Dom Casmurro

março 2016 / Dom Casmurro / Poemas de Mikhail Liérmontov

Texto publicado na edição #191

Poemas de Mikhail Liérmontov

Mikhail Liérmontov, enfant terrible da literatura russa do século 19, morreu aos 26 anos num duelo

> Por Mikhail Liérmontov

O poeta russo Mikhail Liérmontov

O poeta russo Mikhail Liérmontov

Apresentação e tradução: Pedro Augusto Pinto

Como bem se sabe a respeito do romantismo brasileiro, a influência de Lorde Byron, com o íntimo entrelaçamento de sua vida e de sua obra, seria determinante para toda uma geração de poetas fascinados pelos ideais românticos da solidão, da morbidez, do orgulho titânico e da liberdade desmesurada. A figura prometeica do poeta inglês se faria sentir de maneira análoga nas letras russas, inspirando motivos, enredos e personagens que marcariam presença, em suas reelaborações e desenvolvimento ulterior, até o final do século 19. Basta lembrar do Evguénii Oniéguin, de Púchkin, cujo incorrigível spleen e o caráter sedutor são ironicamente desmascarados como um modismo literário, na cena em que uma de suas vítimas, Tatiana, associa seu comportamento à sua biblioteca, denunciando a superficialidade da moda byroniana de Childe Harold e Don Juan na exata medida em que a reelaborava criticamente.

Caso distinto é o de Mikhail Liérmontov (1814-1841), enfant terrible da literatura russa do século 19, morto aos 26 anos em um duelo, já então considerado o herdeiro legítimo de Púchkin. Para Liérmontov, a obra de Byron não foi apenas uma influência determinante. Foi, talvez, uma obsessão, explicada em parte por fatores biográficos de sua curta vida: órfão de mãe muito cedo, fruto de um casamento repudiado pela aristocrática avó materna, foi afastado do pai e teve uma infância tão cultivada quanto solitária, dedicada ao aprendizado de línguas, música e pintura.

A ausência de convívio humano faria de Liérmontov, assim, um caráter sombrio, sarcástico e intransigente. Natural, portanto, que se identificasse com o individualismo dramático e exacerbado do autor inglês, a ponto de escrever, aos 18 anos, versos com o início Não, eu não sou Byron. A negação obstinada denuncia, paradoxalmente, a confusão entre si mesmo e o autor de sua predileção.

Todavia, apesar de sua curta vida, a admiração não se limitou à imitação, e Liérmontov conseguiu desenvolver um caminho particular e atual para a constelação de temas e motivos que havia herdado do romantismo, então já agonizante. Do orgulho individualista criou uma intransigência moral titânica de enorme expressão literária, tornando-se porta-voz da indignação geral quando da morte criminosa de Púchkin em um duelo, em 1837, com seus versos A morte do poetaO poema, circulando em manuscrito pelos meios palacianos, lhe renderia das mãos do imperador Nicolau I seu primeiro exílio no Cáucaso, paisagem permanente de sua obra, campo de guerra, naquele tempo, entre o imperialismo russo e as diversas populações nativas.

Conjugando suas tendências ao sarcasmo e à morbidez, Liérmontov conseguiu objetivar suas próprias obsessões de maneira irônica e até francamente crítica, de modo a denunciar o modismo romântico ao mesmo tempo em que o usava para atacar a imoralidade frívola da sociedade russa pós-Congresso de Viena.

Exemplo disso é Petchórin, herói de seu romance Um herói de nosso tempo. O título já é em si carregado de ironia, dada a absoluta negatividade da personagem, o que lhe rendeu acusações de conivência e até mesmo de ter feito um autoretrato. “Velha e estúpida piada!”, responderia Liérmontov no prefácio à segunda edição do romance. Na verdade, atrás do que se apresentava como um simples retrato de pessoas de seu convívio se escondia uma colossal crítica a toda a sua geração, apresentada como cínica, covarde e sem qualquer propósito sobre a terra.

Evidentemente, tanto rancor e revolta não poderiam passar impunes, e a própria personalidade de Liérmontov se esforçava, em seu orgulho titânico, em atrair desafetos. Foi assim que, por causa de alguns epigramas cáusticos sobre seu colega oficial Martýnov, acabou sendo finalmente convocado a um duelo e sendo morto, aos 26 anos de idade. Como bom byroniano, mesmo sua morte não poderia deixar de se associar à literatura: além de morrer como Púchkin, morreria na cidade de Piatigorsk, no Cáucaso, cenário de seu romance, num duelo análogo ao descrito no próprio livro.

Dom profético ou farsa deslavada, a morte trágica, anunciada e precoce do poeta é fruto de uma espantosa coerência moral entre obra e vida, tida como fundamental para todos os contaminados pelo spleen byroniano. Ainda assim, seus 26 anos lhe bastaram para tornar-se um dos pilares da literatura russa moderna, tanto na prosa quanto na poesia, figurando ao lado de Púchkin e de Gógol no que se convencionou chamar a “primeira plêiade” da literatura russa do século 19.

