Paiol Literário

dezembro 2011 / Paiol Literário / Martha Medeiros

Texto publicado na edição #140

Martha Medeiros

"O ato da escrita não é sofrido. Sofrida é a vida. O ato de escrever, para mim, é mais cura do que sofrimento."

> Por PAIOL LITERÁRIO

Martha Medeiros no Paiol Literário. Foto: Matheus Dias

No dia 8 de novembro, a última edição da temporada 2011 do Paiol Literário — projeto promovido pelo Rascunho em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba, o Sesi Paraná e a Fiep — recebeu a escritora MARTHA MEDEIROS. Nascida em Porto Alegre (RS), em 1961, Martha é colunista dos jornais Zero Hora e O Globo, autora dos romances Divã e Fora de mim e dos livros de poesia Strip-tease e De cara lavada, entre vários outros títulos. Seu livro mais recente, Feliz por nada, uma coletânea de crônicas, está na lista dos mais vendidos no país desde seu lançamento, em julho deste ano. Suas obras ganharam adaptações para o cinema, tevê e teatro. Na conversa com o jornalista Rogério Pereira, no Teatro Paiol, em Curitiba, Martha falou sobre seu início de carreira, a relação com os leitores, seu trabalho como ficcionista, a formação do leitor e a escrita em meio às obrigações cotidianas, entre outros assuntos. Leia a seguir os melhores momentos do bate-papo.

Por que ler?
A leitura derruba paredes — principalmente isso. Acho que nos liberta da mediocridade, faz com que a gente transcenda. Porque a vida da gente é muito estreita, muito reduzida. Se a gente pensar bem, todos nós temos a mesma vida para contar. Todo mundo nasce, estuda, trabalha, tem filhos, morre. A gente se acostuma um pouco com essa rotina e a literatura faz com que a gente transcenda. Ela nos ensina a escrever melhor e diverte, é um prazer pessoal, é um momento de introspecção cada vez mais raro nos dias de hoje. Enfim, acho que há milhões de razões para se ler. Pode-se ler em qualquer lugar: na praia, na cama, numa sala de espera, num ônibus. Acho realmente que a literatura é um prazer. Acho que é por isso que a gente devia ler mais.

Vício
O romance é o meu gênero preferido. Adoraria ser uma romancista. É uma frustração que tenho, já fiz algumas tentativas, sei que nunca vou chegar lá — não no que eu imagino que seja um bom romance de verdade —, mas faço minhas tentativas dentro das minhas possibilidades. Mas, como leitora, é sem dúvida o meu gênero preferido, apesar de ler também crônica e poesia. Eu não abro um livro já premeditando o que vou encontrar ou o quanto ele vai me acrescentar. É um vício que tenho: assim como as pessoas acendem um cigarro após o outro, eu emendo um livro no outro e procuro me conhecer melhor através da literatura — isso tanto quando escrevo quanto quando leio. Busco um prazer e busco isso de que falei antes: um momento de intimidade comigo mesma, de introspecção. A gente vive muito para fora, acho que a literatura te traz para dentro de novo. Mas não tenho essa idéia do livro, essa coisa muito sagrada, “esse é um momento sagrado, agora vou abrir um livro”. Não, é uma coisa tão cotidiana na minha vida, fui criada com o livro como algo que fazia parte do dia-a-dia, fazia parte da vida. Nunca houve um momento de a minha mãe me dizer: “agora tu tens que ler porque tu vais ficar mais inteligente”. Isso era uma coisa tão habitual na minha casa, que nunca tive essa idéia sacralizada. Para mim o livro era uma coisa comum, só muito mais tarde fui saber que as pessoas liam tão pouco. Então, não existe uma busca muito elitizada, muito intelectualizada a respeito. É realmente um processo de conhecimento aliado a entretenimento também, a prazer. Tenho um prazer enorme com a leitura.

