Ensaios e Resenhas

novembro 2019 / Ensaios e Resenhas / Perdido na floresta

Texto publicado na edição #conteúdo on-line

Perdido na floresta

Como o diplomata e escritor Ary Quintella encontrou o romance de estreia de Grégory Le Floch em uma “concept store” parisiense

> Por Ary Quintella

 

Dans la forêt du hameau de Hardt

Dans la forêt du hameau de Hardt
Grégory Le Floch
Editions de l’Ogre
151 págs.

 

Em setembro, no último sábado de verão, eu estava de férias em Paris. Fazia calor e o sol brilhava. Minha filha e o namorado tinham vindo, de Bruxelas, passar o fim de semana comigo. Depois de visitar a exposição Bacon en toutes lettres no Beaubourg, caminhamos pelo Marais. A exposição havia sido uma decepção. Seu objetivo, mostrar como a obra de alguns autores prediletos de Francis Bacon influenciara sua pintura, era ambicioso e não fora concretizado. Na rua, eu nunca vira tanta gente. Havia ao meu redor um clima de alegria, criando contraste com as figuras atormentadas na pintura de Bacon.

De repente, minha filha parou frente a uma vitrine. Logo depois, o namorado e eu entrávamos atrás dela na loja, um corredor comprido. O nome do lugar era À Rebours, pertencente, notei, à fundação cultural Lafayette Anticipations, mantida pelo grupo que controla as Galeries Lafayette.

Olhei à minha volta, surpreso. O recinto continha, em um cabide pendurado no teto, uma enorme camisa de homem, costurada como uma colcha de retalhos, com tecidos de diferentes cores; em um canto, um pufe branco com desenho preto representando talvez um ser humano; em um balcão, algumas bijuterias; em outros balcões, vasos e potes de vidro e de cerâmica. Não sei se havia muito mais do que isso. O ambiente era elegante, mas eu não entendia o que a loja vendia. Perguntei à minha filha onde estávamos. Ela respondeu: “Em uma concept store”. É bem provável que eu jamais tivesse antes ouvido o termo. Vendo meu ar de incompreensão, ela emendou: “Papai, você entra em uma concept store para entender a ideia de quem a organizou, captar uma tendência, não para comprar alguma coisa”. Fui salvo pelo meu olhar que, distraído, percebeu em uma parede uma estante de madeira muito clara onde havia livros. Aproximei-me. Com uma exceção, eram volumes sobre artistas, viagens, natureza, decoração.

A exceção era um romance de 142 páginas, intitulado Dans la forêt du hameau de Hardt, com uma capa sedutora, de fundo branco, em que folhas — de que apenas o contorno era verde — encobriam em parte as letras do título. Havia sido lançado em janeiro.

Nem o autor, Grégory Le Floch, nem a editora, Éditions de l’Ogre, diziam-me qualquer coisa. Enquanto minha filha e o namorado, mergulhados em seu universo a dois, dialogando, examinavam objetos de cerâmica, folheei o livro. Rapidamente, ele capturou minha imaginação. Havia um mistério, a morte de um personagem. Havia alguém em crise emocional. O estilo era peculiar e cativante. Quis comprá-lo. Preconceitos arcaicos, porém, apoderaram-se de mim. Aquilo não era uma livraria; portanto, livros vendidos ali não podiam ser levados a sério. Não me ocorreu pensar que eu não entendia o conceito de concept store e que, possivelmente, a presença do livro ali dava a ambos, loja e romance, uma aura adicional.

Um livro pode ser como um remédio, de que precisamos para sobreviver, para curar uma doença.

Saímos. Prosseguimos com nosso passeio. No domingo, acordei pensando nas linhas que eu lera na véspera, em uma ou outra página do romance. Durante o dia, e também na segunda-feira, tentei comprá-lo. Não consegui. Cada livreiro pesquisava no computador e me dizia que eu encontraria Dans la forêt du hameau de Hardt nessa ou naquela outra livraria, mas nenhuma ficava perto dos diferentes lugares aonde eu pretendia ir.

