Ensaios e Resenhas

maio 2012 / Ensaios e Resenhas / No devido lugar

Texto publicado na edição #102

No devido lugar

Sobre a produção poética de Machado de Assis, Manuel Bandeira escreveu que o poeta competia com o romancista e que […]

> Por ÁLVARO ALVES DE FARIA

Sobre a produção poética de Machado de Assis, Manuel Bandeira escreveu que o poeta competia com o romancista e que o romancista competia com o poeta. Por esse motivo, a poesia de Machado ficou num segundo plano em sua vida e em sua obra. Bandeira escreveu certo. A poesia machadiana pouco é lembrada, embora o autor seja considerado por muitos o maior escritor brasileiro de todos os tempos.

O crítico norte-americano Harold Bloom, por exemplo, coloca Machado de Assis ao lado de Shakespeare, Dante e Cervantes. Mas a poesia de Machado de Assis está distante de toda essa louvação. Uma poesia pouco lembrada, como se não tivesse significado nenhum. Ou quase isso.

O poeta Cláudio Murilo Leal organizou o belo volume Toda poesia de Machado de Assis, um trabalho merecedor de todos os elogios, já que essa poesia do autor de Dom Casmurro é reunida pela primeira vez, com um pequeno ensaio de apresentação que enriquece ainda mais a obra: “Em Machado, o prosador e o poeta se completam numa originalíssima visão do mundo”, diz Cláudio Murilo Leal que defendeu sua tese de doutorado A poesia de Machado de Assis na Academia Brasileira de Letras.

O livro mostra a trajetória do poeta Machado de Assis. E aqui é preciso esquecer o ficcionista que Bloom considera o maior escritor afro-descendente de todos os tempos no mundo. Aqui, o leitor percorrerá o universo poético de um escritor que soube, sempre, lidar com as palavras em romances e contos que enobrecem a literatura de um país que, também na área da literatura, costuma não respeitar ninguém. E fazer esse percurso pela poesia de Machado de Assis representa uma viagem de visões poéticas que revelam uma outra face do escritor, um mergulho numa obra praticamente desconhecida. O que se conhece de Machado são alguns poemas. Só alguns poemas que se tornaram famosos isoladamente.

Muitos dos poemas de Machado lembram, de alguma maneira, a linguagem de Augusto dos Anjos, o único poeta brasileiro universal, numa narrativa poética de tons quase sempre sombrios. Este livro resgata esses poemas, uma obra inteira resgatada, já que a poesia de Machado de Assis parecia estar condenada ao completo esquecimento, coisa comum neste país. Livros assim podem evitar esse ato criminoso.

Longe de ser bissexto
Cláudio Murilo Leal, que organizou o volume, lembra que alguns autores consagrados chegaram a afirmar que um ficcionista dificilmente conseguiria elevar-se à categoria de bom poeta. Observa que Machado não pode ser considerado um poeta bissexto, já que produziu ao longo da vida uma obra poética relevante. Murilo Leal assinala que a carreira literária de Machado de Assis foi marcada por uma constante dedicação à poesia. Nesse ponto, lembra a estréia do escritor na imprensa, em 1854, até o último e famoso soneto Carolina, publicado em 1906, no livro Relíquias da casa velha.

O pequeno ensaio (refiro-me à sua extensão) de Cláudio Murilo Leal é um texto competente que situa bem a figura de Machado de Assis como poeta que, em vida, publicou quatro livros de poesia, Crisálidas (1864), Falenas (1870), Americanas (1875) e Poesias completas (1901). “Como artífice da palavra, Machado de Assis caracterizou-se pelo bom gosto e pela lucidez com que pacientemente lapidou seus versos e pela reciclagem de temas universais e eternos”, diz Cláudio Murilo Leal, observando, corretamente, que Machado, como quase todos os poetas, iniciou sua obra poética pela via lírica, “gênero que não cerceia a espontaneidade nem as abstrações do devaneio”. Isso é discutível, mas não cabe qualquer discussão aqui.

Resumindo, de acordo com Cláudio Murilo Leal: “Uma metódica formação autodidata aliada a um exigente apuro da técnica poética fizeram de Machado de Assis um artista erudito e consciente de seu ofício, que soube recriar as melhores lições dos mestres do passado”.

A exemplo dos poetas de sua época, Machado de Assis produziu uma obra que merece, sim, destaque nesse cenário, até mesmo pela construção de seus poemas, uma elaboração perfeita que então se exigia em relação à métrica dos versos, as rimas, a colocação das palavras, à própria elaboração do poema. Em A missão do poeta, Machado revela o que tinha por poesia, sendo ele um poeta, ao falar com a musa inspiradora. São versos até mesmo dolorosos de alguém que vê o mundo e a própria vida em completo desencantamento. E nesse cenário, a musa diz ao poeta ser preciso erguer-se e cantar: “Vem, é tua missão!…Ergue-te e canta!” .

Zelo poético
O que não se sabe é se, de fato, o ficcionista Machado de Assis anulou o poeta Machado de Assis, como alertou Manuel Bandeira. A poesia do escritor está, mesmo, num segundo plano em sua obra. Certamente não em sua vida, já que escreveu muita poesia e não se dedica tanto à poesia, se essa poesia não existir no universo literário e existencial de qualquer autor. Mas no caso de Machado de Assis é diferente: a obra do ficcionista passou por cima da obra do poeta que ele, inegavelmente, foi. E disso dá provas em poemas de construção perfeita, em temas tratados com esmero, com o zelo poético de quem conhece o ofício.

O livro organizado por Cláudio Murilo Leal é um documento literário brasileiro. Mostra que Machado de Assis não é um poeta de um poema só, no caso, o soneto famoso Carolina, dedicado a sua esposa, com quem viveu 35 anos e que morreu em 1904. Para o organizador deste volume, o soneto é considerado “a mais comovente pedra de toque da obra poética de Machado de Assis”.

Tem razão. E essa comoção envolve o significado da morte da mulher que Machado confessou ter sido a melhor parte de sua vida. E foi. Tanto que a partir da morte de Carolina Augusta Xavier de Novaes, que era portuguesa, Machado de Assis também inicia o declínio de sua vida.

Enfim, um livro que representa o resgate de uma obra poética praticamente esquecida de um autor que fez de tudo em literatura, sendo que a ele é atribuída a invenção da crônica. Foi jornalista, contista, romancista, dramaturgo, crítico, ensaísta. Fez de tudo. E também fez poesia. Muita poesia. Uma poesia que não tem a repercussão de sua obra em prosa, mas que mereceu de seu autor, o poeta Machado de Assis, uma atenção especial. Basta ver a estrutura dos poemas que escreveu. Significa que Machado de Assis foi, sim, poeta. E não foi um poeta bissexto, como bem lembra Cláudio Murilo Leal. O ficcionista, no entanto, é mais visível. É injusto que seja assim.

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Machado de Assis_livro

Org. Cláudio Murilo Leal
Record
756 págs.