Formação do leitor
Principalmente, começa na família, antes mesmo da escola. Começa na família, de o livro não ser um objeto não-identificado, não ser uma coisa estranha. Eu recebia de presente de aniversário e de Natal bonecas, discos e livros. A música popular brasileira foi muito importante na minha formação como leitora e escritora. Porque se ouvia muita música popular brasileira na minha casa, e da maior qualidade. Eu me lembro, pequenininha, dos primeiros discos do Caetano Veloso e Chico Buarque, toda essa geração que estava surgindo, Rita Lee, Tim Maia. Meu pai era completamente enlouquecido por MPB. E era uma época diferente, porque hoje em dia existe música para criança e música para adulto. E cada um ouve no seu quarto, trancado. Naquela época, não. Existia um único aparelho de som dentro da casa, e não existia disco da Xuxa… Então, eu ouvia as músicas que os meus pais ouviam também. De alguma maneira, relaciono isso com a minha abertura para a arte em geral, a literatura incluída, mas não só a literatura. Acho que o Rio Grande do Sul tem essa propensão à leitura, talvez pelo clima também, a gente tem essa proximidade com os países platinos, que também têm uma cultura muito bem firmada. Acho que foi uma soma de geografia, da família e de uma propensão natural à introspecção. Nunca fui muito sociável. A literatura foi uma maneira que encontrava de me relacionar comigo mesma e depois, escrevendo, de me relacionar com os outros. Então, acho que é um somatório de tudo isto: de temperamento, de geografia e, principalmente, de família.

Papel da escola
Tenho a impressão de que a escola está ajudando mais hoje do que na minha época. Vou muito ao interior do estado e, no Rio Grande do Sul, não existe escola — desde pública, particular, de qualquer tamanho — em que não haja uma feira do livro, que não leve autores para conversar com alunos. Quando era estudante, não tinha esse contato direto com escritores. Ainda era uma época que tinha aquela lista de livros obrigatórios, inquestionáveis, “tem que ler Guimarães Rosa com dez anos de idade e não se discute”. E às vezes isso prestava um desserviço. Primeiro porque tudo que é obrigatório a gente já tem tendência a rejeitar. Eu me lembro que a primeira vez que li Dom Casmurro, eu devia ter treze anos e não tive capacidade de perceber a grandeza da obra. Fui ler depois, com vinte e cinco, e era outro livro. Então, me lembro de ter lido José de Alencar; de alguns livros dele eu gostava. Mas ainda assim tinha certa obrigatoriedade que provocava certo ranço. Foi importante, mas acho que o trabalho que os professores estão fazendo hoje, pelo menos no Rio Grande do Sul, é cem por cento melhor do que aquele que foi feito na época em que eu era estudante. Acho que hoje a escola está tendo muito mais influência. Acho que tem que começar em casa mesmo, mas, se não começa em casa, que pelo menos a escola desperte esse hábito. Porque é um hábito, e quanto mais cedo começa, mais cedo se firma.

"Não faço essa projeção do que significa o meu trabalho. Na verdade, dizendo de uma forma bem egoísta, sigo até hoje escrevendo para mim mesma."

 

Circunstancial
Iniciei na literatura com a poesia [estreou em 1985, com o livro Strip-tease]. A crônica só foi existir na minha vida a partir de 1994. Então, muito adiante. E nunca me senti capaz de escrever crônica na vida. Na verdade, tudo foi circunstancial. Nunca imaginei nada, nem a poesia. Poesia era uma coisa que eu escrevia em casa. Trabalhei durante treze anos como redatora publicitária e a poesia era uma espécie de válvula de escape, um respiro para escrever coisas mais intimistas e que tinham a ver comigo. E aí, com vinte e três anos, acabei mostrando esses poemas para o Caio Graco Prado, que na época era o editor da Brasiliense, num peitaço total, porque eu não tinha nem noção de como é que funcionava o mundo editorial. Comecei a ler aquela coleção Cantadas Literárias, que lançou Leminski, Cacaso, Ana Cristina César, Alice Ruiz e tanta gente mais, e achei que as coisas que eu escrevia no meu quarto, escondida, tinham alguma familiaridade com aquilo, guardadas as proporções. E acabei mandando para o dono da editora, não tinha nem internet naquela época, mandei uma carta com alguns poemas. Resumindo a história, acabei conseguindo lançar meu primeiro livro nessa mesma coleção, o que foi uma super-honra. Então, a poesia, editada, começou a ser um hobby, porque a minha profissão era propaganda e assim iria até o fim da vida. Crônica, então, nem passava pela minha cabeça nessa época. Só muito mais tarde é que também as circunstâncias da vida me levaram para a crônica.

