Ensaios e Resenhas

abril 2011 / Ensaios e Resenhas / Novas dimensões

Texto publicado na edição #133

Novas dimensões

A exuberância poética no Brasil é tão intensa que freqüentemente grandes poetas passam despercebidos. Florisvaldo Mattos enquadra-se neste drama. Sua […]

> Por MAURÍCIO MELO JÚNIOR

A exuberância poética no Brasil é tão intensa que freqüentemente grandes poetas passam despercebidos. Florisvaldo Mattos enquadra-se neste drama. Sua estréia em livro se dá 1965, quando publica Reverdor, mas deste a década anterior mantinha uma intensa atividade cultural e divulgava sua poesia de fortes cores terrais.

A segunda metade da década de 1960, vale lembrar, foi um tempo onde se viveu o ápice dos latifúndios literários de Bandeira, Vinicius, Drumonnd e Cabral, um tempo de nenhuma oportunidade para qualquer poeta desprovido de qualidades excepcionais. A nova geração, bebendo toda força daquele manancial, inaugurou um canto renovado e uma nova estética marcada por inovadoras preocupações, por temáticas revigoradas.

Nesta leva encontramos Florisvaldo Mattos anunciando um vigor poucas vezes visto. Uma retórica moldada no barro do chão, sim, mas prenhe da mais intensa tradição literária. O poeta bebeu Vieira escutando o aboio de um vaqueiro. Mesmo assim ainda pouco se fala dele. Uma das exceções fica por conta de Carlos Nejar que em sua monumental História da literatura brasileira vê Florisvaldo como “um paisagista rural, caçador de metáforas, símbolos e variados ritmos”.

A publicação do volume Poesia reunida e inéditos, pela Escrituras, de certa forma preenche o claro, tornando mais acessível o amplo mundo do poeta, pois, vindo da terra, sua poética se amplia em outras latitudes, como no amor marítimo denunciado em versos que dizem: “No perau de teus olhos/ meus abismados olhos/ gaivotas ébrias molho-os”. O poema Estrela de sal e sol é ainda um legítimo exemplo do poder de concisão e precisão verbal da poesia de Florisvaldo. Aliás, esta característica é salientada por JC Teixeira Gomes, que prefacia o volume:

É um criador dominado pelo “lavor da razão”, como confessou num dos seus poemas, fato que ordenou a sua linguagem para que ela se despojasse de todo ornamento inútil, buscando a essencialidade da expressão verbal, sem os transbordamentos habituais no lirismo brasileiro.

O leitor verá, nesta concisão, uma certa herança cabralina, posto que Florisvaldo também transita pelo território árido da escassez, da palavra, como diria Graciliano Ramos, usada apenas para dizer o que se faz preciso, nunca para dourar o texto de vazios. Há ainda neste canto uma lírica social, não engajada, mas denunciadora. Um protesto que se estende e canta a guerra civil espanhola, como a dizer que a injustiça e a dor são naturais da humanidade toda.

Timbre próprio
Por aqui vão parando as semelhanças com a poética de João Cabral de Melo Neto, pois Florisvaldo tem timbre próprio. Tanto que sua poesia desce ao mar, e aí enxergamos um paisagista inventivo, surpreendente, senhor de um jogo de palavras raro e comovente. “Do necessário roxo dos telhados/ desce o gado manso do tempo, rumo/ ao fundo do rio chifrando ausências.”

Esta questão das influências é cantada pelo próprio poeta em dois longos poemas, Rastro sonâmbulo às cinco da tarde em ponto e Cinco monólogos de Garcia D’Ávila, especialmente, onde descarrega toda a leveza, todo áspero lirismo da cultura ibérica. Neles estão os sentimentos colhidos ao longo da vida do poeta e as entonações culturais que moldaram. Mais que espanhola e portuguesa esta cultura se faz brasileira, grapiúna. “De um certo cabedal de sonho e fé/ trago lumes que são meu patrimônio”, confessa em outro poema.

No seu inventário de perdas, o poeta canta os amigos que se foram, como Sosígenes Costa e Glauber Rocha. Curioso que este inventário, antes do lamento, reverencia o legado. E seu choro passa a ser de agradecimento, não de saudade. “E assim seguindo apenas/ o curso luminoso/ de cada signo morto/ perfurando o arenoso/ das páginas desertas/ bobinas de horror/ manchas de tintas frescas/ chumbo e insone rastro// Chorarei então / por entre os escombros / da edição matutina.”

Ao mesmo tempo moderno e arcaico, o canto de Florisvaldo Mattos cultua a tradição e beija as inovações. Daí a forma ganhar uma nova dimensão e um novo sentido em sua poética. Trabalha o verso livre com a segurança de quem sabe ser aquela a maneira ideal para a mensagem que quer imprimir. Da mesma forma caminha sua oficina de sonetos. E neste ponto é justo salientar que, mesmo diante da riqueza de sonetistas como Vinicius de Moraes e Carlos Pena Filho, Florisvaldo é seguro e imenso quando se dedica a esta arte aparentemente tão fácil.

Enfim, Poesia reunida e inéditos é um grande livro em todos os sentidos. Sua coerência temática, suas inovações, seu diálogo com o passado. Mesmo diante de nosso exuberante legado poético, é injusto deixar de ler Florisvaldo Mattos.

 

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FLORISVALDO MATTOS

Nasceu em Uruçuca, no sul da Bahia. Poeta, escritor e jornalista, integrou a Geração Mapa, liderada pelo cineasta Glauber Rocha. Premiado, em 1995, pela Associação Paulista de Críticos de Arte, é membro da Academia de Letras da Bahia. Publicou, entre outros Reverdor (1965), Fábula civil (1975) e A caligrafia do soluço & Poesia anterior (1996), que recebeu o Prêmio Ribeiro Couto de Poesia da União Brasileira de Escritores.

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Florisvaldo Mattos
Escrituras
352 págs.