Surgiu em mim grande frustração. Um livro pode ser como um remédio, de que precisamos para sobreviver, para curar uma doença. Estou sempre em busca do livro que resolverá tudo na minha vida; que, ao ser lido, eliminará qualquer problema e a sensação física de uma carência. Esses livros, na verdade, existem. Estão por toda parte. Aparecem inesperadamente em nossas vidas. Há muito de acaso nisso; no entanto, ao lê-los temos a sensação de que, a partir dali, vamos viver de forma idílica, pacífica, satisfeita. Sentimos que aquele era o elemento que faltava; a partir de agora estaremos completos. Pode ser por causa da história como um todo, por causa da perfeição de uma frase, por causa da apresentação gráfica. Pode ser também por uma fantasia, uma projeção que fazemos sobre aquele volume, sem muito entender a razão. Se é um livro de não ficção, pode ser porque trata de um tema de interesse profundo para nós, sobre o qual nova luz é jogada. Seja qual for a razão, o remédio faz seu efeito. A questão é que essa é uma sensação apenas temporária. Deixamos de tomar o remédio, e o corpo sente sua falta. Logo precisaremos encontrar outro livro.

Na terça-feira, meu último dia em Paris, fui de manhã a uma de minhas livrarias prediletas, a Delamain, na place Colette, em frente à Comédie-Française. Eles não tinham o romance de Grégory Le Floch, mas indicaram o lugar mais próximo onde eu poderia encontrá-lo, uma livraria chamada Petite Égypte. Lá pude ir apenas no final da tarde. Entrementes, eu almoçara com um amigo, professor na Sorbonne, e tentara inutilmente comprar o livro no Quartier Latin.

Achamos que conhecemos bem uma cidade, e ela nos surpreende sistematicamente. Jamais eu ouvira falar que, em pleno 2ème arrondissement, há um canto conhecido como Petite Égypte — cercado pela rue du Nil, a rue du Caire e a rue d’Aboukir —, que dá seu nome à livraria. Esta, por sinal, é excelente. A livreira mostrou-me um exemplar de Dans la forêt du hameau de Hardt. Perguntei se ela o tinha lido. Respondeu que não, mas comentou gostar muito dos títulos publicados pelas Éditions de l’Ogre.

Paguei o livro e saí. Estava atrasado. Tinha entradas para a Ópera, sala Bastille, onde assistiria a uma produção inovadora de Les Indes Galantes. No metrô, percebi que eu gastara o dia em Paris atrás de um livro. Senti que valera a pena. O próprio fato de eu ter conseguido comprá-lo, depois de tanto esforço, tornava o mundo um lugar mágico. Segurá-lo nas mãos dentro do vagão do metrô era a cura para a doença que ele próprio criara, a necessidade de lê-lo.

No dia seguinte, no voo de volta para o Brasil, mergulhei na prosa de Grégory Le Floch.

Na história, o protagonista — por meio de uma menção casual, sabemos que ele se chama Christophe — viajando pela Calábria, dez anos antes, vira morrer um amigo, Anthony. Desde então, Christophe mora na aldeia de Hardt, na Alemanha, em frente a uma floresta. Lá refugiou-se para escapar do interesse da imprensa francesa e do público pela morte violenta de Anthony, da qual chegou inclusive a ser apontado como possível responsável.

Christophe não é propriamente o narrador. Lemos o relato de alguém, nunca identificado, que nos conta o que, por sua vez, ouviu de Christophe. O romance é todo construído em torno à dificuldade do protagonista em narrar o que aconteceu na Calábria. Apenas nas últimas páginas ouviremos os detalhes. Ou, ao menos, a família de Anthony ouvirá, pois Christophe, defrontado com o fracasso de sua tentativa de construir um relato escrito, pega o carro e vai a Dunquerque revelar a história à família do amigo.

Ao longo do romance, os pormenores são revelados gradualmente. De vez em quando, aprendemos um pouco mais sobre os personagens ou sobre a morte no centro da narrativa. No entanto, o elemento principal — como morreu Anthony — é ocultado até o final. Quando dele tomamos conhecimento, o choque é enorme. O texto, que até então gerava suspense psicológico, nos últimos parágrafos provoca sensação de terror.

A fala de Christophe, sua voz tal como transcrita pelo narrador, é hipnótica, estruturada sobre repetições obsessivas. As frases, longas e vertiginosas, têm um efeito encantatório: “à beira dessa estrada na Calábria, quando Anthony me fez parar o carro nessa infame estrada na Calábria, assim que ele viu, nessa infame estrada da Calábria…”. Christophe tenta há anos escrever um ensaio sobre Thomas Mann, que é classificado quase sempre, quando seu nome aparece, como “o escritor supremo”. Há um trecho em que a expressão surge quatro vezes em poucas linhas.