Influência no leitor
Recebo esse tipo de feedback [de influenciar leitores], mas nem me passa pela cabeça. Quando estou escrevendo, nem me preocupo com isso. Acho que seria até um motivo de travação. Não fico pensando no quanto estou influenciando alguém, ou se estou fazendo a cabeça de alguém ou ajudando alguém a se reconhecer como mulher ou como homem ou como indivíduo, o que seja. Não faço essa projeção do que significa o meu trabalho. Na verdade, dizendo de uma forma bem egoísta, sigo até hoje escrevendo para mim mesma. Fazia isso quando escrevia no meu quarto, meus primeiros poemas eu estava escrevendo para mim. Hoje, isso virou uma profissão, para minha sorte, mas o processo é o mesmo: continuo escrevendo para entender o que penso, o que sinto sobre aqueles assuntos que elegi. E procuro não pensar em quem é o meu leitor. Meu primeiro leitor sou eu mesma. Porque se eu começar a abstrair muito, a pensar que eu possa ter algum papel importante… Sei que acabo recebendo um retorno, me sinto grata e gratificada, mas isso não ocupa o meu pensamento e nem é uma pretensão minha ser tão representativa assim para quem quer que seja.

Relação cortada
É tão engraçado, as pessoas dizem: “Martha, concordo com isso”, “concordo com aquilo”. Daí um dia tu escreve uma coisa que a pessoa discorda totalmente, ela se sente ofendida pessoalmente. Às vezes acontece assim: “Cortei relações contigo, eu nunca mais vou te ler porque achei um absurdo aquilo que tu disse”. E aí tu vai entender que existe uma relação passional mesmo, entende? Ela adota muito do que tu fala e depois, no dia que tu a decepciona — porque, naturalmente, as pessoas não pensam igual —, aquilo ali não passa mais como um texto que a pessoa discorda e vamos pra frente. Aquilo passa a ser uma ofensa pessoal. Essas coisas realmente me surpreendem. Porque eu, como leitora, sempre soube entender que aquela pessoa que admiro e que está escrevendo continua sendo uma relação de leitor e autor. Por exemplo, o Paulo Francis. Sempre fui fascinada pelo texto do Paulo Francis e discordava de muita coisa que ele escrevia, tinham vários aspectos que me revoltavam, inclusive. Mas isso não fazia com que perdesse a admiração pelo pensador, pelo jornalista, pelo escritor Paulo Francis, pela construção do texto. Porque o texto é uma espécie de arquitetura também, sempre fiquei muito mais fascinada pela narrativa e o conteúdo sempre foi uma segunda questão para mim — claro, importante, mas uma segunda questão. E vejo que na crônica de jornal, hoje em dia, as pessoas não têm muito essa relação de distância, realmente adotam aquela pessoa como um membro da família, como uma pessoa importante para elas. E qualquer deslize teu, deslize entre aspas, essa relação pode vir a ser cortada.

Trivial
São dezesseis anos, acho, escrevendo crônicas, já falei sobre tudo, já estou me repetindo. E já abordei assuntos bastante polêmicos, tipo homossexualismo, aborto, religião, enfim, que são sempre políticos e despertam mais comentários. Mas a ira real se dá com textos muito pueris. Uma vez falei sobre ursos de pelúcia. Esse é um case na minha vida de crônicas. Acabei fazendo um texto muito debochado sobre mulheres adultas que continuavam colecionando bichos de pelúcia eternamente, quarenta bichinhos de pelúcia em cima da cama… Fiz um texto que não tinha o porquê, uma coisa completamente boba, que não vai mudar o mundo, um comentário à toa, e as pessoas escrevendo para o jornal, pedindo que tirassem a minha coluna. Ficaram absolutamente revoltadas. Depois conversei com um sociólogo e ele me explicou que eu tinha tocado na inocência de cada uma dessas mulheres. E até ele me falou uma coisa interessante, que se a gente for à casa de uma prostituta — na casa onde ela mora, não onde ela trabalha —, vai encontrar vários ursinhos de pelúcia, que é uma representação de uma inocência perdida. Ele foi fundo e eu passei totalmente superficialmente sobre o assunto. Agora, recentemente, teve uma outra questão dessas. Escrevi sobre os passarinhos que cantam de madrugada. Fiz uma coisa super brincalhona. Eu adoro passarinho às três da tarde, mas às quatro da manhã, por mim abatia todos. Nossa! Me denunciaram para o Ibama! É aí que fico impressionada, porque são assuntos absolutamente bobos, triviais, que não têm nenhuma importância. E é justamente nessas brincadeiras que às vezes algumas pessoas levam demasiadamente a sério e é quando fico besta de o quanto elas podem se ofender com assuntos tão triviais.

