Dom Casmurro

agosto 2015 / Dom Casmurro / O cavaleiro de pernas curtas

Texto publicado na edição #184

O cavaleiro de pernas curtas

Conto inédito de Ivone Benedetti

> Por IVONE BENEDETTI

Ilustração: FP Rodrigues

Ilustração: FP Rodrigues

 

Quando os pratos chegam (linguado com batatas e açorda com camarões), ela já fala há alguns minutos de um velho manuscrito português. Ela, minha ex-aluna, nascida no Jardim São Luiz, periferia de São Paulo, de onde fugiu agarrada a uma bolsa de estudos, mais ou menos como o pequeno príncipe às aves de arribação. Assim dependurada, atravessou o Atlântico e aterrissou às margens do Douro. De onde, repetiu hoje três vezes, não tem a intenção de voltar.

Diz ela que o manuscrito está sendo avaliado. Foi descoberto há dois anos durante a reconstrução do altar-mor de uma pequena igreja de Évora. É uma crônica-missiva de um frade a um fidalgo da região de Estremoz, e seu conteúdo pretendia ser a história de dois ancestrais deste último, um tio-bisavô e o próprio bisavô. O frade se propõe relatar fatos ocorridos no ano da graça de 1358, portanto vinte e três anos antes da revolução que — destaca o religioso — evitou a entrega daquelas terras aos castelhanos.

Esses fatos históricos são todos conhecidos, o destinatário existiu, sua família foi ativa na revolução. O frade parece que também. Pertencia ao Mosteiro de Nossa Senhora da Azambujeira de Fonte Arcada, era um homem de pobre vida, e com aquela crônica talvez esperasse conseguir algum mecenato, porque ao que tudo indica tinha pendores literários. Comparações filológicas e outras sugerem a possibilidade de serem dele uns poemas anônimos à Virgem, encontrados há 200 anos em Évora.  Afirma a dedicatória da crônica recém-descoberta que com ela seu autor atende a um pedido do fidalgo de Estremoz, e que para a tarefa não se sente tão competente quanto o julga o valeroso senhor. Seguem-se as costumeiras alabanças ao nobre e reiterados protestos de fidelidade e disposição de prestar todos e quaisquer serviços que sejam do agrado e da necessidade de tão alta fidalguia. Tudo dentro do habitual, com exceção talvez das desculpas que ele pede com insistência, por ser obrigado a narrar não só altos feitos, mas também muitas agruras, como se sofrer fosse a sina de alguns. No caso, trata-se do tio-bisavô do fidalgo, e seus sofrimentos são em grande parte decorrentes de um aleijão “que mais incompreensível se afigura porquanto posto pela vontade do ser perfeito que nos criou a todos num corpo que abrigava uma alma nobre e caridosa”. E, enquanto pode evitar, não diz qual era esse aleijão, numa perfeita técnica de folhetim. Mas nem só de reveses será feita a narrativa — ele avisa —, pois a solução definitiva de história tão melancólica foi obra do bisavô do fidalgo de Estremoz, ao qual “cabem todos os louvores conhecidos e mais alguns porventura não alcançados pelos pobres dotes [do missivista]”.

Algumas coisas despertam dúvidas nos estudiosos: se a crônica foi escrita para um nobre de Estremoz, por que nunca saiu de Évora? Outro motivo de perplexidade é a identidade do ancestral infeliz. Nunca ninguém ouviu falar de Vasco Castrinho de Alarboão, e muito menos se admite que houvesse algum conde de Redondo antes que D. Manoel I concedesse esse título a Vasco Coutinho em 1500. É intrigante a proximidade entre os nomes Vasco Castrinho de Alarboão e Vasco Coutinho, mas o frade data sua missiva de 1425, portanto 75 anos antes da criação do condado e do conde propriamente conhecido pela História. A data 1425 parece provável, de acordo com os estudiosos, embora sempre haja uma margem de imprecisão, e Gisleine (assim se chama essa que quase se esquece da açorda enquanto fala) não quer se estender nos detalhes técnicos da datação, com medo de me entediar. Prefere explorar os muitos paradoxos históricos do documento. Por exemplo, na hipótese de ele ser posterior a 1500, teria sido uma temeridade afrontar, com o nome de um usurpador prévio, a vontade régia e a ira de um conde devidamente consagrado e empossado. Outro motivo de discussão é a exata geografia dos fatos. Segundo Gisleine, a toponímia usada pelo frade quando cita dezenas de vilas e concelhos também não bate, ou bate só em parte, pois há lugares que ele põe a noroeste do centro urbano de Évora e na verdade se situam a sudeste, enquanto algumas distâncias parecem excessivas. De tal modo que muitos concluíram que o frade de Évora traça um mapa mental especular, talvez mesmo com a intenção de despistar. Assim, mudando-se para a direita o que ele põe à esquerda, e para o sul o que ele põe ao norte e vice-versa, é possível ter uma visão mais realista das coisas.

