Dom Casmurro

abril 2019 / Dom Casmurro / Maria Esther Maciel

Texto publicado na edição #228

Maria Esther Maciel

Quatro poemas de Maria Esther Maciel

> Por Maria Esther Maciel

Maria Esther Maciel, autora de O livro dos nomes

Maria Esther Maciel, autora de O livro dos nomes

Ao som de Coltrane

No sofá da sala
dois gatos me olham
arredios:

o de pelo escuro
com ar obtuso
mia, ferino

o de manchas castanhas
arranha o tecido
com ríspida brandura

De repente
um deles
coloca a pata
sobre meu joelho
esquerdo

como se quisesse
me contar
com os olhos
um terrível segredo.
Lux vivens

Um fio de luz no escuro
traz um brilho oblíquo
ao recinto onde
(em vigília)
a viúva de olhos tristes
ouve uma sonata
de Bach
para piano e violino
e vibra por dentro
rediviva.

Num improviso
de alegria
(um quase extravio)
ela amplia o volume
ao máximo possível
e levíssima
quase levita.
Coisas de meu pai

um chapéu de palha sem contorno certo
botinas de couro cru com fivelas soltas

um rádio a pilhas ligado na sala muito cedo
uma camisa de listras finas com dois bolsos

uma bicicleta com cadeirinha dianteira
um balaio de vime cheio de ovos e couves

uma caminhonete com capota vermelha
uma lanterna acesa numa tarde meio fosca

um cortador de unhas preso num chaveiro
sapatos de sola firme para pisar no lodo

uma caixa de ferramentas na prateleira
um maço de cartas guardado num estojo

um regador verde deixado num canteiro
uma colmeia bem cuidada junto às flores
Apelo

Não me peças amor.

Já te dei minhas horas
de sono
e de insônia
meus dias de ócio
e meu sossego.

Já quase te dei
minha vida
e a força
de meus ossos.

Mas amor
não, por favor:

amor
eu não posso.

Print Friendly