O veleiro

Sozinho, alveja o veleiro
Na neblina azul do mar!…
Que busca em chão estrangeiro?
Que deixa atrás em seu lar?…

Dança a onda, o vento chia,
E o mastro balança e estrala…
Ele, ah!, não busca a alegria
Nem parte para deixá-la!

Abaixo, a água azul, violenta,
Acima, o astro ouro e lilás…
Mas, louco, ele quer tormentas,
Qual nelas houvesse paz!

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Pensamento

Com tristeza eu contemplo a nossa geração!
Seu futuro? — Obscuro, ou vão, ou vazio…
E enquanto se farta em sabença e indecisão,
Inerte, mofa por anos a fio.
Mal saídos do berço já estamos cheios
De enganos paternos, de sua mente atrasada,
E a vida já entedia, qual banquete alheio,
Monótona e inútil estrada.
Indiferentes ao bem e ao mal,
Nem começa a labuta e, sem luta, murchamos;
Ante o perigo, vergonhosos, sem moral,
E ante o poder — escravos vis de qualquer amo.
Qual o fruto seco, vindo antes da hora,
Cujo gosto não agrada, cuja cor não atrai:
Pende ele entre as flores, órfão vindo de fora,
E seu instante mais belo — é só o instante em que cai!

Esgotamos a mente com infértil ciência,
Escondendo, invejosos, de amigos e irmãos
A esperança mais pura e a mais nobre consciência
Por receio da surrada paixão.
Mal tocamos a taça da felicidade
Mas não mantivemos nosso vigor;
De cada prazer, por temor da saciedade,
Tragamos de vez o melhor sabor.

Os sonhos da poesia, a imaginação da arte
Não nos levam ao êxtase em sua beleza;
Da emoção que nos resta, aferrolhamos parte —
Um tesouro inútil e enterrado com avareza.
Nós odiamos à toa, e amamos por nada,
Sem qualquer sacrifício à maldade ou ao amor,
E se impõe em nossa alma uma névoa gelada,
Porém, no sangue, há calor.
E entediam-nos as luxuosas travessuras,
A escrupulosa perversão dos nossos pais;
E corremos p’ra cova sem glória ou ventura,
Olhando, esnobes, p’ra trás.

Logo esquecidos pela multidão obscura
Passaremos pela terra sem rastro ou ruído,
Sem ideias férteis para as eras futuras,
Nem trabalho de gênio a ser concluído.
E nosso herdeiro, cidadão e magistrado,
Maldirá nosso pó com versos de chacota,
Com o amargo sarcasmo de um filho enganado
Ante o pai em bancarrota.

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Tédio e tristeza

Tédio, tristeza, ninguém a quem dar a mão
Quando o espírito está em desamparo…
Desejos!… Para que desejar sempre e em vão?
E vão-se os anos — os anos tão caros!

Amar… mas quem? Por um tempo, não vale a pena,
E amar eternamente é impossível.
Vês dentro de ti? Do passado há o pó apenas:
Dores, prazeres, lá é tudo risível…

Paixões, que são? Cedo ou tarde sua doce doença
Some ante a razão e sua voz fria;
E a vida, vista com atenção e indiferença,
É só uma piada estúpida e vazia.

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1.
Não, não és tu quem eu amo tanto assim,
Teu brilho e encantos não me dizem nada:
Eu amo em ti certa mágoa passada
E o tempo de moço, já morto em mim.

2.
Quando olho p’r’o teu rosto por um instante,
Lançando, em teus olhos, olhar profundo:
Ocupam-me conversas de outro mundo,
Mas meu peito fala com alguém distante.

3.
Falo com a amiga de um tempo passado,
Em teus traços busco outros, diferentes,
Nos lábios vivos, lábios já silentes,
Nos olhos, chamas de um olhar apagado.

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Guardo — sim, nos separamos —
O teu retrato em meu peito:
Qual visão dos doces anos,
Com ele sempre me deleito.

E entregue às paixões e ao tempo
Minha alma não o esqueceu.
Tal como a ruína — ainda é templo,
E a estátua caída — ainda é Deus!

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Não, não sou Byron, sou outro, aquele
Ainda desconhecido eleito,
Pelo mundo caçado, qual ele,
Com alma russa, apenas, e peito.
Fui mais cedo, cedo hei de acabar,
Minha mente fará quase nada;
Em minha alma — um enorme mar —,
Jaz um fardo de esp’ranças quebradas.
Quem poderá, ó mar nevoento,
Os teus segredos revelar? Quem
Dirá à turba os meus pensamentos?
Eu — serei Deus, ou então ninguém!

o tradutor
Pedro Augusto Pinto

É graduando em História pela FFLCH (USP) e aluno do Curso Formativo de Tradução Literária da Casa Guilherme de Almeida. Vive em São Paulo (SP).

 

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