Enfim, buscando verificar esses dados, os estudiosos estão deixando de divulgar o conteúdo do documento. Para evitar especulações desnecessárias, é o que dizem, mas, se a veracidade da história não for comprovada segundo os moldes científicos modernos, o texto no mínimo pode valer como uma bela peça de ficção. E, afinal, o que mais é a História?

E Gisleine limpa os lábios com um guardanapo vermelho, toma um gole de vinho. Eu, dependurada dos sons daqueles lábios, como ela de sua bolsa de estudos, espero a continuação dilacerando um pobre linguado.

Diz o frade que as propriedades do pai de Vasco Castrinho de Alarboão (e aí ele dá detalhes das origens, com nomes que abrangem três gerações, alguns comprováveis) se estendiam por grande parte da região situada entre “Évora e vossos senhorios e mais além” (ou seja, entre o que se conhece hoje por Évora e Estremoz), sendo suas terras famosas pela “abundância e fartura, por produzirem tudo o que nelas se plantasse ou criasse, pois a bondade e a virtude de seu senhor eram reconhecidas por servos, criados e até escravos mouros, que trabalhavam com diligência para a grandeza dele e do reino”. Mas tanta ventura findou em 1348, quando o conde se foi desta vida, sob os golpes da peste que afligiu toda a Europa. E o frade acrescenta que o conde foi duas vezes vencido pelo mal pestilencial: a primeira quando, enfraquecido pela doença, perdeu para um vizinho pró-castelhano uma batalha em que se mostrava superior; a segunda quando a doença lhe ceifou a própria vida. Mas, antes de entregar a alma, quis a vontade divina que ele voltasse para casa, e em certa tarde de um domingo de outubro do infausto ano, já muito derreado, com cancros negros por todo o corpo, chegou carregado por uns poucos soldados que o deixaram com os guardas do castelo (e devia ser um castelete — comenta Gisleine) e logo partiram apressados, alguns em busca de alívio para os primeiros sintomas do mesmo mal, outros pelo medo de acabarem daquele jeito miserável.

Vasco, o filho, mal teve tempo de ouvir as últimas palavras do pai, as únicas que ele lhe dirigiu naquele derradeiro dia: “toma as rédeas deste senhorio e casa-te com a filha de Fernão Fernandes Vidal, nosso vizinho e amigo, conforme prometido e confirmado quando ela nasceu”. E morreu.

Vasco tinha dez anos.

Mas a vil doença, escolhendo sem preconceitos suas vítimas e atingindo com igual severidade ricos e pobres, nobres e plebeus, agressores e agredidos, meses depois levou para o outro mundo também o inimigo do conde, com pelo menos um efeito benéfico: a trégua naquela guerra infame. Mas para aquela família o que se seguiu foi muito danoso, pois ali se acumularam infortúnios diversos, “como se fosse da ordem natural das coisas que a mal nunca se some algum bem”. Porque, não bastasse terem morrido inestimáveis amigos, parentes, aliados, soldados; não bastasse o empobrecimento geral pela falta de braços para a lavra e a defesa das terras; não bastasse a perda de colheitas para salteadoras de toda laia; não bastasse tudo isso, com o passar do tempo se acentuava um estranho fato, para o qual o conde pai já atentara, sem poder explicar, muito menos sanar, e esse fato era que o jovem conde, à medida que crescia e ganhava corpo no tronco e nos braços, parecia perder comprimento nas pernas.

De modo que, em 1358, com vinte anos, a deformidade estava mais agravada. E o casamento tinha dado em água de bacalhau (assim se expressa agora Gisleine). Não que a condessa tivesse deixado de apresentar o documento firmado pelos dois varões, com a disposição de cumprir todas as formalidades exigidas, dentro daquilo que lhe permitiam as minguadas riquezas remanescentes, mas é que, por crueldade da sorte, à proporção que o conde se afeava, a prometida se aformoseava e era cobiçada por diversos varões das redondezas, entre os quais ninguém mais, ninguém menos que o filho do mesmo nobre senhor pró-castelhano que outrora tinha o mau costume de depredar as terras do conde-pai-falecido-na-peste. De modo que, entre um conde nanico e empobrecido e um senhor robusto e enriquecido, a família do vizinho e amigo Fernão Fernandes Vidal preferiu aliança com a robustez e a riqueza. Ignoraram-se os atos formais, pois a uma viúva e a um nanico ninguém se achava no dever de dar satisfações, e as pompas do casamento com o outro, o robusto, foram alardeadas por todo o reino, para humilhação do pobre Vasco e consternação perene da mãe, que a partir de então nunca mais gozou de juízo pleno, entregando-se dia e noite ao ato de fiar, no que era ajudada por uma sua velha e fiel escrava moura. “Como se, a não poder fiar nos homens, não pudesse parar de fiar, solitária e muda” — diz o frade.

