Ensaios e Resenhas

outubro 2016 / Ensaios e Resenhas / O cansaço do cansaço

Texto publicado na edição #198

O cansaço do cansaço

"Caçambas", de Ruy Proença, percorre o peso e os pêsames, a matéria viva e os fantasmas, com a virtude da dúvida e do riso

> Por Marcelo Reis de Mello

Ruy Proença, autor de Caçambas

Ruy Proença, autor de Caçambas

Um dos poemas mais viscerais do século 20, marcado, como não poderia deixar de ser, pelo trauma da guerra, é Ils cassent le monde ou Eles quebram o mundo (na tradução de Ruy Proença), do poeta, romancista, compositor e cantor, tradutor, crítico de música, inventor e engenheiro francês Boris Vian, que nos diz: “eles quebram o mundo/ em pedacinhos/ eles quebram o mundo/ a marteladas”, e em seguida completa: “para mim não faz diferença/ não faz diferença alguma/ ainda me sobra muito/ ainda sobra muito/ basta que eu ame/ uma pena azul/ uma trilha de areia/ uma ave assustada (…)”. Depois dessa impiedosa destruição do mundo, vemos surgirem no horizonte as Caçambas para recolher os detritos, os ossos dos mortos e as paredes derrubadas. Mas já não se encontra aqui, neste sexto livro de poemas do escritor, tradutor e engenheiro paulistano Ruy Proença, a gravidade do luto. De algum modo, a convivência cotidiana com os restos habilita o poeta a compreender este espólio de violência (da linguagem?) como, entre outras coisas, um baú de família, uma caixa de brinquedos.

O livro é dividido em duas partes. A primeira é Rádio de Galena, mais introspectiva, na qual a memória capta algumas frequências ruidosas como um primitivo receptor de modulação AM. A segunda é Singular coletivo, em que a experiência se exterioriza para se constituir no choque da “Tragédia cotidiana”, bem no “olho do formigueiro”, ou neste trem que “se acidenta/ contra/ o comboio/ de minhas/ vértebras”. Formas distintas, porém contíguas, de compreender as caçambas: uma como repositório anacrônico da subjetividade, caixa craniana, “cérebro que só serviu/ para me prever/ depois de morto”. Outra como coleção de uma singularidade sempre alheia ou autônoma em relação à consciência, que, embora trágica, é geralmente escareada pelo humor:

(…) encharcado
dou de ombros
e os ombros concordam:
— o que nos importa?

até que
adivinho o ônibus
dou sinal de mão:
pare, me resgate

mas não!
singular,
o coletivo não para
acelera

Desconfiança
Uma das qualidades do livro é a capacidade de percorrer o peso e os pêsames, a matéria viva e os fantasmas, com a virtude da dúvida e do riso. Aliás, talvez seja essa a forma mais clara de atestar a contemporaneidade destes poemas, sua disposição obstinada a desconfiarem-se de si mesmos. Trabalhar com a morte ou sua iminência, com a loucura, o tédio, a inutilidade, é, antes de mais nada, para o poeta, um ofício lúdico com a linguagem. Todas essas coisas podem ser consideradas banais, na medida em que são vividas e divididas por todos, mas o poeta opera justamente uma reinvenção na forma de repetir códigos conhecidos, suas combinações são sempre irrepetíveis (a leitura do texto é semelfactiva, única, dizia Barthes) graças a essa “Colagem de cacos” em que se multiplicam os ecos, as referências, as citações, o estranho repertório de imagens das nossas caçambas.

Nem utopia, nem pós-utopia, nem distopia, talvez um pouco de cada e nada disso. Como disse Blanchot a respeito da obra de Paul Celan, poeta contemporâneo de Boris Vian, encontramos hoje uma poesia “sempre talvez afastada da esperança e afastada da verdade, mas sempre em movimento na direção de uma e de outra”. Por isso não há aqui consenso ou homogeneidade possível, há recortes, lapsos, ready mades que às vezes permitem paronomásias fáceis (Ocaso, casa), outras vezes aliterações e assonâncias bem encaixadas, como no poema Automancia (caixa, seixos, crânio, chocalho). E se o humor atravessa os detritos aqui inventariados, é como fruto de uma febre patética, do asfalto quente sob um sol tropical na perspectiva de um ciclista que tomba: “besouro emborcado/ com as patas no ar”; cena de algum modo mítica, já que “mesmo parada/ a esbelta bicicleta/ tinha ares de ícaro”.

O Ícaro de Ruy Proença ou é um besouro emborcado no sol ou é o próprio estopim do fogo, como nos poemas Incendiário I e Incendiário II, que acabam remetendo ao poema de um contemporâneo mais jovem, o mineiro Heyk Pimenta, quando diz: “Todas as pessoas que conheço/ querem/ ou vão querer/ ser/ incendiárias”. O incêndio aqui, no entanto, é fruto de inconsequência infantil e causa de uma covardia confessa: “depois/ embaixo do sofá/ da sala/ / (não movi/ uma palha)”. Uma maneira pouco sublime, porém sutil, de enfrentar o fim (ou o fim do fim…) do mundo. A consideração pela nossa diminuta dimensão cósmica, nossa insignificância no espaço-tempo, sem desmerecer, entretanto, as fagulhas das nossas descobertas. Neste mundo quebrado em pedacinhos e a marteladas, Ruy Proença parece dizer estar cansado de estar cansado, como na citação de Luis Cernuda ao fim de seu livro. E parece corroborar também a famosa resposta de Maiakovski (traduzida por Boris Schnaiderman e os irmãos Campos) ao poema suicida do compatriota Iessiênin: Nesta vida/ morrer não é difícil./ O difícil/ é a vida e seu ofício”.

Arranjo inusitado
Nas caçambas talvez encontremos apenas coisas reconhecíveis, objetos familiares como num antigo baú, mas de vez em quando se vê saltar do entulho um arranjo inusitado, estranha sintaxe, erro de que nasce o espanto: Serendipitia: descoberta no jogo daquilo que se repete. Embora se corra sempre o risco de acabar mordido pela palavra que se deseja alcançar, pois

palavras
são lagostas entocadas
perigosas

cortou-me uma
ontem

não rogo praga
não desisto

ao contrário —
insisto

tento agarrá-las
pela parte de trás.

Se convivemos com o entulho burocrático da linguagem, no acúmulo cartorial de senhas em um painel eletrônico, os poemas nascem da raridade dos encontros às vezes difíceis de elaborar (como a morte da mãe, no poema Come back to me), às vezes fortuitos, como “um leque aberto, encharcado” ou “asa/ de borboleta/ sem borboleta/ (ou pétala)/ pisada (…)”. De qualquer modo, nestas caçambas — caixa craniana ou baú de brinquedos — só poderemos alcançar o que nos é originariamente familiar, como disse Heideggger uma vez, se não recearmos percorrer a estranheza.

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Caçambas
Ruy Proença
Editora 34
152 págs.

 

O AUTOR
Ruy Proença

Nasceu em São Paulo (SP), em 1957. Participou de diversas antologias de poesia, traduziu Boris Vian: poemas e canções (2001), Isto é um poema que cura os peixes, de Jean-Pierre Siméon (2007) e Histórias verídicas, de Paol Keineg (2014). É autor de Pequenos séculos (1985), A lua investirá com seus chifres (1996), Como um dia come o outro (1999), Visão do térreo (2007) e dos poemas infantojuvenis de Coisas daqui (2007).

 

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