Intercâmbios ficcionais

abril 2012 / Intercâmbios ficcionais / Nada é verdade, nada é mentira

Texto publicado na edição #144

Nada é verdade, nada é mentira

Ao conceder entrevistas, uma das perguntas que o escritor mais ouve é a que se refere ao possível caráter autobiográfico […]

> Por CAROLA SAAVEDRA

Ao conceder entrevistas, uma das perguntas que o escritor mais ouve é a que se refere ao possível caráter autobiográfico do seu livro. Aliás, pergunta fundamental, já que muito mais do que simples curiosidade sobre a vida do autor, viveu ou não viveu tudo aquilo, foi ou não abduzido, matou ou não matou, a pergunta revela um aspecto essencial da experiência literária, tanto da escrita quanto da leitura, que podemos resumir da seguinte forma: onde começa e onde termina um livro. Em outras palavras, até que ponto informações como biografia, personalidade e aparência do autor influenciam a forma como ele é lido, e até que ponto o processo de escrita, e tudo o que o envolve, se insere na própria obra. Será que na ficção é tudo mentira, ou será sempre tudo verdade?

Comecemos com Thomas Bernhard. Bernhard, em seu livro Holzfällen (Árvores abatidas, na tradução em português), publicado em 1982, conta a história de um escritor austríaco que acaba de chegar de Londres e é convidado para jantar no apartamento de um casal de amigos, mecenas que no passado o ajudaram muito em seu início de carreira. Nesse jantar ele reencontra muita gente conhecida, escritores, músicos, atores, ou seja, toda uma fauna artística vienense. Acomodado numa poltrona, o narrador/autor observa tais personagens e os retrata da forma mais cruel possível, expostos em toda sua miséria, torpeza e arrogância. Sobre uma escritora, por exemplo, o narrador faz o seguinte comentário: “Ela te odeia, digo a mim mesmo, e você a despreza, essa é a verdade. Mas ela não te odeia apenas porque você a abandonou há mais de vinte anos, sim, vinte e cinco anos agora, e porque você é um escritor, mas também porque você é dez anos mais novo do que ela, mulheres desse tipo nunca perdoam algo assim, o fato de elas serem dez anos mais velhas, pensei”. Até aí tudo ótimo, a questão é que esse narrador tem exatamente a mesma biografia que Bernhard (com exceção da cidade onde mora), e as pessoas ali retratadas correspondem em detalhes a figuras conhecidas do meio artístico-cultural austríaco da época. Some-se a isso o fato de uma dessas pessoas, mais especificamente, o anfitrião, ao reconhecer-se no relato de Bernhard, decide entrar na justiça para impedir a publicação do livro na Áustria, no que de fato foi atendido. O livro, proibido no país, teve seu lançamento restrito à Alemanha naquele ano.

Agora deixemos Bernhard por alguns instantes e passemos para o próximo episódio. Manuel Puig, escritor argentino, acaba de se mudar para o Rio de Janeiro, O ano é 1981. Puig resolve fazer uma reforma em seu apartamento, para isso contrata um pedreiro. Assunto vai, assunto vem, Puig, fascinado pela sua história e forma de falar, decide gravar as conversas. Essas gravações (que podem ser encontradas, acompanhadas da transcrição no arquivo Manuel Puig, na Argentina) seriam posteriormente, com poucas modificações diretas, transformadas em livro, o romance publicado em 1982, Sangue de amor correspondido. Parte desse episódio é relatada pelo próprio Puig numa entrevista para a Paris Review, entre outras coisas, ele explica o uso das gravações: “Há muito poucas palavras que não são dele, simplesmente editei as nossas conversas”, e conta que o pedreiro, depois da publicação do livro, alegando que por causa desse relato estava recebendo ameaças de morte, passa a chantageá-lo na tentativa de conseguir mais dinheiro. Segundo o autor, o combinado havia sido uma quantia fixa, valor já pago e que permitira ao pedreiro a compra de uma casa própria. Puig não esconde sua decepção com esse episódio: “Eu esperava gratidão, ou pelo menos inspirar um sentimento de afeto. Mas não foi o caso”.

