Ensaios e Resenhas

dezembro 2011 / Ensaios e Resenhas / O universo na Chapada

Texto publicado na edição #124

O universo na Chapada

Era um tempo em que a prosa brasileira passava por uma transição. Ainda não chegara de maneira definitiva à urbanidade, […]

> Por MAURÍCIO MELO JÚNIOR

Era um tempo em que a prosa brasileira passava por uma transição. Ainda não chegara de maneira definitiva à urbanidade, nem tinha de todo se afastado do campo. Vivia a responsabilidade de ser filha dileta do realismo social dos anos 1930, mas também absorvia o impacto formal da poética da geração de 45. E ainda se deu, em 1956, do diabo se soltar num redemunho e criar novas estéticas com o lançamento de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Enfim, os autores surgidos entre as décadas de 1950 e 1960, como Hermilo Borba Filho, José J. Veiga, Dalton Trevisan e Osman Lins, movidos por essa esteira, chegaram para dar nova cara à literatura, afastando-se de maniqueísmos pré-fabricados para mergulhar na alma do homem comum.

O romancista Ricardo Guilherme Dicke desembarca com intenso vigor neste porto. Estreou no início da década de 1960 com Caminhos de sol e lua. Seu segundo romance, Deus de Caim, lançado em 1968, chegou com a chancela do mais importante prêmio literário do país à época, o Walmap, que teve como jurados Guimarães Rosa, Antonio Olinto e Jorge Amado. O texto ficou em segundo lugar no concurso ganho por Oswaldo França Júnior, com o romance Jorge, um brasileiro. A terceira edição de Deus de Caim, que acaba de sair pela Letra Selvagem, no entanto, demonstra que o livro, apesar de alguns exageros narrativos, não perdeu o vigor jovial de um olhar frio e implacável sobre uma sociedade que buscava os caminhos mais torpes para chegar à modernidade.

Na rede Lázaro. Zumbidos. O irmão morto na rede. O mundo rodeando sua roda indiferente. As moscas voavam lentas e pousavam na cara dele. Não se importava, Lázaro morto, narinas paradas. Todos os telégrafos diziam: Lázaro morreu e vai ser enterrado. Para sempre. Antigamente, diziam, havia a ressurreição. Agora não. Agora a sombra que abandona este reino de sombras, caminha para sempre só, num outro reino de sombras ainda mais solitárias. Só, como um rei perdido, só, sem reinado, na essência redonda da morte.

A abertura impactante do romance já demonstra que Ricardo Dicke sabia muito bem manejar os requisitos da sedução e envolver o leitor em uma trama com tudo para se tornar banal e até óbvia. Lázaro namorava Minira, por quem seu irmão Jônatas se apaixona e tenta estuprar. Daí decorrem as intrigas básicas da narrativa que se estende para além do minúsculo Pasmoso, um lugarejo na Chapada dos Guimarães. Os irmãos são as sobras do lado pobre de uma família, os Amarante, e vivem isolados. Depois da peleja entre eles, Jônatas foge para Cuiabá em busca de apoio da banda rica dos Amarante. Ferido, se trata sob os cuidados de um primo, Isidoro, que ainda jovem se tornara paralítico. Casado com Rosa, Isidoro ama a cunhada Cecília, que também o ama. Nesse emaranhado de amores impossíveis, Ricardo Guilherme Dicke reconstrói uma sociedade profundamente marcada pelos prazeres exagerados e as torturas, também extremas, da morte e das dores.

Quebra de ritmo
Ao longo do texto surgem constantes exageros filosóficos, descrições imensas sobre vertentes culturais. Isso quebra, amiúde, o ritmo do romance e pode até cansar o leitor mais apressado. Naturalmente, tudo está bem incorporado ao contexto da obra. As longas discussões do Grego com Cirilo Serra sobre literatura, filosofia e religião, num primeiro momento, aparecem como uma inútil necessidade do autor demonstrar suas leituras, mas, na verdade, estão ali para estabelecer os parâmetros religiosos e culturais que permeiam toda a narrativa. O mesmo se dá com as longas reflexões de Isidoro sobre música clássica e poesia.

