Simetrias dissonantes

novembro 2019 / Simetrias dissonantes / Literatura-artesanato & literatura-arte

Texto publicado na edição #235

Literatura-artesanato & literatura-arte

Novidade, redundância e repertório são três elementos que estão na mente do escritor e do leitor

> Por NELSON DE OLIVEIRA

Ilustração: Teo Adorno

Ilustração: Teo Adorno

Após ganhar vida e finalmente escapar da influência de seu escritor, a mensagem literária é um organismo supercomplexo que existe apenas em estado latente. Até ser encontrada pelo leitor que a fará despertar e viver plenamente mais uma vez.

O leitor-receptor é a entidade incansável que ao longo dos séculos e dos milênios traz novamente à vida a potência incubada da obra-mensagem e a reputação dos escritores-emissores já falecidos. Mesmo assim, nossa sociedade literária ainda valoriza muito mais o escritor e a obra literária, deixando em segundo plano a onipotente massa de leitores.

Os melhores leitores não recebem prêmios ou bolsas, não dão entrevistas e não são chamados para participar de mesas-redondas e debates. (Se quiserem receber algum crédito, os bons leitores são forçados a se tornar bons escritores-leitores, ou seja, bons especialistas, ou seja, bons críticos literários.)

Novidade, redundância e repertório são três elementos que estão na mente do escritor e do leitor, é verdade, mas é na mente do leitor que esses elementos provocam a reação mais virtuosa ou mais nefasta, resultando nas maiores justiças ou nas piores injustiças literárias.

Todas as obras-mensagens equacionam novidade e redundância em doses diferentes. Uma das leis fundamentais da teoria da informação é que mensagens mais redundantes ampliam a audiência e mensagens menos redundantes reduzem a audiência.

Certos estudiosos argumentam que, pra ser bem-sucedido entre os leitores de repertório médio e médio-alto, um organismo literário precisa conter no mínimo setenta por cento de redundância e no máximo trinta por cento de novidade. Valores maiores que esses — demasiada previsibilidade ou demasiada imprevisibilidade — provocam o tédio ou a incompreensão.

Pra complicar ainda mais a situação, o que é novidade para certos leitores pode ser redundância para outros, e o que é redundância para certos leitores pode ser novidade para outros. A surpresa estética e o lugar-comum dependem obviamente do conjunto de conhecimentos (repertório) do leitor, de seu nível cultural.

Esse relativismo interpretativo, porém, só vigora quando deixamos de lado as diretrizes estabelecidas pelo consenso das autoridades literárias, das instâncias legitimadoras que determinam a priori quais obras são artesanato (maior taxa de redundância) e quais são arte (maior taxa de surpresa).

O relativismo interpretativo dificulta a classificação das obras, uma a uma, mas não impede que coloquemos lado a lado a representação genérica de duas pirâmides: a da literatura-artesanato, cujas obras seguem as regras de uma tradição, e a da literatura-arte, cujas obras criam as próprias regras. No topo de cada estrutura fica a elite literária, as obras-primas. No meio e na base ficam as obras medianas e medíocres.

São pirâmides de tamanhos diferentes. A estatística não mente jamais. A pirâmide da literatura-artesanato é bem maior, porque no mercado editorial há muito mais obras com alta taxa de redundância do que com alta taxa de surpresa. Na confortável literatura-artesanato não há qualquer dissonância na forma ou no assunto. Na desconfortável literatura-arte, ao contrário, há muita dissonância tanto na forma quanto no assunto.

Essas pirâmides genéricas da comunicação estética não são estanques. Há muita mobilidade social não apenas ao longo de cada uma das estruturas, mas também entre elas. Observem bem as obras que nos cercam. Percebam que um mesmo escritor pode produzir, ao longo de sua vida criativa, literatura-artesanato e literatura-arte em diferentes medidas, participando assim da dinâmica das duas pirâmides.