Repercussão
Eu morava no Chile, em Santiago. Fui para lá acompanhando meu marido, na época eu era casada, acabei ficando oito meses com tempo ocioso e escrevia muito, usava esse tempo para escrever e acabei escrevendo alguns textos para mim mesma. E dei a sorte de um amigo jornalista nos visitar, ele pegou esses textos, levou para o Augusto Nunes, que na época era o diretor de redação da Zero Hora, eles gostaram e quando voltei a morar em Porto Alegre me convidaram para publicar um desses textos. Daí publicaram um texto no jornal Zero Hora, num espaço calhau, não era uma coluna, não era nada. Umas duas semanas depois perguntaram se eu queria escrever outro texto, mais umas duas semanas depois perguntaram se queria escrever outro. Quando vi, começou a existir uma periodicidade, de repente tinha uma coluna com o meu nome… Tudo isso eu aprendendo a fazer, ali, na hora, nunca tinha escrito uma crônica na vida. No mesmo jornal que o Luis Fernando Verissimo. Eu tinha vergonha disso! E aí houve toda essa repercussão, mais tarde começaram a sair os livros. E a ficção foi uma necessidade pessoal minha. Volto ao que nós estávamos falando, de eu sempre ter sido uma leitora de ficção, sempre foi meu gênero preferido. Tenho plena consciência das minhas dificuldades com ficção até hoje, não sei se um dia vou conseguir superá-las, mas é o que sei fazer e vou tentando. E aí resolvi fazer uma novelinha experimental: Divã. Completamente despretensioso, saiu sem nenhuma divulgação, virou um livro de moda do verão carioca de 2002. E claro, tudo isso estimula a gente, quando a gente vê que um livro acaba sendo super bem vendido. E a Lilia Cabral, pra minha sorte, também se apaixonou pelo livro. Enfim, a história vocês conhecem, acabou tendo vários desdobramentos. Então, até hoje me belisco com tudo isso, apesar de serem vinte livros, apesar de vinte e cinco anos de carreira literária, continua sendo tudo uma grande surpresa. E a impressão que tenho é de que daqui a pouquinho acabou o conto de fadas, volto, pego meu boné e vou ter que procurar emprego de novo. Nunca dou como garantida essa trajetória. É uma questão de ser bem pé no chão, eu trato isso hoje em terapia e não consigo me elevar a um ponto de pensar: “Ah, a minha trajetória, esses vinte livros, o que significaram?”. Não penso em literatura, não convivo com escritores, tenho uma vida absolutamente de dona de casa que escreve no jornal, escreve livros, faz isso com grande prazer e foi abençoada e conseguiu fazer com que isso tivesse uma ressonância forte nos leitores.