Aliás, vale a pena atentar para os personagens secundários da obra. O delegado “quixotético” Coronel Vitorino do Espírito Santo parece uma daquelas figuras saídas da prosa picaresca de José Cândido de Carvalho. Cirilo Serra é um misantropo que, isolado na Chapada dos Guimarães, lê Camus no original, além de tantos outros clássicos, e desenvolve fantásticas elucubrações filosóficas. O Grego, ex-seminarista e estudante de medicina, encontra no sertão do Mato Grosso a paz que catou mundo afora. Rosa é a devassidão encarnada, traindo o marido e vivendo de futilidades. Cecília a moça encantadora que secretamente se reserva para o cunhado que ama.

Com exceção do núcleo pensante do sertão — Lázaro, Minira, Cirilo e Grego —, Deus de Caim se arma como um romance sem heróis, onde todos pecam contra todas as regras morais, religiosas ou mesmo sociais. Não há perdão nem consciência para ninguém. Ao contrário, existe uma sociedade apodrecida e doente. Rancores, ódios, ciúmes, invejas, deslealdades, falsidades, todos os componentes de todos os habitantes do inferno dantesco circulam pelas páginas do romance.

É claro que muitos outros romances trataram de sociedades similares. O que chega então de novidade para garantir a sobrevivência de Deus de Caim? Primeiramente o texto em si. Como o trecho inicial aponta, há um inquietante vigor nesta narrativa. Ela se desenvolve entre reflexões profundas, passagens picarescas e descrições apuradas das cenas. Recheia-se de devassidões, com incontáveis episódios de sexo, e ainda com grandes pontos de violência, aliás, características marcantes da atual literatura. No entanto, como uma revivência da teoria cristã, do Deus de Caim, tanto o sexo quanto a violência geram dores e marcas inapagáveis. A ninguém é dado o direito do prazer puro.

Fica assim uma caminhada do autor em direção à universalidade. Ou seja, o homem carrega em si — no sertão do Mato Grosso ou em Paris — o carma que lhe foi imposto já na perca do paraíso. Adão e Eva, como ensinou Milton, não perderam o paraíso de maneira isolada e individual. Ele foi tirado de toda a humanidade, e daí todo o desespero e insatisfação que rondam o homem em constante busca de um prazer inexistente.

Esta condição de insatisfeito perene leva o homem criado por Dicke aos extremos da ambição. E mais uma vez são os pecados e suas conseqüências que ditam as ações. O homem aqui é algo perdido para sempre. Vive num beco sem saída e os legados da esperança são nulos. Uma tragédia que vem sendo escrita desde um tempo anterior a gregos e romanos.

Dicke apenas abre as feridas todas da culpa cristã e desenha um mundo podre. E aí está a indiscutível atualidade e até juventude de seu livro. Somos ainda espelhos destes ensinamentos milenares e deles não nos apartamos nunca, mesmo vencendo oceanos e chapadas.

Deus de Caim é um caleidoscópio de linguagens. Fala em vários tons e isso o torna um grande romance. Numa outra ponta, conta uma história envolvente, e isso o alinha com a necessidade do prazer da leitura. Finalmente, numa espécie de terceiro vértice do triângulo, leva o leitor à reflexão, e isso é literatura pura.

Print Friendly

RICARDO GUILHERME DICKE

ricardo_dicke copy

Nasceu na Chapada dos Guimarães (MT), em 1936, e morreu em Cuiabá, em 2008. Escritor e artista plástico, licenciou-se em filosofia e trabalhou como jornalista e professor. Entre seus livros estão Como o silêncio (1968), Caieira (1978), Madona dos Páramos (1981) e Toada do esquecimento & sinfonia eqüestre (206).

O inferno e o céu de Dante, o Nirvana de Buda, o Jardim de Alá, o paraíso de Lao-Tsé, o valhada dos germânicos, o Tuonela dos finos, o céu de Brahma e Vichnu, só existem dentro dos miolos dos feiticeiros que os imaginaram. O que há é esse limbo suspenso, onde todos os mortos, desde os últimos antropóides semipensantes até os mais recentes homo-sapiens mortos, passeiam sem pressa e sem aparente finalidade, apenas guiados por essa réstia de espera imponderável sem tempo.

deus_de_caim_grande

Ricardo Guilherme Dicke
LetraSelvagem
400 págs.