Ensaios e Resenhas

março 2014 / Ensaios e Resenhas / Eterna pescaria

Texto publicado na edição #167

Eterna pescaria

Em “Anzol de pescar infernos”, Ana Elisa fala de vida, de amor e de suas incertezas

> Por PAULA CAJATY

A pescaria como momento de reflexão e entrega, decepção e mágica — assim como a vida. Talvez sobre isso se erija a poesia de Ana Elisa Ribeiro, em Anzol de pescar infernos, título que surge na poesia Paquerinha: “Ele piscava para todas as meninas./ Eu só piscava pra ele./ Nem todas as meninas correspondiam,/ mas algumas iam piscar na cama dele./ Até que eu resolvi acabar com a festa/ E dei pra ele um anzol de pescar infernos”.

Os infernos de Ana Elisa aparecem mais uma vez na poesia Falar com quem?: “se nem falar sozinha pode,/ simplesmente,/ não fala./ Vai pescando/ os inferninhos/ que vai conseguindo/ no aquário da sala”.

Sobre a arte da pescaria, minha lembrança mais remota é da infância, debruçada em uma barraca de uma quermesse qualquer em festa de São João. O frio gélido do Alto da Boa Vista, o burburinho das danças em quadrilha, o calor do ajuntamento de crianças de toda idade onde havia distribuição de prendas. Na barraca da pescaria — a mais concorrida — a expectativa, o suspense de olhar as outras crianças, o choro das mais novas, o aborrecimento das mais velhas. A satisfação de quem acertava a mão, o nervosismo de querer que houvesse algo naquele peixe enterrado na areia. Naquela época não tinha prenda em todos os peixes. Na verdade, só havia prenda em alguns deles. Quem errava, perdia a vez e a ficha (bem diferente de hoje, em que todos os peixes trazem alegrias).

Tempos depois, quase adolescente, lembro das longas homilias em que os padres de sotaque espanhol tentavam explicar aos ouvintes sonolentos a parábola da pescaria, aquela em que Jesus manda os pescadores jogarem a rede pelo outro lado do barco, e ali os esperava o milagre. O milagre nem era tanto os peixes, mas o simples ato de tentar o novo, de ousar algo inusitado, de agir por acreditar no impossível. Isso eles não falavam, mas eu acabei deduzindo.

Mais tarde, já crescida, a pescaria estranha dos caranguejos, na mítica praia de Itaparica, a calça pescando siri, o céu refletido no mar em ressurgência, os pés na areia morna da madrugada, o medo de segurar firme no bicho parrudo e cheio de pinças ameaçadoras. A arte de observar a natureza, o desejo de conseguir dominar o próprio medo, o riso irrompendo o silêncio do alvorecer.

Adulta, sentia a melancolia profunda do aquário. De certa forma, só me interessava por eles nas lojas de animais. De resto, sobressaía apenas a melancolia na preparação do aquário — aquele simulacro de rio encaixotado —, a melancolia na colocação do peixe que bate a esmo nas paredes de vidro (o que será que ele vê? será que nunca aprende que não há para onde ir?). Melancolia, por fim, ao limpar o aquário sujo, ao jogar o peixe no sanitário, ao decidir abandonar o aquário. Talvez seja outra boa referência de inferno, trazida por Ana Elisa Ribeiro.

Essas são algumas das múltiplas referências que guardo do que seja pescaria. De um jeito ou de outro, entre versos e poemas, Ana Elisa se depara com infernos, aquários, mas segue pescando. Aquilo de jogar o anzol e ver o que vem. Seja por esporte ou modo de vida.

E é sobre isso que Ana Elisa mais fala, de um jeito simples e leve, de um jeito preciso e sério: da nossa vida como uma eterna pescaria. E também, por que não, da poesia como pescaria: em verso livre, sem técnicas precisas ou rígidas. Em verso livre como um rio de corredeira. Aquilo de ver no que dá: às vezes rende. E uma hora a gente acerta.