Ficção
Não sou uma contadora de histórias. Tenho dificuldade em criar personagens A minha crônica é muito autoral e, quando vou escrever ficção, acabo ficando com esse vício também de ser autoral. Foram poucas vezes que escrevi ficção, foram quatro livros apenas. E acho que o único que posso chamar realmente de um livro de ficção, cem por cento ficção, é Tudo que eu queria te dizer, que reúne 35 cartas fictícias, em que fiz o meu primeiro exercício de ficção. Mas sou uma escritora de fôlego muito curto. Para tudo. Desde a época da propaganda, que trabalha com textos muito sintéticos, eu já vim com esse vício da síntese. Na poesia também, meus poemas sempre foram compostos por poucos versos. A crônica, bem ou mal, também é um espaço limitado, não tem como desenvolver muito ali o raciocínio, as idéias, é um espaço que te permite ser uma generalista, no máximo. E quando vou para a ficção, acabo ainda com esse mesmo hábito da síntese. É uma coisa difícil para mim de elaborar. E acho que não tenho a técnica. Existe uma técnica de contar histórias, imagino que exista, que eu não tenho, não domino. O que acontece: quando estou com alguma coisa incubada, como foi o Divã, que foi bem ali nos meus quarenta anos, eu tinha vontade de questionar algumas coisas em relação ao mundo feminino, mas que no fim nem é só do mundo feminino. Depois acabei recebendo um retorno masculino forte do livro também. Mas o pontapé inicial do que escrevo em ficção sempre é de alguma angústia pessoal, de alguma catarse que estou precisando fazer e que uma vez que começo a colocar no papel se desenvolve sozinha e vira ficção de fato. Mas sei que isso é limitante, tenho plena consciência disso. As pessoas gostam porque de alguma forma tem a honestidade. Gosto de usar essa palavra porque acho que isso é definidor. Existe uma honestidade daquele sentimento, uma honestidade daquela inquietação que estou compartilhando e que cria essa magia da identificação, que faz com que tantas pessoas se reconheçam naquilo que está sendo tratado. Mas tenho consciência de que é uma prosa limitada. Acho que se um dia eu consegui sair um pouco disso foi nesse livro Tudo que eu queria te dizer, que escrevi como se fosse uma senhora de noventa anos, como se fosse um louco preso num hospício, como se fosse uma adolescente de dezoito, um suicida, uma prostituta. Então, peguei vivências que nunca tinha tido e consegui me colocar no lugar daqueles personagens. Mas ainda assim foi quase como se fosse um livro de contos, são cartas. Mas fico mais confortável escrevendo na primeira pessoa. Escolhi escrever como cartas para poder me colocar no lugar deles. De ficção, acho que é o mais bem acabado. Não teve a repercussão que teve Divã nem o Fora de mim, mas foi um exercício de criação tão gostoso. Foi o que eu mais tive prazer em escrever, em ficção.

Foto: Matheus Dias

 

Peso do sucesso
Eu abstraio mesmo, não me sinto pressionada. Me sinto totalmente no direito de errar, totalmente no direito de vender treze exemplares. Eu conto com isso, não conto com a aceitação total do livro, nunca. Sei que pode parecer maluco, mas não penso nessas coisas. O meu próximo livro, que pretendo lançar no ano que vem, é uma coisa que nunca fiz, será um livro de não-ficção, são relatos de viagens, porque o que eu mais gosto de fazer na vida é viajar. Escrever é um prazer. Eu estou sempre ligada no meu prazer de escrever, no meu prazer de contar aquela história. Depois tem a parte comercial que é entregar para uma editora, lançar e aí vamos ver o que acontece. Mas por mais que possa parecer demagogo o que estou dizendo, não tenho peso nenhum com isso. Se odiarem, se acharem que não sou uma pessoa que relate bem, nós temos vários autores que fizeram livros brilhantes de relatos de viagem. Não estou pensando em comparação, não quero saber se vai ser melhor ou pior, estou só ligada no meu prazer de fazer aquele trabalho de um jeito de que goste.

Cuidados na crônica
Isso do palavrão na Zero Hora não tem grandes problemas. Tudo é uma questão de adequação. Eu estava me lembrando agora de um cronista que acho sensacional. Na verdade ele é um cineasta, mas escreve também, o José Pedro Goulart, que outro dia escreveu um palavrão que estava completamente de acordo com o texto, com o tom, com o assunto do texto. Eu já escrevi “foi uma puta idéia”, por exemplo, que tinha totalmente a ver e aquilo ali caiu como um doce. Tenho um cuidado com a elegância do texto porque tenho um cuidado com elegância na vida que acho que se reflete na crônica. Mas às vezes isso pode não ferir a elegância se for adequado, se não for ofensivo. Porque às vezes a gente pode ser muito mais ofensivo sem dizer palavrão nenhum. A gente pode ser rude num texto sem precisar usar palavrão. Eu não penso “ah, vai chegar na casa das pessoas”. O meu cuidado é o cuidado que tenho no dia-a-dia também, o mesmo cuidado que tenho para lidar com o taxista eu vou ter com o meu leitor. Sobre assuntos, eu não entendo muito de política, não entendo muito de economia… Eu não entendo muito de nada, na verdade. Sou uma generalista que tem um prazer enorme de escrever sobre relações humanas. Então me sinto mais confortável ao escrever sobre isso, sobre as nossas não-escolhas, sobre as coisas a que a gente renuncia e que ficam guardadas mas que também fazem parte de nós. É um mundo que me atrai muito. Então essas são as crônicas em que eu acho que consigo transitar com um pouquinho mais de tranqüilidade e prazer — novamente dizendo a palavra chave. Mas às vezes falo de política, às vezes falo de alguma coisa assim, mas essas são crônicas em que fico mais temerosa, porque sei que estou invadindo um terreno que realmente não domino.

