Fora de sequência

novembro 2017 / Fora de sequência / Na abertura da Bienal do Livro de Pernambuco

Texto publicado na edição #211

Na abertura da Bienal do Livro de Pernambuco

O discurso que deveria ter sido lido, mas que uma presença incômoda não permitiu

> Por FERNANDO MONTEIRO

Ilustração: Tereza Yamashita

Ilustração: Tereza Yamashita

A abertura da XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco aconteceu no dia 6 de outubro passado, no Centro de Convenções recifense, e para ela recebi o convite da coordenadoria-geral, como homenageado (na luxuosa companhia de Lima Barreto). Cheguei pontualmente ao auditório do Círculo das Ideias: às 17 horas daquela sexta-feira, porém a cerimônia começou a avançar dos minutos “tradicionais” dos atrasos brasileiros, e fiquei sabendo, então, que ali se esperava pela chegada do ministro da cultura (tudo com letras minúsculas), um certo Sérgio Sá Leitão, conforme me foi explicado.

Não foi, de modo algum, a melhor das notícias. Muito pelo contrário. O ministério, desde quando entregue ao grosseiro ministro anterior — Roberto Freire, notabilizado por ofender o escritor Raduan Nassar quando da entrega do Prêmio Camões ao autor de Um copo de cólera (destratado pela “autoridade” brutamontes, naquele momento solene, de outorga de um prêmio luso-brasileiro a um dos nossos maiores escritores) —, o ministério vem capengando de nome em nome, e, de recusado por Bruna Lombardi (!), agora desponta para o anonimato na persona de um Sergio de Tal, segundo me anunciaram nos largos minutos até a chegada do dito cujo.

Bem, nas redes sociais — mas não nos jornais recifenses — foi amplamente divulgado como me retirei em face da presença do senhor Sergio e sua comitiva caracteristicamente engravatada e suada, “adentrando o recinto”, conforme diria um Adoniran Barbosa, como touros numa loja de porcelana.

É claro que eu não poderia senão me retirar, mesmo sendo um ato mais ou menos indelicado com a Bienal que me fez uma homenagem à qual permaneço naturalmente agradecido — acima de tudo por me colocar, como rebelde, ao lado do inconformismo do nosso Lima sempre desconfortável na vida, vítima de preconceito e até há relativamente pouco tempo, ainda fora do tapete vermelho da nossa literatura branca (mesmo que magnificada pelo mulato Machado de Assis), aqui e ali “elegante” e nem sempre à vontade com um Cruz e Sousa, um João Antônio e outros outsiders das nossas letras. Aliás, Lima Barreto teve, sempre, a perfeita noção de que caminhava por veredas bem diversas do largo caminho de fina areia branca do seu admirado Machado. Na verdade, eram antípodas na vida (não na arte, logicamente); o fundador da Academia inspirada na dourada instituição francesa, nosso grande mulato que gostaria de ter nascido branquinho da Silva e, do outro lado da cerca, o Barreto negro, pobre e marcado pelo alcoolismo como resposta ao Brasil novecentista que tentou negar o seu imenso talento. De certo modo, isso ainda prossegue debaixo das rendas rasgadas por gorilas como Freire e demais ministros que, neste momento, temos que suportar (temos?) numa Brasília, mais do que sombria, de acordos corruptos, delações e chantagens judiciais que diariamente chocam um povo em perplexidade.

Não li, portanto, o texto que havia rabiscado, em agradecimento pela homenagem. Nesta edição do bravo jornal literário que também me honra com a sua “suportação” mensal — sempre “fora de sequência” —, quero divulgá-lo, se me permitem o editor e alguns poucos leitores desta página (pelo menos).

O que eu escrevi — e que deveria ter sido lido na cerimônia de abertura da XI Bienal Internacional do Livro — foi o seguinte (quase premonitoriamente): 

Boa noite a todos.
Eu gostaria de agradecer, antes de mais nada, à generosidade da escolha do meu nome, ao lado do grande Rebelde, do Inconformista-Mor LIMA BARRETO, nessa tão honrosa situação de Homenageados de uma Bienal que se realiza há 22 anos, no Nordeste.

Porque não é mais uma Bienal de Pernambuco, apenas. A Bienal que hoje se inaugura, na sua décima primeira edição, tornou-se um bravo evento de resistência — conforme o tema explicitado há dois anos — e ei-la aqui, novamente de pé, como Bienal motivada em favor da Democracia e da Liberdade, neste país de temer pelo pior, agora.

Em face dos antidemocráticos, há o que temer — e eles, por sua vez, temem a Cultura, temem a Arte e, claro, temem o LIVRO — como objeto quase sagrado da civilização ameaçada pelas muitas formas de fascismo.

Eles, os que não estão dispostos a endossar práticas essencialmente republicanas e/ou favorecer a plena Liberdade de opinião, expressão e crença, esses podem, eventualmente, até tecer “loas” (falsas loas) ao Livro, porém, como se diz, será sempre da “boca-pra-fora” ou até mesmo pretendendo “domesticar” o Livro indomesticável, que se dobra nas nossas mãos unicamente como papel, mas não como símbolo de criação, de beleza e do pensamento indobráveis.

Estas palavras me vêm como escritor homenageado — e digo obrigado, mais uma vez —, mas também como cidadão de um país que vive, neste momento, uma vigésima quinta hora sombria, uma quadra de exceção, com práticas judiciais e políticas que levam à humilhação e até a morte, em nome de interesses que não são os da construção de uma sociedade democrática de verdade, com inclusão social e plenos direitos assegurados para todos.

O velho Lima Barreto, caso houvesse sido escutado no coração profundo da nação — sem sofrer a discriminação que o impediu de chegar ao coração do povo — teria certamente ajudado o Brasil a se fortalecer contra um momento como este.

Precisamos de Limas Barretos mais do que nunca, agora. Precisamos de inconformismo e de — boa — Rebeldia pernambucana principalmente nesta Província nassoviana dura para dobrar seus joelhos, e inquebrantável, na verdade, enquanto não hesita em oferecer, corajosamente, o pescoço dos Freis Canecas e a dignidade camponesa dos Gregórios Bezerras arrastados nas ruas do arbítrio. À sombra deles, só podemos desejar que os melhores — e os mais bravos — nos inspirem, SEMPRE. E que os breves, os que apenas passam pelo poder, entre um dia e uma noite, sejam esquecidos na Manhã que os livros podem construir com mais eficácia do que as ameaças e as armas.

Viva a Bienal!

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