Não são apenas as obras-primas da literatura-arte que ficam para a História. As obras-primas da literatura-artesanato também. Muitas vezes as obras-primas da literatura artesanato são promovidas pelas autoridades literárias, mudando de pirâmide e passando para a História na qualidade de obras-primas da literatura-arte, enquanto legítimas representantes da cultura erudita.

Nesse cenário instável, eu insisto que a figura do leitor-receptor é a que precisa de maior atenção. Se o que é novidade para certos leitores pode ser redundância para outros, e o que é redundância para certos leitores pode ser novidade para outros, a qualidade do repertório é o que diferencia os bons leitores dos medianos.

Leitores acostumados a uma dieta homogênea de leituras jamais terão condições de avaliar por si mesmos o cardápio completo, heterogêneo. Sua percepção será sempre parcial e, se quiserem ou precisarem entrar no mérito de uma questão estética, serão sempre reféns dos próprios preconceitos ou das autoridades literárias.

No plano da generalização teórica, tudo caminha sem grandes obstáculos. É na hora de classificar as obras literárias que o problema realmente começa. Literatura-artesanato ou literatura-arte?

Apresento-lhes agora um aperitivo: minha classificação literária — breve e provisória — de duas dúzias de obras que me agradaram muitíssimo, lidas recentemente. E convido vocês a também compartilharem sua lista.

> Literatura-artesanato

Antologia, de Adília Lopes
Guerra do velho, de John Scalzi
Justiça ancilar, de Ann Leckie
Máquinas como eu, de Ian McEwan
Miserere, de Adélia Prado
Não me abandones jamais, de Kazuo Ishiguro
O círculo, de Dave Eggers
O professor, de Cristovão Tezza
Orlando, de Virginia Woolf
Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, de Cora Coralina
Poemas, de Jacques Prévert
Solar, de Ian McEwan

> Literatura-arte

A estrada, de Cormac McCarthy
A obscena senhora D, de Hilda Hilst
Antologia poética, de Murilo Mendes
As naus, de António Lobo Antunes
Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez
Contra o dia, de Thomas Pynchon
Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago
Favelost, de Fausto Fawcett
Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa
Nove, novena, de Osman Lins
O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar
Papéis de Maria Dias, de Luci Collin

Platonismo
Durante muito tempo eu fui 1, vivendo num mundo 1.

Era maçante, mas seguro. Meu pai era 1 e minha mãe era 1.

Tudo era 1: parentes, vizinhos, amigos…

Quando descobri o mundo 2, em que tudo é 2 — família, parentes, vizinhos, amigos… —, fiquei fascinada.

E apavorada. Porque o 2 me obriga a imaginar que também há o 3. O 4. O 5… A vastidão numérica e geométrica.

No início do filme The Matrix, Thomas A. Anderson é um 1 vivendo inteiro num mundo 1, um cidadão que não sabe que existe um mundo 2.

Quando ele é catapultado para o mundo 2, eu fiquei fascinada.

E horrorizada.

No restante do filme, fiquei esperando o momento pavoroso — a angústia a mil por hora — em que Thomas A. Anderson, agora Neo, descobriria que também há o mundo 3. O 4. O 5… A vastidão numérica e geométrica.

Mas isso não aconteceu. Os roteiristas acovardaram-se.

The Matrix é um filme do século de Platão, não do século de Einstein.

Autoconsciência
O que falta na literatura são personagens escritos.

Temos infinitos personagens-pessoas, animais, máquinas, fantasmas, anjos, demônios, aliens…

Mas todos esses personagens vivem a inconsciência dos adormecidos, não sabem que são criaturas escritas.

Precisamos de consciências iluminadas, socráticas, que digam: só sei que nada sei, porque sou só um personagem.

Precisamos de consciências despertadas, iguais à do Doutor Manhattan, que digam: todos nós somos marionetes, Laurie, a diferença é que eu enxergo os fios.

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