Ensaios e Resenhas

dezembro 2016 / Ensaios e Resenhas / O número 174517

Texto publicado na edição #200

O número 174517

As perguntas de Primo Levi continuam sem resposta, mais relevantes do que nunca

> Por VIVIAN SCHLESINGER

Primo Levi autor de O ofício alheio

Primo Levi, autor de O ofício alheio

Ao descer de um vagão após cinco dias sem água e sem saber para onde ia, Primo Levi viu pela primeira vez os portões de Auschwitz. Era fevereiro de 1944. O jovem italiano judeu, químico de profissão, então com 24 anos, tinha “pouco juízo, nenhuma experiência, e a propensão, encorajada pelas leis raciais, para viver em um mundo quase irreal povoado por honestas figuras cartesianas”. Seu reduzido conhecimento de alemão, suas feições e estatura delicada não prenunciavam vitória naquele ambiente.

Ao emergir, um ano mais tarde, escreveu o mais importante relato do inferno inconcebível até para Dante. Como foi possível para Levi escrever sobre Auschwitz do modo que fez, uma voz calma, imparcial, quase sem corpo? Que tipo de homem faria isso por nós, e o que isso lhe custou?

Primo Levi começou a escrever Se questo è un uomo (É isto um homem?, Rocco, 2013), relato do que presenciou nos meses que esteve no campo de concentração, assim que conseguiu voltar à sua casa, em Turin. Movido pela necessidade científica de compreender a si próprio e aos outros, e ainda mais de contar, ser ouvido e acreditado, produziria uma série de obras literárias difíceis de categorizar mas de extraordinário valor universal. Tudo parece haver germinado de um pesadelo recorrente, seu e de muitas outras vítimas, que os torturava em suas noites de aprisionamento nos campos de concentração. Sonhavam que voltavam às suas casas, e com alívio descreviam seus sofrimentos, mas seus queridos não acreditavam no que ouviam, ou nem os escutavam.

Os judeus italianos tinham ainda menos elementos do que outros para compreender o que se passava. Presentes na Itália desde 135 a.C., sentiam-se eminentemente italianos, e assim eram vistos pela maioria da população. As referências culturais de Primo Levi eram Dante, Pavese, Melville e Conrad, e não a literatura judaica em si. Também não falavam ídiche, idioma próximo ao alemão, que teria possibilitado ao prisioneiro comprender os comandos dos nazistas.

Na verdade, até esse momento (das leis raciais), o fato que eu era judeu não havia significado muito para mim. Eu mesmo, e entre meus amigos cristãos, sempre considerei minha origem um fato curioso mas quase despercebido, uma pequena anomalia, como sardas […]

Dos 8 mil judeus italianos deportados para Auschwitz, menos de 400 voltaram, em parte atribuído à sua incomunicabilidade. Primo Levi, no entanto, rapidamente se refez do choque cultural de Auschwitz: percebeu que o conhecimento do alemão poderia significar a sobrevivência. Passou a “trocar” com outro prisioneiro parte da ração mínima que recebiam por aulas de alemão. Ao mesmo tempo preservou suas fundações internas: em um exercício de sanidade, desafiou-se a reconstituir mentalmente os versos do Canto 26 do Inferno de Dante, até que pudesse recitá-lo por inteiro. Ao explicar A divina comédia a Jean, um prisioneiro francês, Primo Levi se dá conta que as palavras transcendem:

Considerate la vostra semenza:
fatti non foste a viver come bruti,
ma per seguir virtute e conoscenza.

(considere a semente que lhe fez nascer: você não foi feito para viver como os brutos, mas para seguir a virtude e o conhecimento)

Viver para contar
Ao pronunciar esses versos em voz alta, Levi diz “sentir que os ouve pela primeira vez, como um soar de trombetas, ou a voz de Deus. No espaço de um instante, se esquece de quem é e onde está”. O poder da palavra é maior do que as trevas que o cercam. Logo começa a registrar em palavras tudo que observa. Viver para contar, e então, contar para viver.

Em 1958, onze anos após sua publicação, É isto um homem? começou a receber a atenção que o consagraria. Passou a fazer parte do cânon universal. Seu valor vai muito além de um relato. Levi tomou para si a responsabilidade de narrar o inenarrável, de buscar explicações — acreditando, como homem de ciência, que para tudo há uma explicação, ou várias — o que faz apenas levantando perguntas difíceis. Nesse livro, demonstra que pior do que assassinar um homem é destruir sua humanidade e a dignidade que a precede. Ao mesmo tempo, demonstra que é possível preservar a humanidade, até em Auschwitz. Os vilões aí não são os assassinos, mas aqueles que tratam pessoas como objetos, como o Kapo Alex, que limpa o barro de suas mãos no ombro de Levi, como se ele fosse um trapo. Os heróis de É isto um homem? são pessoas como Lorenzo Perrone, pedreiro que arriscava sua vida para dar a Levi um pouco mais de sopa todos os dias. A epígrafe desta obra, o poema Shema (pronuncia-se shemá, “ouça” em hebraico), é um grito de alerta contra a indiferença à tortura por que passaram aqueles que morreram por um sim ou um não. O título e a última estrofe referem-se à prece central na liturgia judaica.