Adaptações a outros meios
Eu estranho, não é assim “eu gosto”. Bate um estranhamento enorme. Eu me desapego. Nunca aconteceu de “nossa, que coisa horrorosa, que vergonha”, nada que me envergonhasse. Até hoje não aconteceu. Tem coisas de que gosto mais, tem coisas de que gosto menos. As que gosto mais são menos vistas, até. Tudo que eu queria te dizer teve uma adaptação com a Ana Beatriz Nogueira, um monólogo, que ficou sensacional. Mas por quê? Porque não teve nada. Era só o puro texto, não houve nenhuma adaptação do texto. Era ela, no palco, sem cenário, sem nada, dizendo exatamente cada carta e se transformando em cada personagem. Então era só um trabalho de postura, de expressão corporal, de voz, mas mantendo a integralidade do texto. Então, claro, isso faz com que a gente fique mais confortável, tu te reconhece mais naquele trabalho. Pega um Divã, por exemplo, leva para o cinema. É um elenco enorme. É um trabalho de equipe. Então tu tem que ter noção de que aquilo ali partiu de um trabalho teu mas se transformou num outro trabalho, com outros autores, inclusive. Considero a Lília [Cabral] co-autora do Divã, considero o José Alvarenga, diretor, um co-autor também, porque todos eles, de certa forma, deram a sua interferência na leitura que fizeram da obra, do que privilegiaram. O Divã virou basicamente a história de amor da personagem, enquanto que no livro tinha outras indagações que não constaram do filme. Então, estranho algumas coisas, obviamente, mas só os meus botões sabem o que eu faria diferente, o que eu não faria. E esse desapego faz com que não sofra e com que goste que aconteça, porque isso amplia o público, as pessoas que não tinham lido o livro descobrem-no depois de ver a peça ou o filme. Quer dizer, dá uma abrangência maior a uma obra que era mais restrita. Acho isso positivo. E até agora tive a sorte de lidar com pessoas muito competentes que não destruíram a obra, simplesmente deram uma nova linguagem a ela.

Literatura confessional
Não sei se isso tem a ver com o fato de a nossa voz ser ainda recente. Quem falava pela mulher até cem anos atrás eram os homens, quer dizer, na literatura os personagens femininos eram escritos, na maioria das vezes, por homens. Agora que a gente tem voz, parece que está na hora de a gente mostrar finalmente quem somos nós pela nossa própria voz. Talvez haja aí essa coisa mais umbilical de se afirmar, de afirmar a nossa geração, não só a si mesma, mas a uma geração toda, de uma maneira mais confessional. Mas é uma característica da mulher no dia-a-dia também. A mulher é mais confessional. A mulher divide mais, compartilha mais do que os homens, tenho a impressão. Não acho que seja uma regra, mas acontece mais na literatura feminina, realmente. Não sei até onde isso é um defeito ou uma qualidade, porque a gente tem a tendência de ver isso como um defeito. Mas também acho que é necessário. Acho que o confessional também pode ser muito benéfico para quem escreve e para quem lê. E um Philip Roth, de alguma maneira, para citar um autor homem, acho extremamente confessional, mesmo dentro da sua ficção. Existe uma literatura hoje feita por homens também, que tem essa tendência. Eu, como leitora, gosto muito. Não quer dizer que seja bom ou ruim, isso é uma coisa particular. Mas tenho uma tendência a gostar muito de quem se coloca no que escreve, de quem deixa transparecer quem é no que escreve. E acaba que eu faço isso também. Não quer dizer que seja bom, que seja ruim. É só um estilo.

