Dom Casmurro

março 2016 / Dom Casmurro / Inútil arqueologia

Texto publicado na edição #191

Inútil arqueologia

Poema inédito de Sílvio Fiorani

> Por Sílvio Fiorani

silencio

Se pensas que as migalhas
sobre a mesa não são nada,
quem haverá de convencer-te
de que a recordação é uma ciência?;
cada partícula de pão,
uma letra escrita
sobre o tecido branco da toalha.

Eis o caos aparente,
a organização secreta
em torno da louça branca;
os movimentos variados das mãos
tecem os variados desenhos:
a rede do destino:
a vida, enfim, que se esvai
a cada instante.

Eis a algaravia de todas as manhãs,
a complexa tessitura da vida de cada um;
eis a inútil arqueologia
dos gestos matinais;
esses registros da vida
que a assepsia destrói,
diligentemente.

As palavras não contam,
esvaem-se no ar;
apenas os gestos deixam vestígios.
A manteiga passada no pão
provoca rupturas na crosta,
os estilhaços deixam suas marcas no linho:
uma certa frase.
O bocado levado à boca,
tem o seu ímpeto também registrado;
a mão um tanto trêmula
produz a correspondente sentença:
o lugar havia sido ocupado por um ancião.
Há também as ilustrações
feitas de traços de açúcar
e manchas de café;
eis aí o claro manifesto
de uma infância impetuosa;
ou de uma adolescência displicente.

O silêncio se estabelece,
com sua inextricável abrangência,
com seu peso, enfim,
uma vez que todos já se levantaram
ao rumor fatal das cadeiras.

Os vestígios que restam
são tão breves;
no entanto, vale a pena,
uma vez que seja,
fazer-se retardatário,
imobilizar-se um tanto,
e munir-se do privilégio de ser testemunha
dos resíduos em sua quietude:
eles como que murmuram sua efêmera solidão,
tão próximos do caos,
do apocalipse em que serão lançados
com uma só chacoalhada.

Eis a algaravia de todas as manhãs, portanto;
a inútil — aparentemente; vê bem —
arqueologia do pão e da toalha branca
que a assepsia cotidiana profana e destrói.

Se pensas que as migalhas
sobre a mesa não são nada,
quem haverá de convencer-te
de que a recordação é uma ciência;
cada partícula de pão,
uma letra escrita.
Não importa o tempo que passe,
seremos sempre aquilo
de que nos recordamos.
A mesa posta, quando intocada,
não é mais que um livro aberto.
Experimenta, depois do rumor das cadeiras,
ler o que ali ficou escrito.
É certo que mais tarde
não te lembrarás
de como estavam dispostas as migalhas,
mas lembrar-te-ás delas,
do rumor, da mão nervosa do ancião,
dos resíduos da infância e da adolescência,
do ímpeto e da displicência;
e do espaço quase imaculado,
antes ocupado pela jovem frágil e pálida
que naqueles dias iria se casar.

O que é a recordação senão
a incessante luta contra a lei do esquecimento.
Migalha que seja,
tudo faz parte do edifício imenso
que é o passado de cada um.
Muito mais tarde pode ser
que venhas a lamentar-te
por não teres prestado atenção às migalhas.

Parece, muitas vezes, que a memória
não está dentro de nós,
e sim naquilo que transporta até nós
as antigas lembranças.

É assim que acabamos por reencontrar,
dentro de nós mesmos, aquilo tudo,
que a nossa pretensa sabedoria desdenhou
por não lhe achar utilidade.

É assim, também,
que encontramos muitas vezes
as últimas reservas do passado,
entre as quais, aquele item,
aquela migalha que seja,
e que, ao ser recuperada,
faz-nos verter as lágrimas que
imaginávamos, pouco antes,
definitivamente estancadas.

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