À medida que era convidado a dar palestras, Primo Levi percebeu que seu medo de não ser ouvido nunca iria desaparecer, mas não desisitiu. Em 1963, quase 16 anos após lançar seu primeiro livro, publicou La tregua (A trégua, Companhia de Bolso, 2010), as memórias dos longos meses entre a liberação do campo e seu retorno a Turin. Poucos anos mais tarde publicou contos de ficção científica de cunho ético e filosófico, um livro de poemas, livros de contos, e uma autobiografia, um dos livros mais originais do século 20, no qual utiliza a química como metáfora para suas memórias.

Sua poesia não é tecnicamente ambiciosa, mas expressa a atmosfera soturna de angústia e raiva que perseguem o sobrevivente. Os personagens de seus contos são baseados no que viveu durante e após a guerra, sem poupar-lhes a vergonha do sobrevivente, tabu absoluto até então. Seu estilo, de uma simplicidade desconcertante, a prosa racional, sotto voce, e a pureza ao destilar as piores toxinas humanas, renderam-lhe, a partir do segundo livro, inúmeros prêmios literários, traduções a dezenas de idiomas, versões de cinema e teatro. Mas isso não mudou em nada a forma com que via seu trabalho. Na famosa entrevista concedida a Philip Roth em 1986, assim o descreveu:

Meu modelo (ou se você prefere, meu estilo) foi o do “relatório semanal” normalmente usado nas fábricas: precisa ser preciso, conciso, e escrito em uma linguagem compreensível a todos na hierarquia industrial. E certamente não deve ser escrito em jargão científico.

Ele próprio não se fazia justiça. Produziu dois romances muito diferentes entre si: um cuja marca é a oralidade, e outro em que a marca é o humor sutil. Ambos foram muito além do “relatório semanal” de fábrica, em forma e conteúdo. Segundo o autor, haviam três motivos para escrever esses romances: primeiro, descobrir se era capaz; segundo, derrubar a falácia de que o judeu é um estudioso humilhado, incapaz de se defender, que tolerou séculos de perseguição sem revidar; e por último, acalentar a ambição de ser o primeiro e talvez o único autor italiano a descrever o mundo ídiche, que aprendera a respeitar em seus anos de martírio. O homem que não parava de aprender não deixava de se desafiar.

Primo Levi, no entanto, rapidamente se refez do choque cultural de Auschwitz: percebeu que o conhecimento do alemão poderia significar a sobrevivência. Passou a “trocar” com outro prisioneiro parte da ração mínima que recebiam por aulas de alemão.

O sucesso mundial entre leitores de toda a hierarquia literária já bastaria, mas Primo Levi escrevia para derrotar a “guerra contra a memória”. Em 1985, lançou O ofício alheio (Editora Unesp, 2016), uma coleção de ensaios publicados no jornal La Stampa, uma ode à fascinação pelo raciocínio científico em todos os assuntos. “Invadindo o ofício alheio” era como se referia a esses textos curtos sobre tudo, de viagens espaciais a durabilidade dos besouros e fobias de cobras e aranhas, de reflexões do efeito do LSD sobre a capacidade das aranhas de tecer teias à dor do primeiro amor. Em As borboletas, Levi comenta a adaptabilidade dos insetos:

[…] correm, voam, saltam e nadam, e souberam se adaptar a quase todos os ambientes do planeta; que num cérebro que pesa uma fração de miligrama souberam acumular a arte do tecelão, do ceramista, do mineiro, do envenenador, do caçador, da enfermeira […]

A síntese confere intensidade, as analogias são precisas, as imagens poéticas estão a serviço da investigação científica; a palavra não é manipulada em meros truques de linguagem. Até a sonoridade é convocada (correm, voam, saltam e nadam é praticamente uma olimpíada oral). Levi não perde oportunidade de criticar a artificialidade, o pseudo-sofisticado, como em O ar-congestionado:

A acqua portabile [água portável] contém um implícito ato de acusação contra os violentadores da linguagem. Já que o verbo latino potare (“beber”) em italiano não existe mais, por que a burocracia do século passado exumou esse termo obscuro? Não bastava acqua da bere [água de beber], que era até mais curto? Daí decorrem a incompreensão e a sensata correção: a acqua portabile é aquela que chega à sua casa por meio de um entregador, sem nenhum esforço de sua parte.