E aos poucos Vasco Castrinho de Alarboão começou a ser conhecido como “o cavaleiro de pernas curtas”, pois administrava os bens que lhe restavam percorrendo suas terras no lombo de um vistoso palafrém douradilho descendente dos mais belos garanhões do reino, com que seu pai tivera o privilégio de fazer cruzar suas éguas, um dos remanescentes de uma rica cavalariça, escolhido a dedo para ficar entre os poucos (ainda) não vendidos a fidalgos mais afortunados ou mesmo a algum plebeu remediado que aparecesse com bons reais na algibeira. E todos sabiam que no palafrém ele montava (e apeava) por via de uma escadinha, e que a sela e os arreios tinham sido expressamente moldados para seu corpo anômalo. As noites, porém, eram muito solitárias, e ele as passava num grande salão, de onde podia ouvir o canto monótono da roca da mãe no aposento ao lado, horas depois que a escrava moura já se tinha recolhido.

Mas eis que o fidalgo que lhe roubara a noiva, não contente com o que já tinha — “porque é da natureza dos cobiçosos não se satisfazer jamais” —, decidiu completar o que o pai tinha começado e invadiu de vez as terras do nanico rival. Postou seus homens acintosamente em pontos vitais, ocupando moradas já meio derruídas, pilhou viçosas messes, desviou rebanhos e impediu que os servos entregassem ao legítimo senhor a parte avençada dos frutos de seus trabalhos.

Então o cavaleiro, asfixiado, com o próprio sustento em risco, abandonou sua natural resignação, resolveu reagir. Palafrém digno de batalha ele tinha. Contava também algumas centenas de homens dedicados, dispostos a morrer pela honra de seu senhor (pois esses sempre aparecem, por mais desesperada que seja a causa). Tinha a armadura do pai, ou melhor, a parte de cima dela, que lhe servia quase sem ajustes (desde que ele engordasse em bocadinho), mas não tinha a de baixo, que aquela era grande demais. E então se lembrou com saudade e desamparo do dia em que o pai lhe dissera, um ano antes da malograda batalha e da malfadada peste, que encomendaria ao melhor artesão de Milão uma armadura feita sob medida para o filho. Intenção que nunca se realizou. E não só essa. Tinham sido tantos os infortúnios, que o cavaleiro aceitara o desvanecimento de todos os sonhos, negligenciara os bens morais e assistira à perda dos materiais sem reação nem pranto, como um sonâmbulo. Mas naquele momento era preciso agir. Em jogo estava sua própria honra e a de seus ancestrais, coisa abstrata que sempre assenta em algo bem concreto, no caso suas terras. Portanto, só lhe faltava a armadura.

Ilustração: FP Rodrigues

Ilustração: FP Rodrigues

Recorreu à mãe. Perguntou onde ela guardava os reais que o pai lhe deixara, mais as joias, mais uns haveres recebidos com as colheitas e safras generosas de vinho que tinham conseguido extrair de suas vinhas nos últimos anos. A mãe apontou um cofre sobre a arca, o cavaleiro foi lá e achou reais de prata, não tantos quantos imaginava, mas não achou as joias, de que a mãe nem se lembrava. E não houve como recordá-la, pois a palavra joia tinha sumido de sua cabeça junto com a presença do objeto. O cavaleiro achou também o retrato da irmã mais velha, que tinha partido para a França antes da peste, casada com um fidalgo poderoso, numa das melhores transações jamais feitas pelo pai. E se recorresse ao fidalgo francês?

— Pô, mas só aí ele se lembrou da irmã? — interrompi.

