Dom Casmurro

março 2016 / Dom Casmurro / Poemas de Leandro Jardim

Texto publicado na edição #191

Poemas de Leandro Jardim

Leandro Jardim é autor de "Todas as vozes cantam" e "Peomas"

> Por Leandro Jardim

O poeta carioca Leandro Jardim

O poeta carioca Leandro Jardim

Céu à mesa

A cabeça erguida
e um entorno de construções
de baixas estaturas
nos dá dimensão
da altura do céu

(devolve-o à cidade,
como um entre nós).
Nos apresenta também
suas textura e idade.

Ser de humores que é,
está mais pálido hoje,
embora cinza eu o veja.
Um velho à beira da noite.

Faço, então, um convite
pra que se sente comigo.
Temos climas parecidos.

Ofereço uma cerveja,
mas ele prefere um vinho.
Eu pago, logo. E calo,
me basta ouvi-lo.

Entretanto, ele sussurra
em ventos de volume tão baixo,
e chora lágrimas tão serenas,
— ainda que frias —
que não o ouço.

Mas é por isso que me comovo.

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Mundo alienado de mim

És a gaivota que canta
A natureza alheia das coisas

E o edifício de concreto
Erguido noutro século

És o silêncio das árvores
Acomodadas ao vento

E o passo dos velhinhos
Veloz através do tempo

És o frio imperceptível
No audível murmúrio de tudo

E o mais que ainda me escondes
Mundo alienado de mim

És a sombra no chão que esquenta
E o esquecimento acima de tudo

O choro do meu filho
E alguma paz que surpreende

És o trigo a negar o joio
E o joio a despeito disso

O poema que atravessa
O que nunca se pensou

O que mais ainda me escondes
Mundo alienado de mim?

Esquecido da minha existência
Não sabes, mundo, quem eu sou

É daí que não me exiges glória
E me liberto de tua vã regência

Não me obrigas mais à gravidade
Nem à consciência sã da finitude

E daí me faço todo o resto
Das coisas que também não percebes

Me torno a fala do objeto inanimado
A vida das ideias jamais postas em papel

A ruidosa ausência do estrondo
E a chama no oceano profundo eu sou

Me pode um chapéu vestir o ventre
E dele saberei parir a soma equívoca

Serei, pois, tudo que de ti escapa
Mundo alienado de mim

Serei, pois, tudo que em ti não se entende
Mundo alienado de mim

E o que mais ainda assim me escondes
Mundo alienado de mim

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A outra face

Eu sou a face
Face à face
Da vitória
Mas sou derrota e liberdade
Autonomia
Em meio à farra de excluídos
Eu me incluí
Do feto à foice
Ou pelo instante de uma festa
Onde encarei
Frente a frente
O rosto maleável
E severo da verdade

Que me mentiu solenemente.

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Queremos?

Ensinam-nos
A nos perguntar
A nós mesmos
E sobre nós:

Queremos
Realmente
Isso? É isso
Realmente o que
Queremos?

E talvez riam
Ou torçam por
Nós ou por suas
Preventividades

Mas querem
Realmente
Isso? É isso
Realmente o que
Querem?

Prevenir-nos
Confirmar-se
Confinar-nos
Ao que não passe?

Ou que não cesse
E que pelo não
Se tome, como
A uma prece?

Queremos
Realmente
Isso? É isso
Realmente o que
Queremos?

Apartar-nos
Do que não vemos
Só porque não
Sabemo-nos

A nós, nem
A nosso futuro
Ou passado, tiram-nos
até o que é

Mas querem
Realmente
Isso? É isso
Realmente o que
Querem?

De nós, para
Nós, por nós,
Dos nossos
Nós e sóis?

A sós ou em
Dois ou mais
Ou além, depois
Do que já se foi?

Talvez

Queiramos
Inevitavelmente
Isso. Isso
De sabermos
O (que) queremos.

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Um prédio que some

Um prédio que some
Quase em curva
Por trás de outro prédio
Como se dobrasse
A esquina
Quase em fuga

Um edifício partindo
Com suas toneladas
De concreto decorado
E fundações profundas
Que aponta para o longe
Aponta um horizonte
Que ele mesmo esconde

Um amontoado em si
De residências fixas
Com a leveza de uma criança
Que amadurece
Sem perceber
E cresce para o distante
Noutro lugar

Uma construção singular
Como essa — pelo menos
Desse ponto
De vista —
Nos fala muito pouco
Estática, exibe apenas
Uma beleza daquelas
Tão belas
Que não se entende como pode

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Janelas de Copacabana

Uma flor de plástico
Em que pela distância
Eu vi um leitor
Sua figura atenta e debruçada
Sobre a escrivaninha
Sem nunca virar uma página

E mais abaixo o cão
Sua cabeça triangular
Que se movimentava
Num jeito alegre-afoito
Indo e vindo tanto
Que se revelou um ferro
Passando roupa pela manhã

Havia outros enfeites estáticos
E animais menos ariscos
Havia pessoas até
Que se confundiam mais ainda
Com a paisagem

E sob nossos pés passavam
Estrondos e carros
Transeuntes tristezas cigarros
Misérias trabalhos enfados
Que nos enganavam

>>>

sabe o que te dizem?

aguenta, te dizem
te dizem: aguenta
e continuam a dizer
é nada, poderia
ser pior, não vê
é fraqueza chorar

aguenta

que passa
o tempo passa
as águas passam
estancam-se feridas
passa a dor, vem outra
é disso a vida
saber aproveitar
o que se tem
e o que é que tem
demais nisso?, perguntam
vaticinam

aguenta, passa

e não responda
isso não dizem
mas sugerem
em silêncio sugerem
não questione, não
rebata ou argumente
sugerem
em silêncio

escuta, aguenta, passa

e nós? nós

escutamos
(podemos gritar
um pouco durante)

e aguentamos
(porque o contrário
é o despedaçar-se
e preferimos seguir
de pé) e de pé

passamos

mas e nós? (nós?

não perguntamos)

>>>
Tampouco

Poderia ser pior, te dizem,
poderia
ser bem pior.
Esteja feliz, portanto,
insistem,
seja feliz
(por tanto).

Não é o pior, isso,
vê, nem mesmo
é piorzinho. Reconheça,
assim é o mundo,
basta olhar à volta.
Tampouco, claro, é o desejável,
ou confortável isso,
eles sabem.

Mas se não tens
o trágico, regozije-se!
É quase uma festa,
te dizem, a iminência
da tragédia.

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