Manual de garimpo

janeiro 2013 / Manual de garimpo / Noite

Texto publicado na edição #153

Noite

Com a novela "Noite", Erico Verissimo escreveu um livro de admirável tensão expectativa

> Por ALBERTO MUSSA

Erico Verissimo é um dos escritores mais completos que conheço. Completo por ser versátil (escreveu narrativas de diversas tendências, do enredo sentimental ao romance de guerra, do épico histórico ao realismo mágico); e completo por ser original, explorando temas pouco comuns na literatura brasileira.

Quem gosta de garimpo certamente já se deparou com O tempo e o vento — obra monumental, o mais ambicioso e mais bem realizado painel sobre a alma gaúcha. Aliás, não me lembro de outra gente brasileira que tenha merecido tratamento literário dessa dimensão. O livro é, na verdade, um entrelaçamento de vários romances, que podem ser lidos isoladamente, como no caso de Um certo capitão Rodrigo e Ana Terra, já publicados em volumes à parte.

Duas outras criações dignas de nota são Incidente em Antares e O prisioneiro: a primeira — romance fantástico, que dá uma arejada na nossa sufocante tradição realista — trata de uma greve de coveiros e do retorno dos mortos insepultos à cidade; a segunda, provavelmente inspirada na invasão norte-americana do Vietnã, tem o mérito de situar a ação fora do Brasil, ampliando nosso espaço ficcional — coisa que se faz raramente por aqui.

Li todos esses livros com imenso entusiasmo. Mas devo confessar que a novela Noite, aparentemente menos pretensiosa, foi o texto de Erico Verissimo que mais me envolveu.

O protagonista é o Desconhecido, um homem que não sabe quem é, nem onde está. É noite quando a narrativa começa. O Desconhecido anda pela cidade, achando que o relógio e a carteira que possui foram roubados. Carrega uma culpa que não identifica. Instintivamente, foge das pessoas; e xinga de “cadela indecente” uma simples estátua, que lhe parece um vulto de mulher despida.

É impossível não lembrar de Kafka, particularmente de O processo, nessas páginas iniciais. Mas não há uma influência direta de um sobre o outro. Na verdade, o absurdo das situações que cercam as personagens é apenas ilusório.

A história se precipita quando o Desconhecido (chamado também de “o homem de gris”) entra num imundo botequim e trava relações com um anão corcunda — personagem que lhe inspira grande repugnância. O corcunda, ao descobrir que o Desconhecido tem muito dinheiro na carteira, observando que ele se comporta de maneira estranha, decide atraí-lo para os prazeres perversos da noite, com o intuito de explorá-lo.

É quando ficamos conhecendo o homem do cravo vermelho, canalha que o corcunda considera seu mestre. Este homem sórdido irá apresentar ao Desconhecido todo um universo de baixezas, covardias e ultrajes que povoam a noite. A primeira parte da novela é, simbolicamente, uma asquerosa descida aos infernos, realizada pelo Desconhecido.

Erico Verissimo escreveu um livro de admirável tensão expectativa, que discute sutilmente — além de outras questões — o problema moral de certas fantasias eróticas. Mas isso só ficamos sabendo na segunda parte, quando o Desconhecido começa a recuperar a memória de acontecimentos dramáticos e capitais que antecederam (e que iriam justificar) sua imersão no submundo noturno.

A edição mais recente de Noite é de 2009, pela Companhia das Letras. A novela teve também várias edições, ou reimpressões, da editora Globo. A última — acho que de 1993 — já não se vê nas livrarias. Nos sebos, é fácil encontrar a maioria delas por cerca de R$ 10. Os exemplares publicados pelo saudoso Círculo do Livro estão na mesma faixa. Apenas a primeira edição, de 1954, pode alcançar excessivos R$ 60, embora não seja nenhuma raridade quando não tem autógrafo. Tenho visto algumas; e paguei R$ 15 pela minha.

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Erico Verissimo

Erico Verissimo. Foto: Leonid Streliaev/Divulgação

Nasceu em 17 de dezembro de 1905 em Cruz Alta, no interior do Rio Grande do Sul. Trabalhou como bancário, balconista de armazém e farmacêutico até se mudar, aos 25 anos, para Porto Alegre. Na capital gaúcha, foi redator, diagramador e ilustrador da Revista do Globo, onde estreou como escritor com o conto Ladrões de gado. Ganhou diversos prêmios por sua obra literária, como o Jabuti (1966), o do PEN Clube (1972) e o da Fundação Moinho Santista (1973). Tornou-se também autor de livros infantis e tradutor de obras como Contraponto, de Aldous Huxley. Morreu em 1975, antes de concluir o segundo volume de suas memórias, Solo de clarineta, publicado postumamente.