A amplitude mostra a importância da formação científica em sua vida de escritor. Há preciosos relances de seus hobbies, do autor como pai, jogador de xadrez mediano, agudo leitor de romances e esforçado aluno de idiomas, mas os esboços autobiográficos são discretos e fragmentados. A gravidade e a linguagem convidativa envolvem o leitor; a variedade o surpreende. Por um lado, a simplicidade da crônica; por outro, a atemporalidade do ensaio. As frases que fecham a coletânea carregam desencanto e desafio em igual medida:

 Nosso futuro não está escrito, não é certo: levantamo-nos de um longo sono e vimos que a condição humana é incompatível com a certeza. […] Nós é que devemos construir o futuro.

A edição da Unesp começa com um ensaio de Italo Calvino, no qual salienta alguns dos ensaios mais “primolevianos” e aponta que “os objetos mais representados no volume são as palavras e os animais”. A tradução de Silvia Massimini Felix mantém o equilíbrio entre a objetividade e abstração, essencial em se tratando de Primo Levi. Além dos ensaios, há uma nota biográfica e fortuna crítica de Ernesto Ferrero, crítico literário de Turin, que resume: Levi não invade o campo dos outros, como ele diz, e sim, aventura-se com competência no ofício alheio.

Tormento físico e psicológico
Poucos meses depois deste, Primo Levi publicou Os afogados e os sobreviventes — Os delitos. Os castigos. As penas. As impunidades. (Paz & Terra, 2016). Era o ano de 1986, mais de quatro décadas após a liberação de Auschwitz, e Levi continuava a desafiar a frase Ne pas chercher à comprendre, entalhado por um prisioneiro em sua vasilha de sopa. Queria entender por que alguns sobreviveram enquanto outros pereceram, explicar a tragédia do genocídio aos jovens de hoje e a memória seletiva dos prisioneiros e nazistas. Nesses ensaios, ele procura alguma lógica por trás da maneira com que eram realizadas as seleções e do que motivava os guardas a criar, com método e intenção, os meios para causar tormento físico e psicológico.

Em O intelectural em Auschwitz, Levi analisa o papel pouco conhecido até hoje da intelligentsia judaica no campo, que às vezes se encarregava de punir os kapos violentos ou de recompensar os que se arriscavam para proteger prisioneiros. Aborda o papel da educação na reação ao horror rotineiro: o que seria mais importante, compreender ou não? E quanto à fé, o dia a dia no campo era menos terrível para os religiosos ou para os agnósticos? Cartas de alemães apresenta mensagens enviadas a Primo Levi. Em off, uma voz diz ao leitor que a maioria escreveu essas cartas na esperança de expiar seus pecados ou de seus familiares e não movidos por remorso. Basta ler as manchetes de hoje para saber que pouco mudou.

O ensaio mais importante, por sua contundência, coragem, permanência, é A zona cinzenta, sobre as circunstâncias contagiantes onde vítimas são tentadas a se tornarem cúmplices das atrocidades cometidas contra elas. Os sonderkommandos, prisioneiros que eram obrigados a trabalhar nos fornos crematórios, tinham o destino mais cruel, segundo Primo Levi. Faziam o que era necessário para sobreviver mais alguns dias e ninguém tem a autoridade moral de julgá-los. Habitavam uma zona cinzenta entre as vítimas a quem nem mesmo uma hora a mais era concedida, e os nazistas, inteiramente indiferentes ao sofrimento humano. Julgar, jamais — porém é essencial entender que as responsabilidades individuais dos membros de cada grupo são muito diferentes entre si.

O amor à ciência e o treinamento como químico explicam a determinação de Levi para analisar, mesmo nas mais dolorosas condições, o que observou. Os textos revelam a urgência interior de enfrentar a vida após Auschwitz, porém quanto mais mergulha na mente e alma dos torturadores e torturados, mais distante fica a compreensão, e mais inevitável parece a maldade. É compreensível que os ensaios de Os afogados e os sobreviventes tiveram tão longa gestação: sua gênese o assombrou por décadas. Poucos meses após sua publicação, em profunda depressão, Primo Levi se atira (ou cai) escada abaixo. Suicídio ou acidente, nunca saberemos, mas reconhecemos hoje a letalidade da depressão. Sobreviveu — e portanto derrotou — os nazistas, mas afogou-se na depressão.