Os fatos principais do enredo são eles próprios repetidos incessantemente e, de repetição em repetição, vão surgindo detalhes novos. A personalidade inquietante de Christophe — não sabemos se ele é apenas de uma timidez doentia, ou um verdadeiro néscio, ou se sofre de distúrbios psicológicos — forma a base de um texto que trata, ostensivamente, da dificuldade de narrar, de escrever, de falar, de compartilhar pensamentos e histórias. Relatar o que presenciou na Calábria representaria para Christophe uma morte mental: “meu espírito não sobreviveria à narração daquela história […] essas palavras me matariam, não literalmente, eu já disse, mas me matariam mesmo assim definitivamente”.

A floresta, símbolo usual do inconsciente, do que precisa ser trazido à tona, é um dado importante. O próprio cenário da morte de Anthony, fonte do terror que paralisa Christophe, é associado a uma floresta: “nós íamos por essa estrada na Calábria, ladeada por cactos atrozes, grandes como árvores, por agaves e por palmeiras igualmente atrozes”. Na aldeia de Hardt, a floresta é para ele uma fonte de ansiedade, uma ameaça.

A certa altura, Christophe recebe uma visita, que se hospeda em sua casa por dez meses. A própria orelha do livro revela tratar-se da mãe de Anthony, então não estrago aqui surpresa alguma do leitor. Para Mme Jouve, que procura Christophe há dez anos para ouvir dele a verdade, a floresta é algo positivo. Na floresta, ela passeia todos os dias. Ganha com isso serenidade, e sua presença dá a Christophe ânimo para tentar escrever o relato do que aconteceu na Calábria. Ele se surpreende com o fato de Mme Jouve ter chegado à aldeia sem livro algum. Acredita nunca ter passado um dia sequer da vida sem ler e pergunta-se sobre a possibilidade de que haja muitas pessoas, como Mme Jouve, que podem viver sem livros. Introduzida sem ênfase particular, essa preocupação de Christophe é na verdade crucial. De um lado, temos a mãe enlutada, que não lê e cujo cérebro se acalma graças à floresta. De outro, há o literato perturbado emocionalmente, cujo conhecimento livresco não facilita sua comunicação com outros seres humanos.

Quando Christophe está prestes a terminar a redação de seu relato, Mme Jouve decide regressar a Dunquerque, mesmo sem ter obtido nenhuma informação sobre a morte do filho. Acalmada, ela pode agora partir, e diz a Christophe: “As minhas feridas cicatrizaram-se, graças à floresta”. Basta ela abandonar a casa, que a aflição de Christophe retorna. Surge novamente, como acontecera no caso do ensaio sobre Thomas Mann, a impossibilidade de terminar qualquer texto.

A angústia de Christophe atinge um paroxismo. Sente que morrerá, se não for a Dunquerque fornecer a Mme Jouve os detalhes sobre a morte de Anthony. Ele decide contar o que viu quando Mme Jouve encontrou a paz e já não precisa de sua história. Chega à casa e encontra a família toda reunida, por motivos não muito claros. A sua narrativa à família do amigo, que conclui o romance, é construída como uma cena de teatro.

A fala final de Christophe lembrou-me uma das tiradas mais célebres do teatro francês, le récit de Théramène. Em Phèdre, a peça mais famosa de Racine — embora não a minha predileta — Teseu exila o filho, Hipólito, acusado injustamente pela madrasta, Fedra, de ter tentado seduzi-la. Teseu, cegado pela raiva, não percebe que na verdade é Fedra quem ama Hipólito. O deus Netuno, acolhendo o desejo de vingança de Teseu, lança contra o príncipe um monstro marinho, na estrada à beira-mar pela qual partia para o exílio. Não vemos em cena a morte de Hipólito; ouvimos, junto com Teseu, detalhes de como ela se deu, por meio da narrativa de Théramène, seu preceptor e amigo.

A família de Anthony, plateia de Christophe, reagirá à sua fala aterrorizante, devemos imaginar, com o mesmo estupor com que Teseu e o público de teatro reagem ao relato de Théramène. São várias as semelhanças: a viagem à Calábria também começa à beira do mar, mas a morte de Anthony se dá, como no caso de Hipólito, em terra firme; manchas de sangue no chão indicam a Christophe, como a Théramène, onde estão os corpos de seus amigos; embora Anthony seja homossexual, sua morte se dá no dia em que se envolve com uma mulher, assim como Hipólito morre por ser amado por Fedra.

Tal qual o ator que abandona o palco após uma fala dramática, Christophe deixa a casa ao concluir seu terrível discurso. Nas últimas duas ou três linhas do texto, observa um detalhe banal, um gato urinando. Presumivelmente, sua personalidade mudará; ficará menos arisca.

Christophe pôde, depois de dez anos de sofrimento, narrar a sua história. Venceu seus temores. Encontrou-se. Libertou-se.

Print Friendly