Por último, vale a pena citar o caso de Roberto Bolaño. Ele teve uma vida digna de um romance de aventuras, resumindo em algumas linhas: nasceu no Chile, quando tinha quinze anos sua família mudou-se para o México, onde ele viveu o restante da adolescência e tornou-se amigo de muitos poetas e escritores jovens do país. Aos vinte anos resolve voltar para o Chile, onde é surpreendido pelo golpe militar. Acaba entre os detidos no Estádio Nacional, mas consegue sair de lá graças a um dos guardas que havia sido seu amigo de infância e o reconhece. Volta ao México, junto com outros amigos instaura o movimento de vanguarda denominado Infrarrealismo. Depois viaja por diversos países da América Latina, da Europa e da África. Estabelece-se na Espanha, onde ficaria até o fim da vida. Em Blanes, cidade onde morou, dedica-se aos mais diversos trabalhos, segurança num camping, garçom, vendedor ambulante, etc., até que, ao tornar-se um escritor conhecido, passa a viver da literatura. Bolaño trabalha o tempo todo em seus livros com esses dados autobiográficos, criando inclusive o alter ego Arturo Belano. Depois da sua morte, porém, passa-se a questionar até que ponto a sua biografia corresponde à realidade. Ou seja, talvez as coisas não tenham acontecido exatamente assim, como ele diz nas entrevistas, talvez ali, diante do entrevistador estivesse não o homem, mas apenas mais um de seus personagens. Ou indo mais além, talvez ao estender à própria pessoa o processo de ficcionalização, homem e o personagem tivessem se tornado uma coisa só.

E após esta pequena incursão pelos bastidores da literatura podemos voltar à pergunta inicial: até que ponto a biografia do autor e o que sabemos sobre o processo de escrita do livro modificam o próprio livro?, agora munidos de novas perguntas: as repercussões do lançamento (como é o caso de Bernhard), que influência podem ter? O fato de sabermos que a história de um livro é autobiográfica modifica a nossa percepção sobre ela?, e se o faz, até que ponto esse “conhecimento” nos obriga a dar-lhe nova interpretação, ou até mesmo reescrevê-lo? Ou, para usar um dos nossos exemplos, até que ponto a entrevista que Manuel Puig dá a Paris Review tornou-se parte do próprio texto? E o que significaria permitir que ela apareça na orelha ou na apresentação? Será que o leitor que nada sabe das gravações e conseqüentes acontecimentos lê o mesmo livro que nós? E quanto a Bernhard, a consciência de que se trata de personagens reais, e do escândalo causado em decorrência da narrativa, não guia a nossa leitura e, talvez, julgamento? É possível separar Bernhard-pessoa do Bernhard-narrador? E por último, modificaríamos a nossa leitura de Os detetives selvagens se descobríssemos que Bolaño não estava no Chile no momento do golpe militar? Afinal, que importância tem isso?

A resposta é, tem toda a importância, claro!, e ao mesmo tempo, não tem importância nenhuma. Em outras palavras, saber ou não saber esses aspectos modifica sim o texto. E se formos mais além, tudo modifica o texto, a história pessoal do escritor, a época em que ele vive, os idiomas que ele fala, a experiência cultural que ele possui (isso sem falar do leitor). Mas a questão não é só essa, se modifica, dando ao livro outras interpretações, por outro lado não o esgota apenas nisso. Uma obra literária terá sempre inúmeras camadas, nuances, o que significa, saber ou não saber se algo é mentira ou verdade nos dá apenas mais uma entre muitas possíveis leituras. E chegamos assim a seguinte equação: na literatura, mesmo que nada seja verdade, não importa, pois sabemos que, apesar de tudo, nada é mentira.

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