O custo da vitória sobre os nazistas está na angústia silenciosa, o medo de não ser ouvido ou de não acreditarem, em meio à prosa aparentemente serena de Primo Levi, nas entrelinhas da lógica de seus argumentos. Subjacente a isso tudo, a culpa, mãe de todos os silêncios. Ao dar voz aos afogados, Levi se pergunta, e nos pergunta, quem são, então, os sobreviventes? Por que se salvaram? As hipóteses que oferece são de uma honestidade brutal: “Nós, sobreviventes, […] somos aqueles que, por prevaricação, habilidade ou sorte, não tocamos o fundo”. Escapa a Levi a hipótese mais sólida, de que sobreviveram porque eram mais fortes, menos suscetíveis a doenças, fisiologicamente mais tolerantes ao frio, à infecção ou à fome.

A tradução de Luiz Sérgio Henriques, fiel ao original em tom e semântica, está enriquecida por notas nas quais nomes ou expressões, um dia amplamente reconhecíveis, não mais o são, particularmente para os jovens, a quem Primo Levi dedica a maior parte de seu trabalho. A tradução conserva a fluidez da narração enquanto mantém as expressões em alemão, ídiche e polonês, conforme foram incluídas pelo autor. O que falta, e não por tradução mas possivelmente por decisão editorial, é a epígrafe do livro original, do poema de Samuel Taylor Coleridge, Rima do antigo marinheiro: “E desde então, em hora incerta/o coração em mim arde”. Essas linhas assumem intensidade maior no contexto dado por Primo Levi, de alguém que sofreu “um destino pior do que a morte”, testemunhar a dor e morte de seus companheiros, e por isso precisa contar, sempre, na tentativa civilizada e justa de entender o bárbaro e injusto, a “negligência bestial”.

Levi tomou para si a responsabilidade de narrar o inenarrável, de buscar explicações — acreditando, como homem de ciência, que para tudo há uma explicação, ou várias — o que faz apenas levantando perguntas difíceis.

Capacidade de síntese
Ao falecer, em 1987, Levi trabalhava em um livro que chamaria de Il doppio legame (A ligação dupla), de ensaios bastante pessoais, diferentes do tom narrativo e do analítico anteriores. Não conseguiu terminar, mas dez anos após sua morte, Marco Belpoliti organizou a edição das Opere (Obras), textos de 1955 a 1987 que estavam dispersos por jornais, revistas, periódicos e prefácios. No Brasil, a Editora Unesp publicou boa parte desses textos em A assimetria e a vida (trad. Ivone Benedetti, 2016). Mais uma vez, é assombrosa a diversidade e capacidade de síntese de Primo Levi. O livro divide-se em dois grupos: um sobre o tema do campo de concentração e o outro são temas variados — literários, científicos, históricos, incluindo memórias e comentários ora mais pessoais, ora mais objetivos. A “ligação dupla” de químico e escritor, judeu e universal, prisioneiro e senhor de sua mente, que respira o ar do passado mas quer o oxigênio do futuro, fica patente nessa coletânea. Capaz de fazer novas perguntas todos os dias, Levi nunca considerou ter as respostas, e nos obriga, ainda hoje, trinta anos após sua morte, a meditar sobre o que aconteceu, e a repeti-lo a nossos filhos.

Quando os nazistas tatuaram o número 174517 em seu braço com a intenção de destruir sua identidade, causaram exatamente o contrário. O número serviu para lembrá-lo do homem que era, que não foi feito para viver como os brutos, mas para seguir a virtude e o conhecimento. Perdeu a guerra contra a depressão, mas venceu a guerra contra a memória.

 

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O ofício alheio
Primo Levi
Trad.: Silvia Massimini Felix
Editora Unesp
289 págs.

 

 

 

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A assimetria e a vida
Primo Levi
Trad.: Ivone Benedetti
Editora Unesp
304 págs.

 

 

 

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Os afogados e os sobreviventes
Primo Levi
Trad.: Luiz Sérgio Henriques
Paz & Terra
167 págs.

 

 

 

 

O AUTOR

Primo Levi
Foi um químico italiano judeu, escritor e sobrevivente do Holocausto. Autor de romances, contos, ensaios e poemas. Sua obra mais conhecida, É isto um homem?, é o relato do ano em que passou como prisioneiro em Auschwitz. Já O sistema periódico, de 1975, é considerado um dos melhores livros científicos de todos os tempos. Levi faleceu em 1987 após  queda de uma escada, do terceiro andar no prédio onde viveu toda sua vida, em Turin. Foi considerado oficialmente um suicídio, mas é possível que tenha sido acidental. Deixou um legado único, universal, de humanidade e memória.

 

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