Dom Casmurro

janeiro 2012 / Dom Casmurro / José Inácio Vieira de Melo

Texto publicado na edição #141

José Inácio Vieira de Melo

Seis poemas de José Inácio Vieira de Melo

> Por JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Ilustrações: Theo Szczepanski

 

 

A pupila de Narciso

Vestido com a graça da Lua,
um cisne no lago do espaço.

Padece o poeta aos pedaços,
no espelho límpido das águas.

Narciso que cintila perdido,
buscando no rosto uma casta.

Até que na espuma dos tempos
salva a legião de afogados.

 

 

Aurora

A liberdade do crepúsculo tremula.
Escuto o alarido dos pássaros do Sertão.

Debruço-me no ninho do Cosmo.
Minhas mãos trabalham no vazio.

Minhas mãos trabalham na imensidão.
Longa batalha em busca da beleza.

Da boca dos pássaros, os violões do Sol.
Rezo benditos e grito os nomes da Terra.

Contemplo a mansidão do silêncio que voa.
As minhas sandálias são feitas de aurora.

De meus dedos esplendem labirintos.
Meu caminho é o strip-tease da solidão.

 

 

O ser e o tempo

Eu chego no silêncio que queima
as quatro ferraduras do tempo
e encontro a inesgotável jazida,
catedral do rubi que me habita.

Na madrugada sonho por todos os rumos
com o gesto que inventa o cristal das palavras,
a surpreender as pedras com a chuva
derramando em seu ventre a escritura sagrada.

Agora, apenas ando com os pássaros
a escutar as belezas da minha terra
e descasco as parábolas da salvação
a apalpar a medula que me carrega.

Escuta, meu amor, dos confins do dia,
a chegada da noite — cortina de versos
que revelam as estrelas de abril
aos meus olhos calados de tanto ver.

 

 

Rastro de Teseu

Distraído é que me perco,
e cruzo veredas outras
envoltas em verossímeis
labirintos da memória.

Com o olhar perscrutador
e com estas sete vidas
dos meus vinte dedos é
que sondo o mapa do mito.

Como perdido entre nuvens
sempre me encontras inteiro,
danço no panavoeiro
dos passarinhos ligeiros,

e reinvento os sentidos
com o vento galopante,
e te ofereço esta nova
paisagem de cada instante.

Sonata das musas escarlates

Nos olores dos aloendros escarlates, as musas todas.
O escarlate em sua noite cria a linguagem por dentro.

Por dentro da madrugada, os gemidos escarlates
de Cássia sobre a alfombra de folhas dos cajueiros.

Os tempos extinguiram os corpos, distantes,
mas os mares e os risos ainda estão envolvidos.

Outrora, a água e a cidra, os barcos nos azulejos,
outrora, por dentro do corpo da noite recendiam os jasmins,
outrora, Quitéria era infanta e se fazia escarlate ao cantar do galo.

À noite, os vestidos de verbenas eram imortais.
No mais, tudo era gozo e rito nas liturgias do céu.

Às vezes, as borboletas fazem um culto à memória de Margarete,
e os ventos povoam as pedras dos jazigos daqueles anos azuis
que jazem aqui, dentro do peito, e nos arrabaldes que vejo.

E era Linda, com os olhos sombreados dentro da noite,
e eu todo perdido nos aromas de avelã de sua volúpia,
e sobre suas ancas escarlates estou, como o mar por dentro.

E, na noite do mar adolescente, Aliane e seus cheiros:
nas pupilas das águas, no âmago das praias, envolvidos.

O verde do mar e o sangue das verbenas, enredados
no negror da noite. E eu ouvia Carla e me envolvia
nas trepadeiras dos seus cabelos, no seu templo de música.

E pelos céus da minha paixão desfilavam em flor e fogo
os vultos de Vilma e de Vanessa — estandartes escarlates.

Assim, Duíno Selvagem, breve como as águas do Sertão,
estendo as musas escarlates que perenizam minha saga.

 

 

Mandalas

I
Seguraste o sol nas costas.
Agora, reconheces nas cicatrizes
os nomes que queimaram teu corpo,
marcas que anunciam os sofrimentos
que fizeram de ti este ser estranho
que fez uma espera para tocaiar

o silêncio.

II
Na tua vigília
deste passagem às palavras
e construístes um totem
aos deuses do espanto.

Da tua língua nasceu
a mandala dos versos,
rebanho que se reúne
nas brasas do Amor.

III
Meus camelos trazem oceanos no bojo
e são mais desertos que o Saara.

Meus camelos bebem as águas do Tejo
e me levam para os seios de Sara.

Meus camelos levam os três reis magos
e caminham sem pressa rumo ao Norte.

Meus camelos ruminam na paciência
e caminham sem pressa para a morte.

IV
O sonho dorme nos espelhos
e acorda dentro do sono
para celebrar os encantos
e os tumultos do chacal.

Os olhos dos bichos estão
apregados nos espelhos
e por todos os lados
chove o vôo dos morcegos.

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