— Pode ser que sim. Ou pode ser que o frade não ousasse dizer ao nobre de Estremoz que seu bisavô, apesar dos apelos do cunhado, nunca se dignou dar um pulinho em Évora, porque devia estar muito ocupado com assuntos mais rentáveis. Enfim, sei lá… Continuando. Ele nem sabia se o cunhado estava vivo. E, se estivesse vivo e disposto a ajudar, poderia eu — pergunta-se o fidalgo pela voz do frade — resistir enquanto ele atravessa todas as Espanhas? Fosse como fosse, recolheu os reais da mãe, juntou os seus, chamou seu ex-camareiro, agora magarefe em Avis, e o pôs a par de seus planos. Mas o que o ex-camareiro lhe disse foi um balde de água fria. Aqueles reais não comprariam nem meia armadurazinha no pior artesão de Milão. Poderiam, sim, pagar nalgum dos artesãos da região uma reforma da armadura do velho guerreiro-morto-de-peste. E ainda sobraria troco: ele mesmo conhecia um bom ferreiro em Évora que… enfim, que podia encurtar coxotes e grevas da armadura do senhor-seu-pai-que-Deus-o-tenha.

O cavaleiro, naturalmente resignado, resignou-se de novo e decidiu empregar uma parte de seus haveres na reforma da armadura pelo tal ferreiro. Separado o valor necessário, entregou uma parte maior ao ex-camareiro-agora-magarefe, para que ele fosse pessoalmente transmitir um pedido de socorro ao cunhado francês, nobre senhor de grande poderio e glória, guerreiro denodado e até cruzado, descendente de valentes destruidores da heresia do catarismo na região de Carcassonne.

O magarefe saiu com os reais e nunca mais voltou. O conde ficou à espera da armadura. Que não veio, e não se sabe se nunca viria ou se não houve tempo hábil para a entrega. Sabe-se que o infeliz fidalgo morreu dentro de seu castelo, em meio ao incêndio que os homens do rival atearam quando já tinham vencido todas as resistências e alcançado o último reduto. Pereceu, diz o frade, tentando salvar a mãe, ali posta a fiar, sempre a fiar, alheia às chamas que lhe chegavam à porta. O rival levou tudo o que sobrou, até o palafrém.

O frade conclui melancolicamente que o fidalgo foi traído pelo magarefe. Mas nem disso se tem tanta certeza, pois se sabe que um ano após a tragédia chegou à região um mensageiro de certo conde francês, vindo de Carcassonne, com uma mensagem de seu senhor: ele queria negociar com o conquistador a entrega daquelas terras à esposa, legítima herdeira de tudo, na santa paz de Deus, como convém a todo cavaleiro cristão. O rival do cavaleiro nanico, porém, não se sentiu tocado pela generosa oferta, e o conde francês, como resposta, arregimentou em poucos meses gente de armas em tão grande número que, enfileirados, seus homens formavam uma muralha de ida e volta entre Évora e Estremoz. Não restou ao adversário senão a alternativa de render-se e retirar-se daquelas terras, e delas o carcassonês tomou posse, restabelecendo a antiga pujança. Etc. etc.

Linguado e açorda terminados, estamos na nata do céu. Gisleine pensa alto: o frade ficou tempo demais na triste figura do nanico e foi muito sucinto nos feitos do herói, ascendente direto de quem supostamente lhe encomendou a crônica. Por quê? Porque os episódios infelizes condiziam mais com a natureza melancólica e compassiva do autor, e ele esquecia que as histórias dos fracassados têm o dom de tapar os ouvidos e fechar os olhos dos leitores, talvez num movimento de autodefesa? Ou tinha demorado demais na primeira parte e lhe faltava tempo e ânimo para a segunda? De qualquer modo, nunca enviou a crônica, que termina de repente, parecendo sem arremate. Talvez tenha achado que em troca de uma narrativa tão chorosa não iria mesmo conseguir proteção. Vai saber se nesse meio-tempo não achou algum mecenas que o poupou do trabalho de escrever proezas e preferiu ler seus poemas… Ou pode ter sentido receios: da reação das famílias envolvidas, por exemplo, ainda poderosas e atuantes na região. E também não escapam aos estudiosos algumas frases dele, que traem certa perigosa desconfiança em relação à perfeição divina…

Nosso almoço tinha se estendido até as quatro. O sol de maio ainda era quente lá fora. O olhar de Gisleine atravessou a vidraça e pousou na rua, depois se voltou para mim, tristonho:

— Sabe o que me lembra esse cavaleiro? Um anão lá do Jardim São Luiz. Morreu com um tiro da polícia, tentando pular um muro.

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Ivone Benedetti

Ivone_Benedetti_184

É escritora, tradutora e professora. Autora do romance Immaculada (finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2010), e do livro de contos Tenho um cavalo alfaraz, ambos pela WMF Martins Fontes. É doutora em língua e literatura francesa pela USP. Vive em São Paulo (SP).

Para evitar especulações desnecessárias, é o que dizem, mas, se a veracidade da história não for comprovada segundo os moldes científicos modernos, o texto no mínimo pode valer como uma bela peça de ficção. E, afinal, o que mais é a História?