Marca registrada
Às vezes fico pensando: será que é literatura mesmo o que eu faço no jornal? Isso é uma coisa que eu ainda me pergunto. Mas é o tipo de literatura com uma assinatura muito evidente. A gente sabe exatamente — deveria saber, senão não teria tanta clonagem na internet — o que é um texto do Arnaldo Jabor, o que é um texto do Verissimo, o que é um texto meu, o que é um texto do [José] Simão. Porque a crônica tem uma marca registrada. E as pessoas sabem exatamente o que vão encontrar daquele autor. No momento em que elas se habituam, se fidelizam a ele, elas acabam sabendo o que vão encontrar. Aquele vai escrever mais sobre esporte, o outro vai ser mais debochado, o outro é mais politizado. Então tu vai conseguindo criar a tua turma através da crônica. Acaba se criando uma turma e uma identificação muito grande. Sem contar que é uma excelente maneira de formar leitores. É impressionante como vou a escolas e a gurizada me diz assim: “eu não lia o jornal e não lia livros”. Daí começam a ler crônicas, porque tem cadernos para jovens com colunistas jovens também que vão falar do show do Pearl Jam, e aí vai começando a se criar uma fidelização. Acho que a crônica é a que mais cria fidelização do leitor. Ele passa a ter um vínculo quase pessoal com aquele autor, a ponto de a gente às vezes ficar bravo com ele porque a gente não concorda. Acho isso fascinante. Acho que é uma característica da crônica — diferentemente do conto, que trabalha mais com ficção —, essa impressão de que tu está realmente conversando com o jornalista. E na verdade ele não está preocupado em ser imparcial, ele está sendo parcial com autorização, com a autorização que a crônica dá para a parcialidade. E acho que isso dá uma certa apimentada na relação leitor e autor.

Inspiração
De onde vem a crônica? Dos momentos e das coisas mais inusitadas. A insônia por causa de um passarinho pode virar uma crônica. Hoje de manhã tive uma experiência, por exemplo, que provavelmente vai virar uma crônica. Uma pessoa que trabalhou comigo três meses em 1985 — quer dizer, uma pessoa que mal me conhece — postou no Facebook uma foto minha numa festa a fantasia quando eu tinha 23 anos. Imaginem a situação, eu fantasiada, coisa que eu odeio. E daí fiquei pensando nisso, nessa apropriação da imagem hoje. Uma coisa é alguém que vai me pedir uma foto numa sessão de autógrafos, é óbvio que aquela menina que me pediu vai botar no Facebook depois. Ok, eu estou ali para isso. Isso faz parte. Agora, eu tinha 23 anos, 21 anos, sei lá quantos anos eu tinha. Quando nem sonhava em me tornar uma pessoa pública, num momento extremamente íntimo, dentro de uma festa, fantasiada, ao lado de um namorado que hoje deve estar casado, daí me põe abraçada com um cara que nem sei mais onde anda. Aquilo me deu uma raiva, sabe? E talvez eu escreva sobre isso: qual é o limite da exposição? Para que estou dizendo isso: para dizer que isso aconteceu hoje de manhã e eu vim no avião pensando que talvez escreva sobre isso. E assim vão surgindo. É um filme que eu vi e tem uma frase que me remete a uma outra situação… Eu faço muito isso, uso ganchos para falar dos assuntos. Li o livro tal, vi o filme tal, tudo isso me alimenta. Um papo com uma amiga. Então, são vivências, às vezes. Quando não são vivências, é alguma frase que li num livro, leio sempre com uma caneta, sublinho, meus livros são todos sublinhados. Não só para dar idéias, mas sublinho aquilo que me toca e que quero reler depois, mais adiante. Mas muitas vezes me serve também como fonte de inspiração para uma futura crônica. Então é do mais inusitado. Vem do leitor, vem da minha vida, vem da vida dos outros, vem de uma emoção. E tenho a famosa cadernetinha, aquela das idéias, também. E na hora sei que quero escrever sobre aquilo. Daí, vem inteiro ou não vem. Às vezes vem um parágrafo e eu disse tudo o que queria dizer sobre aquele assunto num parágrafo. Tenho que abandonar aquela idéia e partir pra outra. Às vezes vem inteira. Mas nunca sai pronta, de forma alguma. É quase como se fosse um rascunho, deixo dormir um dia e no outro começo a trabalhar o texto. Daí realmente dou a refinada.

Ato de cura
Não sofro para escrever. Quem leu Fora de mim sabe que a personagem tem uma catarse alucinante. É um livro histriônico, hoje até eu o rejeito um pouco porque é um livro histriônico que foi fruto de um sofrimento pessoal. Mas sofrimento para escrever, não. Para mim, escrever é libertador sempre. Posso ter sofrimentos meus pessoais, mas que na hora que começo a escrever começam a se dissolver. O ato da escrita não é sofrido. Sofrida é a vida. O ato de escrever, para mim, é mais cura do que sofrimento.

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