A poeta vai escrevendo e acertando entre erros, pescando idéias e sentimentos, tentando o mesmo, ou arriscando o inusitado. E, quando acerta, sabe que é preciso ter força para puxar a corda, precisa ter coragem para aceitar o que vem na rede. “Eu abro o portão/ Abro a grade/ Abro a porta/ Abro a boca/ E ele entra/ Mais tarde/ Entra de novo/ Mais tarde/ Entra mais/ E eu não gosto quando ele sai.”

Nem sempre é peixe, e quando não é, é o inferno: tempo perdido, vida perdida, a dor da derrota, o suspense do recomeço, tudo outra vez.

Ana Elisa fala de vida, mas não só. Fala também de amor e de suas incertezas. Afinal, não há eternidade na pescaria: apenas a fugacidade de boas conquistas e outros fracassos. “Eu quero encontrar alguém/ com quem eu fique, more, morra./ Que não me chore, não me doa,/ não destrate, não corra.”

A pescaria é ingrata. Todo dia se repete, todo dia exige a mesma dedicação, a mesma tenacidade, o mesmo enfrentamento com o futuro. O que vem? O que virá? Será que hoje rende? Essa é a sina de todos os pescadores: de peixes, de homens, de palavras.

A pescaria é mesmo ingrata. Assim como nos mares e rios, todo dia a coisa vai ficando um pouco pior, um pouco mais pobre, um pouco mais difícil, e nada mais é como sempre foi. Como costumava ser, belo e brilhoso, cheio da expectativa de dias melhores. O tempo passa e o sol queima mais, os ventos castigam, a maresia cansa, o mar traz cada vez menos sabores. As palavras vão se tornando queimadas, cansadas, insossas, e logo o pescador se depara com a melancolia própria do aquário. Não seria melhor pescar em um aquário? Em um bioma completo e regulado? Infelizmente, neste caso, o pescador perderia sua própria identidade, passando a um fazendeiro de peixes.

E do pescador, então, o que dizer dele? Estaria também ele em um aquário? Ou no rio solto, em corredeiras, em mar revolto? Para Ana Elisa, pelo visto (ou pelo lido), o inferno é o aquário. “oh sim,/ bebam mais um gole,/ imensa talagada,/ e vamos falar de amor,/ essa coisa tosca/ esse quase tudo/ esse quase nada.”

Mario Quintana, em sua eterna ligeireza e brejeirice, brincava: “Para os peixinhos do aquário, quem troca a água é Deus”. E o texto de Ana Elisa traz exatamente essa ligeireza e brejeirice, adicionando os temperos da ironia e do sarcasmo que rondam todos os relacionamentos a dois.

Para escrever, Ana Elisa revela que procura sempre por uma fagulha inicial nos textos, busca a própria palavra e sua força para gerar metáfora. E não há melhor metáfora para os desencontros do amor que a poesia Se eu chego antes: “Se eu chego antes,/ te pego com respeitos demais;/ Se eu chego atrasada/ te pego casado e pai;/ Então eu chego agora,/ para ver se é boa hora”.

Para poesia, é sempre boa hora. Já a pescaria de peixes e de amores deve respeitar humores, marés, correntezas, e é mesmo preciso respeitar relógios. O que faz da pesca (de amores? de palavras?) um esporte infinito.

Em sua apresentação, a poeta explica, com simplicidade: este Anzol é produto da “infinita pescaria” nos últimos cinco anos. Ana Elisa está certa: quando somos pescadores de palavras e sentimentos, até quando estamos dormindo o peixe vem.

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Ana Elisa Ribeiro

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Nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1975. É doutora em Lingüística Aplicada e mestre em Estudos Lingüísticos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Cronista do Digestivo Cultural desde 2003, é autora de outros livros de poesia, tais como Poesinha (1997), Perversa (2002) e Fresta por onde olhar (2008). Também tem livros de crônicas: Chicletes, Lambidinha & outras crônicas e Meus segredos com Capitu. Participou de diversas antologias e coletâneas de poesia e conto no Brasil e no exterior.

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Ana Elisa Ribeiro
Patuá
100 págs.