Ensaios e Resenhas

janeiro 2020 / Ensaios e Resenhas / O arquiteto no Equador

Texto publicado na edição #237

O arquiteto no Equador

Coletânea bilíngue marca o centenário de João Cabral de Melo Neto

> Por João Almino

Comemora-se em 9 de janeiro de 2020 o centenário de nascimento de João Cabral de Melo Neto, um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, membro da Academia Brasileira de Letras e reconhecido internacionalmente pelos Prêmios Neustadt e Reina Sofia de Poesia Iberoamericana. É momento propício para relembrar sua passagem pelo Equador, quando aqui foi embaixador de 1979 a 1981, e seus poemas equatorianos.

Associa-se em geral a obra de João Cabral ao Nordeste do Brasil, especialmente a seu Pernambuco natal, e também à Espanha, sobretudo a Sevilha, cidade que está no título de um de seus livros mais conhecidos, Sevilha andando (1989), dividido em duas partes — Sevilha andando e Andando Sevilha. É pouco lembrada, porém, a produção poética de Cabral relacionada ao Equador, embora ela tenha sido publicada em seu livro Agrestes, de 1985. São dez poemas reunidos em uma seção intitulada Viver nos Andes.

Estes dez poemas são, pela primeira vez, publicados em livro exclusivo, em edição bilíngue (português-espanhol) que conta com ensaios críticos de dois importantes poetas contemporâneos: o brasileiro Antonio Carlos Secchin, um dos principais estudiosos da obra de João Cabral, e o equatoriano Ivan Carvajal, que é também o responsável pelas exímias traduções.

Ao chegar a Quito, interessei-me em descobrir a qual janela o seu poema O corredor de vulcões se referia ao mencionar “a geometria do Cotopaxi,/ que até minha janela de Quito,/ com seu cone perfeito e de neve,/ vem lembrar-me que a boa eloquência/ é a de falar forte mas sem febre”. Tive a sorte de encontrar na Embaixada em Quito o Senhor Alfonso Montúfar, que já era funcionário nos tempos de João Cabral, quando a Chancelaria estava noutro endereço. Contou-me ele que, logo no primeiro dia de trabalho, o poeta pediu para que fosse mudada a localização de sua mesa para que ficasse em frente à janela que dava para o Cotopaxi. Também fez a gentileza de me passar cópias datilografadas de poemas de Cabral, um deles com correções a mão feitas pelo poeta e cujo fac-símile é reproduzido no livro. São primeiras versões de poemas que integrariam seu conhecido e festejado livro A escola das facas, que foi finalizado no Equador e publicado no Brasil em 1980.

Apuro estético
A poesia de João Cabral, contundentemente substantiva, tem forte apelo visual. Nela, porém, a paisagem não é apenas paisagem. Dos vulcões equatorianos ele extraiu, por exemplo, o tema do silêncio, em acepções que se podem interpretar como filosóficas, existenciais ou políticas. No poema No páramo, a “geografia do Chimborazo”, em coma, “está surda e muda”. No Corredor dos vulcões, “morta é a oração, é o vociferar”, e os vulcões “aprenderam a ser sem berrar-se;/ o tempo ensinou-lhes o silêncio”. No poema Uma enorme rês deitada, escreve: “nada vi em ti, Chimborazo,/ que ensine o falar dó de peito,/ pré-microfones, deputado”. Era “só capaz de ensinar silêncio/ ou sono…// Tão sem discurso como a pedra/ é tua monstruosa ovelha,/ que para remoer o silêncio/ no mais alto dos Andes deita”. Ou em O Chimborazo como tribuna: “É estranho como esta montanha/ não deixe que nem mesmo o vento/ possa cantar nos órgãos dela/ ou fazer silvar seu silêncio”.

O livro está ilustrado com reproduções de obras da extraordinária artista equatoriana Araceli Gilbert, cujo rigor construtivista é da família da poesia de João Cabral. O escritor Alfredo Pareja Diezcanseco dizia que seu geometrismo abstrato, “com um estilo de forma sintética e clara”, “no es sentimental”. Poderia ter dito o mesmo sobre a poesia de Cabral, que ele conhecia, tendo sido chanceler equatoriano durante o período da missão de Cabral em Quito e havendo incluído livros do poeta brasileiro na coleção que doou à biblioteca da Pontifícia Universidade Católica do Equador (PUCE).

De fato, a poesia de João Cabral, de grande apuro estético, não é sentimental e é pouco lírica. Nela a própria subjetividade é objetivada. Ele é engenheiro e arquiteto de uma linguagem seca, densa, concisa e precisa, muitas vezes trepidante, como trem que reflete as imprecisões da estrada, para fazer aguçar a sensibilidade de seus leitores. Num poema de Terceira feira (1961), há versos reveladores de sua poética: “Falo somente com o que falo:/ com as mesmas vinte palavras…// Falo somente do que falo:/ do seco e de suas paisagens…”. São elementos também do livro Viver nos Andes, no qual a dimensão concreta, mineral, de sua poesia encontra expressão na topografia equatoriana.

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