Atrás da estante

novembro 2011 / Atrás da estante / Palavras na brisa noturna

Texto publicado na edição #126

Palavras na brisa noturna

  No livro As boas mulheres da China, da escritora e jornalista chinesa Xinram, há, entre tantas histórias impressionantes, uma […]

> Por CLAUDIA LAGE

Xinran: a escritora deixou a China para publicar seu livro

 

No livro As boas mulheres da China, da escritora e jornalista chinesa Xinram, há, entre tantas histórias impressionantes, uma que começa antes do livro, que atravessa as páginas e inicia em uma rua londrina deserta e escura, com a própria autora. É uma história dentro da história: Xinram mora em Londres desde 1997, quando saiu da China por uma missão de sobrevivência literária. Em seu país natal, seria impossível publicar o livro que desejava escrever baseado em relatos de mulheres chinesas vítimas de abusos, repressões e violências diversas. Aliás, não era somente impossível publicar aquelas histórias, como também falar sobre elas. Xinram fora proibida pelo governo de comentá-las em seu controverso programa de rádio, em Pequim, Palavras na brisa noturna. O programa era um sussurro em meio à pesada escuridão que cobria e escondia a vida de tantas mulheres chinesas. Em uma China que iniciava a abertura ao Ocidente, as tragédias permaneciam silenciadas.

Há quem diga que, para um escritor, ter uma história para contar e ser, de alguma forma, impossibilitado disso, equivale à sentença de morte. E Xinram não tinha apenas uma, mas muitas histórias. Londres surgiu então como esperança e resistência. Lá, encontrou editora para As boas mulheres da China, mas antes de a jornalista chinesa assinar o contrato e entregar o original, voltamos ao início dessa história, ou à história dentro da história: Xinram saiu uma noite de uma aula, e entrou numa rua londrina deserta e escura.

Como fazem a maioria das pessoas ao se depararem com o silêncio e a solidão à espreita, ela apressou o passo. Quando se aproximou da esquina, que dava para uma rua mais movimentada, voltou a andar mais tranqüilamente, certa de que o perigo terminara. Por um instante, chegou a pensar na sua infância na China, onde seus pais foram presos durante a Revolução Cultural. Afastada da família, ela e o irmão passaram a viver em um quartel da Guarda Vermelha. Lembrou das noites em que ouvia outras crianças serem espancadas no quarto ao lado, enquanto o seu corpo tremia de pavor e frio, certo de que em breve seria a sua vez. Ao chegar à rua movimentada de Londres, pensou nas várias faces que tem o medo. A que a aterrorizava quando menina, a que a fazia agora cruzar com passos rápidos as ruas londrinas. Mas foi exatamente no instante que seu corpo desarmava, que sua mente experimentava um breve alívio, que seu coração acalmava como uma criança tranqüila e segura, que sentiu um baque na cabeça, e a próxima imagem que viu foi a de si mesma caída no chão.

Era um assalto, compreendeu, e instintivamente segurou com força a sua bolsa, iniciando uma inusitada luta com o homem que a assaltava. Mãos fortes a sacudiam, tentavam arrancar a bolsa que ela escondia sob seu corpo, virando-se de costas, ao mesmo tempo que tentava chutar o ladrão, que era fortemente chutada, que gritava, que pessoas se aproximavam, que o homem era cercado, a polícia chegava, e enfim o rendiam.

Quando se levantou, ajudada por alguém, olhou para o assaltante que entrava no carro da polícia. Era um homem de quase dois metros, corpulento, olhar surpreso e enfurecido. Aquele homem não esperava de uma mulher tão pequena uma resistência tão grande. Xinram apertou a bolsa contra o peito, trêmula com a própria coragem. Naquela tarde, antes de ir para a Universidade de Londres, onde lecionava, pôs dentro de sua bolsa o único original de seu livro As boas mulheres da China. Havia escrito o livro à mão, e, por isso, não tinha cópias. O fato é que carregava na bolsa o seu manuscrito único e solitário, com o intuito de rever algumas passagens na biblioteca da universidade. Quando compreendeu que estava sendo assaltada, agiu por instinto, como devem fazer os animais ao defender suas crias. A sorte dela é que o homem não estava realmente armado, como anunciava. Ou a sua fúria ao defender a bolsa, de certa forma, o desarmou.

Um dos policiais se aproximou de Xinram, impressionado por sua reação. Não entendia por que ela havia arriscado a vida por uma bolsa. Xinram então falou de seu livro, impressionando mais ainda o policial. Um livro é mais importante do que a sua vida?, ele retrucou. Olhava-a como se fosse uma louca, sem noção do peso e da medida de cada coisa. Mas não era a questão de ser mais importante, Xinram sabia. Como, entretanto, explicar ao policial? No instante em que reagiu, não era uma mulher de um metro e sessenta que enfrentava um homem de quase dois metros. Naquele instante, não era isso que contava. Enquanto chutava o homem e era chutada por ele, tinha apenas um pensamento. Talvez fosse mais um sentimento. Havia deixado a China para escrever e publicar aquele livro. Um livro que falava da experiência desoladora, muitas vezes trágica, de mulheres que viviam sob o totalitarismo político, que era, como se imaginava, devastador sobre as relações humanas. Estupros consentidos pelo poder militar, violência doméstica, casamentos forçados, aprisionamentos, torturas, entre outros casos calamitosos que se somavam à própria história pessoal de Xinram, igualmente triste. No segundo em que reagiu, pensava no imenso esforço emocional que teria para escrever tudo novamente. Foram dois anos dando corpo e voz a mulheres que muitas vezes não entendiam o próprio sofrimento, que, muitas vezes, eram vítimas sem o saber. A escrita do livro tinha sido uma experiência profunda e dolorida para Xinram. Simplesmente, não poderia passar por ela de novo. Mas, não havia saída, porque, do mesmo modo, aquele livro simplesmente tinha que existir. “Xinram, você deve escrever sobre isso”, lhe dissera antes um velho amigo chinês, “escrever cria uma espécie de repositório, abre espaços internos que nos ajudam a conciliar pensamentos e sentimentos. Se você não escrever, essas histórias vão sufocar o seu coração, asfixiá-lo até a morte”. Como então explicar ao policial que, entre as duas mortes, a que lhe oferecia o assaltante era a que, instintivamente, menos a assustava? Deve ter sido esse o seu sentimento ao resistir ao assalto e ao segurar a bolsa, como se estivesse nela, e não em si mesma, a sua vida.

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