules brotando
na neve que cai

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Poem

on getting a card
long delayed
from a poet whom I love
but

with whom I differ
touching
the modern poetic
technique

I was much moved
to hear
from him if
as yet he does not

concede the point
nor is he
indeed conscious of it
no matter

his style
has other outstanding
virtues
which delight me

 

Poema

ao receber um cartão
com muito atraso
de um poeta que amo
mas

com que eu divirjo
no tocante
à moderna técnica
poética

eu fiquei muito feliz
por saber
dele, ainda que
até agora ele não

tenha recuado em seu ponto
nem ele esteja
de fato consciente disso
não importa

seu estilo
tem outras notáveis
virtudes
que me extasiam

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She who turns her head

She turns her head
to breathe the morning air
bright April on her
pale face
and yellow hair

Hey look! they turn
from their horseplay
Look! reminiscent of the
night
striking by day

As one who has come
from dancing
half naked under lights
she plucks
her clothes about her
and fights to seem
indifferent before the
overpowering mastery
of this
garish dream

 

Ela que vira a cabeça

Ela vira a cabeça
para respirar o ar da manhã
o abril brilhante em sua
face pálida
e seu cabelo amarelo

Ei, olhe! eles se viram
de sua brincadeira
Olhe! a recordação da
noite
atingida pelo dia

Como alguém que veio
do baile
seminua sob as luzes
ela arranca
suas roupas as joga
e luta para parecer
indiferente diante da
poderosa superioridade
desse
sonho extravagante

>>>

To my friend Ezra Pound

or he were a Jew or a
Welshman
I hope they do give you the Nobel Prize
it would serve you right
— in perpetuity
with such a name

If I were a dog
I’d sit down on a cold pavement
in the rain
to wait for a friend (and so would you)
if it so pleased me
even if it were January or Zukofsky

Your English
is not specific enough
As a writer of poems
you show yourself to be inept not to say
usurious

 

Para o meu amigo Ezra Pound

ou ele era um judeu ou um
galês
eu espero que eles lhe deem o Prêmio Nobel
que lhe cairia bem
— na perpetuidade
com um nome desses

Se eu fosse um cão
eu me sentaria na rua fria
na chuva
para esperar por um amigo (assim como você)
se isso me agradasse
ainda que fosse janeiro ou Zukofsky[1]

Seu inglês
não é suficientemente específico
Como um autor de poemas
você se mostra inepto para não dizer
usurário



[1] Louis Zukofsky (1904-1978), norte-americano de família de origem judia lituana, foi um dos principais poetas do grupo Objetivista (do qual Williams, por algum tempo, fez parte), e que, grosso modo, defendia que o poema fosse tratado mais como um objeto em si do que como uma representação de algo externo a ele. Zukofsky foi um grande entusiasta da poesia de Pound (que também admirava sua obra), e um dos amigos mais próximos de Williams dentro do meio literário.

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